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Empenho

Sei que estão todos empenhados na busca pelas minhas sonhadas gêmeas...
Sei que este empenho é tamanho que mal posso agradecer.
E sei que tenho sido um ingrato por não postar.
Peço que me desculpem, tenho trabalhado um bocado.
E é justamente por isso que estou viundo até voces.
Para dar notícias.
Por questoes de trabalho vou fazer uma pequena viagem de negócios a Foz do Iguaçú.
Assim, estarei na Tríplice Fronteira...
E, enquanto voces buscam pelas minhas gêmeas eu aproveito o tempo para experimentar uma argentina e uma paraguaia.
Depois eu conto como foi.
Se eu der um pouco de sorte consigo as duas ao mesmo tempo.
Ai sim, vai ser fantástico.
Devo estar fora por toda a semana.
Começo a pensar que este blog é impróprio para menores...



Escrito por Ronin às 09:35:07
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Um homem bêbado e uma questão

Saí mais do trabalho hoje. Concessão do chefe, que viu o serviço do dia terminado e eu jogando paciência para fazer o tempo passar.
Ele me disse: “cara, vai pra casa, se você está fazendo em seis horas o que outra pessoa não fazia em dez comece a chegar as 8 da manha e sair às 5 ou até mesmo 4 e meia. O que me interessa é produção, não carga horária...”
Diante de tanta bondade sorri. A alegria consistia em estar livre do trafego na Brás Leme inteira, tanto quanto na Avenida Rudge, dois corredores para o inferno.
Pois foi na Brás Leme que ele entrou no ônibus. Bêbado. Uma mancha de sangue no rosto, ressecada. Pensei: “Sangrou sabe Deus porque até que parasse de sangrar...”
No ônibus iniciou-se uma pequena revolta. Todos manifestavam asco, impulsos de por o homem, era, ainda, um homem, para fora do ônibus. É certo que aquele ônibus não o levaria para casa, levaria, sim, para um local mais perigoso, na periferia de São Paulo; então, talvez fosse bom que ele fosse colocado para fora do ônibus.
Mas o móvel que carreava aquelas pessoas não era esta intenção piedosa de poupa-lo de perigos. Era, sim, a de se ver livre de um inconveninete homem bêbado, que ria com sarcasmo (perfeitamente justificável) de tudo e de todos, debochadamente, na sua embriaguez.
Eu me perguntei que drama ia por aquela vida.
Quanta gente não vi, aparentemente saudável que se encaminhava silenciosa e paulatinamente à loucura ou o suicídio?
Quanta gente aparentemente centrada eu não vi cair em desatinos.
Quantas vezes eu mesmo não desatinei e despenquei por resvaladouros de loucura e demência que muito me custa lembrar e saber...?
O que há com aquele homem? Nunca saberei. Nunca sabereis.
O que sabeis é que ele estava bêbado, numa perigosa avenida e entrou num ônibus de onde todos queriam expulsa-lo.
Isso me faz refletir no quanto somos mesquinhos uns com os outros, vendo, sempre, o lado ruim das coisas sem se perguntar se, estando cada um de nós no lugar daquela pessoa, não faríamos algo semelhante ou ainda pior...
Apressamos-nos em catalogar e caracterizar como inconveniente qualquer coisa que saia do padrão estabelecido por normalidade e, por conseguinte, expulsar de nosso âmbito.
Ninguém para pensar a ferida daquele homem.
Ninguém sugeriu uma parada num pronto socorro.
Ninguém pensou em acudir aquele que, em síntese, é um homem.
Mais fácil expulsar, largar na sarjeta, ignorar e tocar a vida adiante, como se estivesse, como dizia o poeta Raul, “contribuindo com a nossa parte neste quadro social...”
E esta linha de atitude condicionada não se mantém apenas e tão somente com aquele bêbado.
O negro é excluído.
O pobre é excluído.
O miserável é excluído.
A mãe solteira é excluída numa sociedade que condena o aborto.
As crianças, em geral, não recebem educação adequada por parte de pais e professores...
Ah... É cansativo fazer a lista de misérias que impomos a nós mesmos e nossos descendentes.
Pois é isso que fazemos hoje: Construuímos o mundo de nossos filhos e nossos netos. Criaturas que, no mais das vezes, amamos...
Foi apenas isso o que eu vi no rosto manchado de sangue daquele home que nem mesmo eu acudi...
Mas, se não pude, por imperícia, preguiça ou inépcia, socorrer aquele homem, posso, ainda, lançar, com base nestes vaticínios, uma breve pergunta:
“Que mundo estamos construindo?”
E uma sub questão:
“Gostaríamos de viver nele?
Cada um que fale por si...



Escrito por Ronin às 09:34:43
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Indignação

Cadê minhas gêmeas???
Ora essa, eu quero o meu menáge

Escrito por Ronin às 09:34:20
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Simples

Sim Marcelle, você tem razão quando me diz que o "sonho bom"
poderia acabar dando errado. Tem toda a razão.

Quanto ao que diz Regiane sobre a vida real (...) eu ouso discordar.




Fazemos nossas vidas como queremos. Pelo menos eu, que nunca aceitei submeter-me
as idiossincrassias do mundo a faço assim.

As vezes pago um preço alto por isso. Mas prefiro ser uma palmeira e
rachar e morrer a um golpe de machado que ser uma destas plantinhas que são
moldáveis para cercas vivas. Há homens e mulheres assim e do outro
moído. Eu sou do outro modo.




E, se sofro em cárcere permanente pela dor de ter perdido a mulher que
me completava, com a qual eu passaria o rsto de meus dias, para a qual eu daria
meu nome (nunca pensei nisso nem mesmo com Gabi), pela qual eu teria morrido
se preciso e permitido fosse, também é verdade que tenho um a
felicidade sombria de amar e ser amado, malgrado a distância e os lances
de dor angustiosa.




É que amar, amar mesmo, é coisa complicada.




Aceitar o outro (a) como ele(a) é, sem impor condições,
sem esforços de mutação, fazendo luz para que a pessoa
enxergue, dosando esta luz para não ofuscar a visão, doando-se
diligentemente, tanto material como espiritualmente é coisa para poucos.




"Por ser amor, invade e fim. Amo você amo
sentir isso."




Estava pixado na Rua Avanhandava alguns anos atrás.

Se as prefeituras sucessivas tiveram algum bom senso deixaram isso lá...




Pois é assim que eu me sinto: Invadido por um amor que não tem
fim.

E se dói, se me faz chorar, se me faz tomar benzodiazepínicos
para dormir, se me tolda a capacidade de doação integral a outra
pessoa, paciência. Eu já tenho, mesmo que perdido e irremediavelmente
perdido, o meu amor.




Há coisas que nos marcam profundamente, como um ferro em brasa.

Ela, e o que vivemos, foi assim. Marcou para sempre.

O que posso fazer?

Pouca coisa, senão ir vivendo, um dia após o outro na expectativa,
talvez vã, que as conjunções astrais e planetárias
um dia deixem de conspirar contra nós e nos permitam a raliza';cão
de um sonho onde sexo já nem tem importância.




Se na minha vida complicada, frágil e constantemente ameaçada
houver um ocaso, com luz avermelhada e prata nos cabelos, eu ainda gostaria
de passar este ocaso com ela, que certamente vem aqui e deve tomar ciência
disso, de que ainda a espero, malgrado os prognósticos.




Amei muitas mulheres. Algumas de maneira colossal.




Mas esta, em especial, eu amei integralmente. Incondicionalmente. Apesar de
algumas tolices.




Acho, ousadia minha, que finalmente, com ela, eu aprendi a amar (como se isso
fosse possível).




Não quero desaprender.




Nem mesmo morrer... Quem sabe um dia...?




Quero poder ser quem sou, sentir o que sinto e, se não posso ser compreendido,
pelo menos aceito...


Não é pedir muito. :o)



Escrito por Ronin às 09:33:50
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A PERDA DO SENTIDO

Alguém me disse hoje que vivo no mais triste dos cárceres...
O cárcere de um amor perdido.
Há pouco tempo minha analista disse coisa parecida. Ela mencionou que a promessa de um certo alguém, “vou-te amar por toda a minha vida”, é um modo de “não libertar”.
E isso é uma grande verdade.
Sou prisioneiro deste amor, depois de mais de mil dias eu ainda respiro este amor e ainda sussurro, ao deitar para dormir, o teu nome.
Mas não é idolatria. É saudade. É saudade do que tive e do que poderia ter tido. É saudade daquilo que a vida me roubou num átimo.
E é mais. É lembrar de quanto eu cresci enquanto ela esteve comigo.
O quanto ela me moldou, melhorou, ajustou, fez crescer...
Talvez vocês me desprezassem se me conhecessem como eu era antes dela.
Ela terminou o que Gabi começou. Entre ambas, muitas, todas incapazes...
E se o caso com Gabi acabou por exaustão, o caso com ela acabou por outras razoes, que nem cabe aqui mencionar, pois não cabe, por questão de caridade, a crueldade alheia.
O certo é que há Justiça. Mas eu aprendi, com ela, a buscar a justeza das coisas...
E é procurando pela justeza das coisas que eu procuro viver, dando os passos certos, pelo menos os que eu acredito serem certos, nos momentos adequados...
Mas, meus amigos e amigas, leitores de todos os dias, minha vida não é fácil.
Vivo num labirinto de hipóteses, com uma pergunta perpétua:
“Como seria, se não fosse?”
O futuro do pretérito a Deus pertence e a mim só cabe elocubrar.
E nas minhas elocubraçoes eu vejo um casamento feliz, um casal que se ama, num passeio pela praia, discutindo o “todo”, Deus e a miríade de caminhos que conduzem a Ele.
Vejo um casal fazendo amor em pleno meio dia, enquanto a cidade se exalta correndo atrás do que comer...
Vejo um casal que almoça as 4 da tarde e janta as duas da manhã, sem regras, sem idiossincrassias, sem temores; simplesmente vivendo um dia de cada vez, buscando, a cadsa dia, se tornar melhor.
É isso o que me foi tomado. É isso que é irrecuperável. É isso que me faz chorar... É isso que, muitas vezes, me faz ter o desejo incomensurável de morrer, pois a vida parece ter perdido todo o sentido...



Escrito por Ronin às 09:33:28
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Hoje a Lua está divinamente cheia. Como naquela noite, no primeiro dia em que nos vimos.
Ao olhar para a Lua, minha bem-amada, eu só posso me recordar de você se espreguiçando na amurada que separava a calçada da praia e do meu impulso insano de te agarra ali mesmo...
Para me conter, eu olhei para o amr e te disse:
“Olha como está lindo o mar prateado!!!!”
E, no meu intimo, tudo o que eu queria era te devorar... E eu pensava: “Senhor, como vou me reter?” “Como vou poder me portar como um cavalheiro diante deste deslumbramento de mulher?”
Caminhamos sob o Luar de Parador.
Ao entrarmos em um restaurante o garçom se referiu a você como “minha Senhora”.
Mal sabe ele o quanto estava certo.
Mas ele pensava que fôssemos um casal. E, na verdade, o éramos, mesmo que efêmeramente.
Jantamos.
Trocamos olhares.
Pilhérias.
Contamos coisas.
O tempo era tão curto!
Voltamos para casa.
Desatinamos a falar, cada vez mais perto, cada vez mais próximos, cada vez mais angustiuados.
Pelas tantas, lembro-me, tomei-te pela mão e puxei-te de manso...
Enquanto puxava-te e tua cedia fiz a pergunta: Me dá um beijo?
E você disse: “Claro”.
E tudo explodiu.
Já nada mais nos detinha.
A loucura, o frenesi, o tesão, a paixão...
Só me lembro d flashs do que houve.
Posso ver você assim, ouvir você dizendo, quando pusemos a camisinha:
“Agora eu posso”...
Sim, você podia. E pode. E provou deste mel. E me deu de seu mel.
E nos amamos como loucos por quatro noites consecutivas...
A vida e seus impositivos, suas crueldades nos separou e, sinceramente, acho que nunca, mas nunca mesmo, nunca mais a verei.
Mas sei que você está ai, me amando, conforme o que prometeu.
E, quer saber?
Eu ainda te amo. E nunca, mas nunca mesmo, amarei a outra pessoa como amo a você.
Beijos
Cau



Escrito por Ronin às 09:32:53
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Um pedido “Sui Generis”.



É natural que depois de alguns meses eu me sinta íntimo das pessoas que me visitam.
Assim, fica mais fácil falar sobre coisas que eu jamais falaria.
Bom, pode parecer estanho, mas eu tenho uma fantasia (para mim fantástica) não realizada:
Um “ménage à trois” com uma dupla de gêmeas idênticas.
Difícil....
Mas não deve ser impossível.
Se houver, dentre as minhas leitoras, uma dupla de gêmeas disposta a realizar este sonho, queriam, por favor, entrar em contato pelo e-mail rapaz_do_sindicato@yahoo.com.br
Se você não tem uma gêmea idêntica mas conhece duas, passe este recado a elas. Façamos uma corrente!
Quem sabe eu não realizo minha fantasia...?



Escrito por Ronin às 09:32:31
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Renato diz



Estou torcendo para que tbém leia estes comentários. Agora tenho instruções, qdo antes só tinha a vontade de lutar!. Pensei muito no que disse, quanto à SUPORTAR e que Deus sabe o que faz. E isso me dá medo, e gostaria de te dizer porque:

A cerca de 3 anos, conheci a mulher da minha vida. Durante 2 anos, tivemos uma vida intensa, até que por uma burrice minha eu a larguei.

Me envolvi com uma prostituta (com todo respeito, pois sei da sua estória) neste meio tempo, e me contaminei porque a camisinha escapou e o tal ficou alguns minutos desprotegido. Qdo começou a aparecer os sintomas da fase aguda (bem no comecinho) comecei a desconfiar, e ao mesmo tempo, voltei a ter contato com a namorada. Relatei minha desconfiança e TUDO que fiz. A única frase que ela me disse (por telefone) qdo lhe contei tudo e sobre minha desconfiança de ter contraído o vírus: VOU FICAR COM VOCÊ PARA O QUE DER E VIER.



Fiz os exames.....Reagente.

Fizemos sexo de forma protegida. No entanto, eu estava em tratamento dentário e, não pensei nas conseqüências. Em algum momento, em alguma intimidade, talvez ela...

Teve sintomas gripais, dor de cabeça, manchas vermelhas que coçavam (desconfio que seja rash).

Mas mesmo assim, ela não tem medo. Porque me ama, porque estamos juntos. 

E é por isto que tenho medo. Muito medo. Talvez poderemos SUPORTAR. Que Deus tenha misericórdia de Nós. 

Abraço.

Obs. Não quero te passar a imagem de que estou implorando pela piedade alheia



Naturalmente que eu leria...

Errar, não conheço quem não erre. E muitas vezes nem sei se o erro é erro ou solução de continuidade para a vida que, às vezes, pede por mudança, pelo novo, pelo sem compromisso, pela liberdade... Ah, amiguinho, se você pudesse entender a vida e as pessoas como eu entendo e perceber que, no fundo, ninguém é de ninguém e que, se cada pessoa compreendesse isso e concedesse ao outro (A) a liberdade de escolher, ir e fazer, a vida sseria menos complicada, mais simples, mais tenra e muita coisa seria evitada só por se desfrutar da liberdade

Não tenho “minha mulher”. Não sou o “homem de mulher alguma”. Apenas vivo e, vivendo, sigo os meus desejos e impulsos, sempre com ponderação, exercendo a minha INDIVIDUALIDADE. 

É a minha vida, são os meus dias, é o que eu levarei comigo...

Mas a maioria prefere complicar e tanta cisa deixa de ser vivida só por causa de uma coisa tola, ilkusória, chamada “posse”.

Posse de quê, pergunto eu. Da alma de outra pessoa.

Nem a Deus pertence a minha alma, posto que ela me a deu...

E é nesta balada que viveis... possuindo o que não é vosso.

Mas, tudo bem, cada um cada um.

O que há de importante a ser dito é que eu não creio que sua namorada seja soropositiva. As coisas que você coloca não permitem que eu pense isso. Mas uma coisa é certa, não foram “algusn segundos despotegidos com uma prostituta” ou quem quer que seja que te conduziram a soropositividade.

O HIV não é assim tão eficiente na hora da transmissão. É preciso uma boa exposição ao vírus para soroconverter. Mas que isso não sirva de azo para que se transe por ai sem camisinha porque 0.3% para mim representaram 100% e eu vivo a vida que escolhi para mim.

Entretanto, mesmo não crendo que sua namorada seja soropositiva, eu preciso dizer uma coisa:

Se o resultado dela der positivo a única coisa que vocês poderão ter certeza é que ambos portam o vírus.

Nenhum dos dois, jamais, poderá saber quem passou para quem (ela pode ter passado para vc); então, não há culpados. E o fato de você ter descoberto primeiro a doença não faz de você, necessariamente, o vetor dela. E se ela está com você para o que der e vier, deve, com certeza, compreender isso também.



[]’’s

Cláudio.

No próximo posto farei um anuncio importante.

Espero que todos estejam preparados para ajudar, mesmo que em mutirão, a realização se um modesto sonho meu, que não custa dinheiro, apenas carinho...

Até lá, aguardem... :o)))

Escrito por Ronin às 09:29:14
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Para o renatinho

Para o Renatinho.

Li sua mensagem no painel ainda estava no trabalho. E desde aquela hora não parei de pensar em você. Passei por isso que você está passando oito anos atrás e sei como é difícil...
Permita-me, por favor, falar um pouco de mim e de minha história depois de saber-me soropositivo.
Foi no dia 13/11/1996, às 15:43 *(era a hora no relógio da médica).
Faltou-me o solo. Faltou-me o céu. Faltou-me o ar e eu sorri, dizendo: “Bem, eu já vivi o bastante, me diverti a bessa”.
A Dra Guadalupe riu e disse: “Aos 32 anos você diz que já viveu o bastante? Não é assim...”
E começou a me explicar que a ciência havia evoluído muito no que tangia ao tratamento da AIDS, das infecções oportunistas e do contexto em geral.
Eu ouvi tudo mecanicamente e segui a recomendação dela de procurar o CRTA na Rua Antonio Carlos, 122 (não existe mais, está na estação Santa Cruz do metrô,). Ignoro o caminho que segui entre o Hospital Bandeirantes e O CRTA.
O que passava em minha cabeça eram três coisas:
1 – Eu ia morrer como uma samambaia num vaso sem água.
2- Eu matara Simone, minha ex-namorada, que eu amava desesperadamente (como amo cada uma das minhas mulheres)
3- Devo matar-me.

Em meio a esta tempestade onde eu era meu Promotor e juiz rigorosos e um tíbio defensor houve uma voz que disse:
“Aceite as conseqüências dos seus atos (eu tive uma vida louca) com dignidade e viva o quanto for possível”.

Assim não me matei, como está óbvio.
Por uma destas razoes que ninguém explica, no meu mundo, na noite, onde eu vivera 15 anos, todos concluíram, dada as minhas condições físicas, que eu estava com AIDS.
Foi aí que o HIV me deu sua primeira lição: Me mostrou quem eram meus amigos de verdade e quem era apenas um “carona em minha vida”.
Perdi emprego.
Morava em hotel.
Fui despejado.
Passei três dias nas ruas sem coragem de procurar ajuda de ninguém até que me lembrei de Elisabeth Castro, ex-gerente do antigo Sky-Perepepes onde eu fora DJ algum tempo. Sabia que ela era envolvida com a causa HIV/AIDS. Esperei mais uma noite, a quarta, e procurei por ela.
Na mesma noite ela me colocou numa casa de poio. Não direi o nome de qual. Isso não importa, até porque não tenho boas recordações de lá. O Inferno na Terra. Só gente louca.
Mas vivendo na casa de apoio eu tive a oportunidade única de deitar-me em uma cama e ficar em depressão por dez dias, julgando que ia morrer em breve, vivendo o draa de contar ou não contar para Simone sobre minha sorologia.
Em meu intimo eu sabia que o certo ra contar, dar a ela a mesma oportunidade de saber e se tratar que eu estava tendo, mesmo que eu não acreditasse em tratamento. Mas o medo me retinha. Para resolver este drama foi preciso a intervenção de um amigo, que contou por mim.
Ela é negativa.
Deus sabe o que faz.
Ela não suportaria isso (pense nesta frase).
E eu tambem não suportaria isso.
Na casa de apoio, por estar relativamente bem, me voluntariei me e comecei a acompanhar pacientes da Casa ao CRTA.
Era exatamente o momento em que começa a terapia combinada, o dito coquetel, e eu pegava, naquele momento da minha história, um momento específico da historia onde eu via morrer os ul;timos pacientes daquilo que eu chamava de “a primeira onda...”
Eram os pacientes que, debilitados demais, não poderiam usufruir dos beneficios do coquetel.
Posso dizer que vi uma pessoa morrer a cada dia durante uns 5 meses.
Márcia, Adriana , Waldir, Edna, Elaine, Eliane e tantas outras pessoas que a mim basta, já tenho cheia a minha cota de cadáveres...
Enquanto assistia isso e me aterroriza a cada dia, minha médica, Dra Patrícia Maya Cipollari me receitava o coquetel e me fazia ver que as coisas não eram tão terríveis... Quye aquelas pessoas que estavam morrendo morriam porque os remédios chegaram tarde demais para elas, que o perfil do soropositivo mudaria, seria o de uma pessoa saudável, com uma doença crônica como o diabetes (pense nisso)...
O que sei é que aceitei a teoria dela e decidi, por mim mesmo, que não me deixaria morrer. Não assim, tão simplesmente, sem dar, pelo menos, algum trabalho a este hospede indesejável.
Ah, não eu! Eu não seria derrotado pro um simples vírus!
Então adotei uma atitude positiva diante do vírus.
Só me lembro dele quando é necessário.
Só penso nele com desprezo,nunca com medo.

Não tenha medo.
Este é seu maior adversário.
Também não tenha raiva, vergonha ou culpa. A raiva faz mal pro fígado, e vc vai precisar dele; a culpa e a vergonha fazem mal para a alma, e vc não merece isso.
Se você quer o caminho, eu posso te mostrar o mapa do caminho que eu escolhi:
Eu escolhi não pensar na morte por conta do vírus.
Eu decidi pensar em viver da melhor maneira possível, por conta do vírus.
Não quero ser um herói.
Mas não posso ser um covarde.
Então luto com tudo o que eu tenho em minha mente e vou derrotando o virua a cada dia.
Não tomo medicação. Meu cd4 está em 1200. Minha carga viral baixou, sozinha, de 85.000 para 34.500.
Eu me cuido. Procuro me alimentar bem. Não cometo excessos. Não sou um santo. Há algumas exceções...
Vivo um dia de cada vez. Mas faço planos para dez anos...
Se um dia estou mal, por conta do vírus, enfrento este dia como qualquer outro e, se não vencer, pelo menos saio com um empate.
Um a um... Zero a Zero, não importa. Vencido eu não termino o dia.
Em suma, aceite sua vida como ela é e procure ir melhorando-a com paciência e diligência.
Há um Deus. E Ele olha por todos.
Não seria diferente com você.
Um abraço.
Claudio



Escrito por Ronin às 09:28:52
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Um strip tease

Com esta música, a Matter of
Feeling (Duran Duran), Gabi fazia Strip Tease.



 


Ela entrava em cena depois de eu
tê-la anunciado como “bonita, charmosa e sensual”. E depois de pensar “e
deliciosa”.


Ela andava ao ritmo batido da
musica numa pista de danças octogonal enquanto eu exercia o meu oficio de
iluminar para que não vissem nada..


Um toque de estroboscópica
aqui, uma luz azul ali, um canhão de mil watts especialmente colocado nos
fundos, este só permitia que se visse um vulto... Luzes piscando e ela tirando
a roupa.


Primeiro, a blusa. Devagar. Uma
tirar sem fim, mais uma ameaça que uma realização até que saísse a primeira
manga. As luzes tornavam-se ainda mais confusas, era a minha mulher tirando a
roupa em publico e, felizmente, quem controlava as luzes era eu...


Aí ela passeava, musica longa,
espetáculo complexo e acabava de tirar a blusa... Algumas voltas e ela tirava a
saia, rapidamente, como se não vivesse para fazer outra coisa diferente de
tirar saias...


Ah! As luzes, as luzes agora
caem para um tom azulado, as luzes da pista são apagadas, a estrobo pisca
lentamente, com o dimmer setado para o nível mínimo de luz.; eu conheço o
show, sei o que ela vai fazer, preciso conduzir a minha parte com precisão...
Ela tira uma alça do sutiã, as luzes escurecem, tira a outra, joga o sutiã
fora e fica, seios à mostra, indefiníveis pela ausência controlada de luz.


Ela olha para mim. Sorri.
Estamos nisso juntos. Até mesmo nesta hora éramos cúmplices, dois ladrões,
oferecendo algo, muito pouco, e tomando tudo, as ilusões da platéia... Em
resposta ao seu sorriso pisco uma luz amarela, ela brilha por um segundo e fica
completamente visível, é nossa esmola àqueles olhos ansiosos...


Ela está só de calcinha,
pernas roliças, seios na medida, cintura delineada pela luz mortiça e
alaranjada que vem do fundo e a musica começa a acabar...


Matter feeling.... Matter
Feeling... Matter Feeling... Matter Feeling... Matter Feeling... e vem um
repique de bateria.


Ela tica a calcinha, a música
acaba, eu apago todas as luzes, inclusive o ultra violeta e digo, cinicamente,
aplausos para Gabi!


Tínhamos uma variante para este
espetáculo: Ela entrava completamente nua, nas trevas, ia se vestindo e a luzes
iam crescendo, para mostrar sua exuberância. Mas este usávamos pouco...


E ela é dignamente aplaudida.


Em seguida estou nos bastidores,
come ela, ainda nua, beijando-lhe a boca e tocando-a toda, certificando-se que
ela é minha.


Só tenho uma frase nesta hora:


Ter amo.


E ela tem outra.


Eu também.


Quatro da manhã vamos para casa
e nos amamos.


Posso me queixar de muitas
coisas na vida.


Mas não disso.


Amei e fui amado.


Que mais se pode esperar da
vida?



Escrito por Ronin às 09:28:17
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Uma janel apagada

Algumas vezes eu procuro entender o mundo. Só para constar, a casa da mulher que nunca para de lavar roupas está completamente às escuras. Deve ser por causa do culto que vi em uma certa Igreja aqui perto. Tenho a impressão que vai ser uma noite de vigília, sabe Deus porque...
Mas entender o mundo é muito complexo. Melhor eu tentar começar por tentar entender a mim mesmo. E é o que tenho feito com algum empenho já há algum tempo sem muito sucesso. Por isso, aliei aos esforços de minha psiquiatra uma psicóloga: Éline.
E pela primeira vez consegui me entender com uma psicóloga. Cheguei à terceira consulta. Não que as outras fossem más em seu ofício de deslindar almas. Eu é que não me adequava a elas e, assim, raramente ia à terceira consulta.
Com Éline, está sendo diferente. Éline consegue me ouvir com os ouvido e a alma. E consegue compreender um pouco do que se passa nesta tempestuosa alma que vos escreve besteiras o tempo todo para dar vazão à própria inquietude.
Assim, começo a entender que a minha corrida louca pelo sexo não era mais que uma busca inconsciente pelo afeto que me foi sonegado em anos e anos de vida nas ruas. E, mistério dos mistérios, eu abandonava as fontes de afeto, com algumas exceções, imediatamente após receber o afeto.
Esta era a minha forma de vingança simbólica contra quem me sonegou afeto, amparo, abrigo, carinho e todas estas coisas miúdas que fazem parte das nossas necessidades mais básicas...
E de vingança em vingança, de crueldade a crueldade, eu enchi um vale de lágrimas...
Todavia, eu não sabia o que fazia. Apenas fazia, mecanicamente, o que meus instintos mais básicos ordenavam.
Desta forma criei, para mim, uma multidão de fantasmas emocionais e um labirinto de hipóteses.
Eu fico preso, por mim mesmo, ao campo das possibilidades.
“E se...?”
Como teria sido, se não fosse. Dizem que o futuro do pretérito a Deus pertence.
E Deus, que tem me socorrido das mais variadas formas, me sonega esta resposta. É justo. Um pai ensina a seu filho apenas aquilo que ele julga que o filho possa assimilar sem choques...
E, pelo visto, ainda não estou pronto para as respostas. Até porque são muitas as perguntas e as respostas, temo, não serão sempre agradáveis de se ouvir ou constatar.
Éline e Valéria, minha psiquiatra, me chamaram à atenção para um fato simples: Porque eu vivenciei a coisa como uma tragédia moral, não significa que a outra pessoa assim o sentiu. Talvez, para ela, não represente nada. E esta é uma grande verdade. Entretanto, há aquelas que me deixaram claro que eu fui o desastre de suas vidas. E o fizeram com palavras e atos (a maluca que se jogou do segundo andar de um prédio e está paraplégica é uma destas; e é uma culpa da qual não posso me eximir: eu dei curso àquele gesto).
Estas, por menos que sejam, já me pesam muito e, para que eu deixe a consciência menos suja é preciso que eu faça muita coisa pelo mundo que não consigo entender.
Mas, como já disse, é preciso, antes, que eu entenda a mim.
E parece que começo a me compreender. Hoje sei porque consigo amar meu pai que me espancava e não consigo perdoar minha mãe que me abandonou: Eu e ele temos algo em comum: Nós dois fomos abandonados pela mesma mulher.
Ele a chama vagabunda. Quando ele disse isso repliquei que ele dormiu com ela 10 anos.
De alguma forma a defendi. E muitas vezes tentei algum contato, alguma forma de restabelecer os laços entre ela e eu mas, infelizmente, ela não correspondia a nenhum movimento. Ao fim de tudo, esgotado emocionalmente, dei a ela a mesma moeda que me dava sempre: A indiferença.
O último gesto que tive para com minha mãe foi transferi-la de um hospital precário (depois de uma briga infernal onde ameacei a diretoria do hospital com o Conselho Federal de Medicina) para o HC, onde a deixei para salvar-se ou morrer. Dei à minha meia-irmã Cecília uma dúzia de números de telefone e vários endereços de e-mail. Nunca soube o que aconteceu. E nunca mais procurarei saber.
Fica entre ela e Deus. Posto que acredito em Deus.
Enfim, começo a me compreender e, ao que parece, isso é bom.
Sei que é apenas a terceira consulta, o terceiro diálogo e que muita coisa ainda vai sair desta cabeça... Sei, também, que vai doer. E avisei a Éline que cuide bem disso, pois é meu Universo Interior que estará sendo aberto para ela. E muita coisa vai doer barbaramente.
É a dor de viver; curioso é que a vida não precisa ser dolorosa, mas para mim dói...
Não há semana em que eu não pense em suicídio como alternativa válida para o “porvir”... Sei como acabam as pessoas que vivem com o que eu vivo. Hoje vi mais uma delas, uma ruína humana em condições deploráveis... E eu sempre me pergunto quando será a minha vez. E como será a minha vez. E quem estará comigo quando for a minha vez. E se eu poderei suportar com dignidade e honradez os últimos lances do meu jogo...
Não tenho resposta para estas perguntas. E tenho tantas outras perguntas a fazer...
Tomara que eu tenha tempo, ao menos, de me compreender.
Assim, pelo menos, minha passagem pela Terra não terá sido vã.
A casa em frente à minha janela continua apagada...

Escrito por Ronin às 09:27:49
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Numa greve de ônibus

Meu aquário

Em não havendo ônibus decidi-me (para ver se eu parava de praguejar) a pagar uma velha dívida com meu aquário.
Fiz uma limpeza e uma troca parcial na água. Troquei cerca de 120 litros dos 160 que são o montante total. É necessário manter uma parte da água pois ela contem os microorganismos que ajudam os peixes a se manterem vivos, numa relação de simbiose muito precisa onde o equilíbrio é o fator primordial.
Acidez da água OK. Temperatura OK. Nível de Dureza OK. Filtros OK.
Tudo na vida daqueles peixes, diferentemente da minha, está OK, Afinal eles têm a mim como uma espécie de deus que tudo controla para que seu mundo seja quase perfeito. Porque perfeito mesmo não dá. Vez por outra um peixe morre.
Pessoas morrem também.
E foi limpando o aquário que dei pela presença de um peixe que já está comigo há quase dois anos e que suportou duas mudanças, uma delas durou mais de três horas e seis longos meses de completo abandono por minha parte, quando estive gravemente deprimido e cheguei a me pendurar na sacada do quinto andar do prédio em que morava no centro de sampa.
Ele, como eu, sobreviveu a tudo isso e mais alguma coisa que a memória apagou de tanta vergonha.
Mas ao vê-lo me lembrei dos primeiros peixes que coloquei naquele aquário, sem nenhuma experiência no ramo e que morreram em menos de 24 horas. Foram os primeiros heróis deste mundo que é meu aquário. Lembro-me que fiquei muito triste com a morte deles e quase abandonei o hobby por causa destas mortes.
Busquei auxílio e me recomendaram peixes mais resistentes, como o mato-grosso, para abrir caminho, estabelecer um nível biológico adequado à vida dos peixes, que não se dão bem com água potável e clorada.
Assim o fiz e assim vencemos. Fui introduzindo espécie por espécie, incuindo "limpa-vidros" e cascudos, cada uma na sua função para o bem comum de todos. Naturalmente introduzi vegetação (vital no equilíbrio do aquário).
Hoje tenho um luxuriante exponencial de vida sub-aquática me dando lições de colaboração em prol da sobrevivência que não sei se as pessoas, em geral, estão aptas a compreender.
Sei que os peixes dependem uns dos outros como nós dependemos uns dos outros. Se um deles falha, todo o sistema pode ruir. Se um de nós falha, o caos se instala.
É por isso que mantenho o aquário. Sou incapaz de manter a minha vida em ordem, com tudo funcionando. Então procurei algo que eu pudesse manter funcionando e encontrei. Um aquário.
Não é muita coisa, mas já é um primeiro passo.
Ele me cobra dedicação. E se peixes não precisam de carinho, precisam, de alimentação adequada e ph ajustado. É muito mais simples criar um cão.
Eu fico com os aquários. Sou complicado e tenho atração pelo complicado.
Isso, algum dia, deverá ser a causa-mor de minha ruína. Mas estarei arruinado e feliz.



Escrito por Ronin às 09:27:20
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Amarilis (in memoriam)

A tal hora de contar.




Minha história é simples e corriqueira. Fui contaminada pelo meu ex-marido há oito anos. Sou assintomática e só descobri o vírus em 1999. A separação aconteceu em 1992. Desde então, nunca mais o vi, mesmo porque não tivemos filhos.
Soube que ele andou me rodeando nos idos de 1994, mas creio eu, não teve coragem de se aproximar. Acredito que foi quando descobriu sua soropositividade. Mais tarde, recebi um recadinho indireto, através de uma amiga que o encontrou casualmente na rua, para que eu fizesse um exame anti-HIV . Gostaria que ele tivesse me contado antes, porque assim, eu poderia estar me tratando há mais tempo.

Trabalho na área de educação e, há uns três anos, resolvi escrever um livro sobre prevenção da Aids, dirigido a crianças em fase pré-escolar; linguagem lúdica, simples e infantil. Pesquisei, li, estudei muito sobre o assunto e escrevi a história sempre me colocando na posição de portadora do HIV. Eu já era e não sabia...
Tomei os maiores e todos os cuidados quanto à redação para não deixar nenhum tipo de "má-interpretação", idéia de preconceito ou discriminação, sempre valorizando a solidariedade e a cidadania. O livro foi pedagogicamente revisto e aprovado, e por essa época, fiz uma cirurgia simples. Foi quando descobriram a minha sorologia, por ironia do destino.
Parece que aquele meu trabalho havia aparecido na minha vida para me preparar à minha própria realidade.
Depois da minha separação, minhas relações sexuais foram sempre seguras. Mas - puxa! - como é difícil!
Conheci, há pouco tempo, um cara negativo... e boooom! Paixão imediata, uma loucura, uma vontade louca de se ver, de estar junto, de se tocar, de se ouvir, aquelas coisas todas.
A relação foi esquentando até que chegou a "tal" hora de contar. Meu mundo desabou novamente como quando descobri o vírus. Foi a minha primeira paixão pós-HIV. Na hora, ele aceitou, disse que não havia problema nenhum, e aquela balela toda, mas com o correr dos dias, a distância entre nós foi se tornando maior, até que nem nos falávamos mais. Droga de sentimento de rejeição.
E estou aqui, viva, graças a Deus, um ano depois da descoberta, vivendo o melhor possível.
Assintomática, mantenho rigorosamente meu tratamento e trabalho muito p/ pôr em prática projetos que tenho iniciados, alguns pedagógicos, outros de minha vida pessoal.

Setembro de 2000



Escrito por Ronin às 09:22:36
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A matriarca

Estava eu aqui com minha eterna companheira, a insônia, quando me ocorreu olhar para a janela. E tudo está às escuras na casa da mulher que tanto trabalha com duas máquinas de lavar.
Desnecessário dizer que esta casa me intriga pela movimentação frenética de seus habitantes, que são inúmeros, e, em especial, a matriarca da casa. O que eu não contei na crônica anterior é que eu levantei cedo e fui pegar o ônibus em outro ponto. Um ponto defronte à casa da mulher laboriosa. Era imperativo meu, quase que um dever jornalístico, saber mais sobre a casa e seus habitantes. Pelos fundos, já vi o que podia. Quatro carros estacionam no quintal da casa. Um deles chega sempre depois das dez da noite. Os outros chegam e saem nas mais variadas horas. Que fazem? Não tenho a mínima...
Pela frente descobri um equivoco de minha parte. A família não é evangélica, posto que, a despeito dos trajes notoriamente evangélicos da Matriarca, há uma imagem de Nossa Senhora, devidamente iluminada com uma pequena lâmpada azul. Muitos são os credos ali seguidos. Talvez, desejo meu de complicar ainda mais a vida da Matriarca, exista até um espírita dentro da casa. Não posso imaginar maior comunhão de desavenças. A mulher chamando os católicos de “adoradores de imagens”; e aos espíritas de “necromancistas”.
Posso imaginar o calor do debate. “Mas mãe!!! O Deus é o mesmo...” E a mulher sairia dizendo orações e clamando pelo Senhor que lhe deu uma família de perdidos , um rebanho desgarrado. Ele pede ao Senhor que conceda a ela força e sabedoria para reconduzir o rebanho ao caminho. E enquanto isso, lava roupas; e se as lava, deve passar também. Haja trabalho para esta mulher.
Lavar, passar a roupa de doze ou quatorze almas enquanto ainda tenta salvá-las...
Não tenho inveja dela, devo admitir. O fato é que a vida desta pobre mulher é de muito sofrimento, quer o drama aqui delineado exista ou não.
Mas a casa é bonita, não fora os malditos pichadores, que escrevem num idioma que só eles entendem coisas que não fazem o menor sentido. Muro bonito, alto, seguro, bem acabado. Portão rijo, muito sólido, com lanças assustadoras, quase medievais. Um exagero. Estamos próximos a um quartel e o que não se vê por aqui é função de bandidos ou drogados. Mas se é verdade que seguro morreu de velho, a mulher laboriosa ainda vai lavar e passar muita roupa, durante muitos anos.
Sobre as pessoas pressenti que há, com toda a certeza, uma família a mais vivendo ali. Há uma geladeira no quintal, muito nova. Ou algum noivado se rompeu ou algum casamento degringolou e vieram todos, genro, filha, gato, cachorro e papagaio e sobrinhos, todos miúdos, com a única finalidade de preencher as lacunas na vida da matriarca que já perde a letra capital à esta altura do texto, tamanho o fardo que vou lhe pondo nas costas.
Tenho o desejo secreto de segui-la e descobrir em que igreja vai. E a que horas vai. Assim eu poderia me aproximar um pouco dela e saber mais, para poder ter mais a contar para vocês, pois começa a ficar sem graça para mim só falar nas roupas que ela lava.
E passa. Devo insistir.
Como ela é minha vizinha mais próxima – apesar de haver mais três apartamentos no andar que eu moro – tenho um profundo interesse por ela, sua vida, sua história... Tudo.
Começo a pressentir que alguns vão me atribuir o adjetivo de fofoqueiro. Digo que é a mãe! É um interesse jornalístico, digno de um repórter encarregado de desvendar a verdade de um lar tipicamente brasileiro, onde todos convivem em paz relativa, apesar de todas as diferenças ... Se tomarei coragem e farei tudo isso, ainda não sei.
Mas pelo menos sei que distraí todos vocês por cinco minutos, falando da vida dos outros, coisa feia de se fazer, é verdade, mas irresistível...



Escrito por Ronin às 09:22:07
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oi Claudio, eu também imagino se um dia ficarei doente antes da cura, gostaria de morrer como meus avos, dormindo, meu coração simplismente parar, mas peço a Deus se eu passar por um momento dificil me dar muita coragem, eu perdi minha filhinha de 3 meses, ela foi contaminada no ventre, o médico não me pediu exame de HIV quando estava gravida e quando descobri foi tarde demais, meu coração doi muito quando lembro da minha filhinha tão pequenina na UTI entubada, ela teve pneumonia e citomegalovirus, ela foi tão valente, se ela enfrentou eu também irei enfrentar, ela mesmo entubadinha ela tinha um sorrisinho nos labios, ela foi tão corajosa! vc não imagina pelo q passei...
Helen | 04.14.04 - 6:14 am |

Querida. Neste caso você tem um processo contra o médico em suas mãos.
Ele pode ser responsabilizado cível e criminalmente.
E a instituição em que ele trabalhava tb pode ser processada e condenada a pagar uma indenizaçao que, bem sei, não traz sua filha de volta... MAs, ao menos, faz com que eles se tornem mais responsáveis e evitem que coisas assim aconteçam de novo.
QQ coisa entre em contato me msn ronin@brslink.com.br e conversaremos.
Se vc estiver em São Paulo eu tenho pelo menos tres advogados para você escolher.
Se estiver em outro estado eu tenha lá e cá os meus contatos.
Beijo

Mudando de assunto
Há algo aqui que foi dito ontem e que nao ficara sem resposta. MAs a resposta sera assas longa e ficará para o sabado ou domingo. Só vou deixar uma citaçao bíblica:
"Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois com o mesmo critério que medirdes, vos medirão. Hipócritas! Enxergai então o arguei no olho de teu irmão e nao vedes a trave em teu próprio olho? Ide e tirai a trave de vosso olho para de pois auxiliar a tirar o argueiro do olho de teu irmão..."



Escrito por Ronin às 09:21:34
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Medos...


Também tenho os meus. E como os da maioria das pessoas, não são infundados.
Ontem, segunda feira, 26 de janeiro de 04 eu estive na Casa da AIDS. Era uma consulta com a analista. Ms eu acabei chegando mais cedo e fiquei vadiando pelo hospital, um complexo pequeno de três andares, conversando com os funcionários. Quando foi se aproximando a hora da minha consulta eu desci para o primeiro andar, onde fica o Hospital Dia e o setor de psicologia e me deitei num leito para aguardar aqueles últimos 30 minutos.
Foi então que ele chegou, numa cadeira de rodas. Um desconhecido; um paciente em fase terminal. Não vou descrevê-lo, ele não merece esta afronta. Mas quando ele passou por mim eu vi automaticamente um grande numero de pessoas a quem perdi nos últimos 8 anos.
Amarílis; Linfoma de Hodgkins.
Waldir; Tuberculose Miliar (disseminada por todo o corpo)
Adriana, Infecção por Mico Bacteryum Avium.
Silvana. Pneumocistose.
Márcia, complicações generalizadas do HIV culminando com insuficiência hepática por conta da medicação pesada...
E tantos outros cuja causa mortis eu desconheço, mas que saíram do mundo de maneira desconcertante e dolorosa, tanto para quem fica como para quem parte...
E pensei instintivamente em como será a minha saída.
Será que terei que passar por um corredor estreito, para dar um último testemunho de uma coragem que ostento sem saber se tenho?
Como será?
Conheci gente que antes de morrer foi perdendo as faculdades sensitivas: Primeiro a visão, depois a audição, depois a capacidade de locomoção e, por fim, a morte, em prolongada agonia...
Houve um caso no Emílio Ribas, de um jovem de 24 anos que padecia de Sarcoma de Kaposi, um câncer de pele que só atinge imunossuprimidos, quer seja pelo HIV quer seja pela idade, quer seja por outras causas... É uma doença terrível e, na época, não havia como controlá-la (hoje em dia há); o rapaz era uma chaga humana e a cada término de plantão os funcionários se reuniam para orar pela morte dele. A mãe acompanhou isso de perto, numa cadeira, dia após dia, até que, finalmente, Deus o levou... Que descanse em paz.
Eu não sei o que o futuro me reserva. Mas tenho medo. Um medo tão grande que chega a me sufocar e que, hoje, depois da visão de ontem, me desfoca a atenção o tempo todo... Gostaria muito que Deus tivesse alguma piedade de mim e me desse um estrepitoso acidente de automóvel como porta de saída deste mundo, com morte instantânea e pouca dor.
Mas não sei se será assim; não sei nada sobe isso e só me resta temer a possível tempestade que deve se assomar sobre mim...
Talvez, apenas talvez, eu recorra aos ritos samurais e pratique um sepukku.
Mas isso ainda é coisa a ser pensada. Por enquanto, o MEDO



Escrito por Ronin às 09:20:49
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Para Helen e Marisa

Oi Claudio, eu também sou soropositiva, ja fazem uns 10 anos, tenho 33 anos, cheia de vida, mas engraçado isso q vc comentou sobre desistir, as vezes eu sinto uma tristeza inexplicavel, uma sensação de desesperança, como se abrisse um buraco negro na minha frente e não tive outra saida a não ser cair dentro, não me passa pela cabeça de me matar, ao contrario tenho tanto medo de morrer, mas as vezes me sinto vazia, sem força, sem energia, me da vontade de me entregar, da aids me pegar e eu morrer, mas são so momentos que eu não consigo explicar da onde vem pq eu convivo bem com o hiv, minha C. Viral é indetectavel e meu cd4 ta em 800, nunca fiquei doente, as vezes até esqueço q tenho essa doença mas as vezes sinto essa angustia que é um verdadeiro pesadelo.
Abraços e Feliz Pascoa!
Helen | 04.11.04 - 9:45 am | #


Helen, isso acontece com qualquer pessoa. Mesmo com os não portadores.
Tem uma musica do Paulo Sérgio que diz assim: “Há dias na vida/ em que a gente pensa que não vai conseguir/que é bem melhor deixar de tudo e fugir...”
Todo mundo está sujeito a isso, quer seja por uma desilusao amorosa, quer seja por uma baixa nos hormônios.
O ideal é procurar, junto ao seu serviço médico, uma encaminhamento para a psiquiatria ou psicologia e por seus fantasmas para fora. Você vai ver o quanto isso é bom.
Agora você, Marisa, que entra com roupa de juiz:
Não é uma questão de covardia ou coragem. É uma questão sistêmica. Indiferente ai HIV eu sofro de uma doença grave, transtorno afetivo bi polar, que leva 20% de suas vitimas ao suicídio.
Se Deus é justo, ele Ele é, certamente não punira um doente que se mata.
Duvidas? Procure no meu blog, tem um arquivo inteirinho sobre isso...
Desculpem escrever tao pouco.
Estou muiot, mas muito cansado

Escrito por Ronin às 09:20:27
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Uma
pergunta: quantas vezes já passou "seriamente" pela cabeça a idéia
de suícidio? A maioria das pessoas soro+ que conheço são extremamente
positivas, ou pelo menos tentam enxergar a situação de ser soro+ com uma dose
extra de otimismo mas para minha infelicidade, meu lado alegre (que nunca foi
muito forte) está cada dia mais apagado. Na verdade não gostaria de sair daqui
(da vida terrena digo) pois tem lá seus encantos, belezas e prazeres, porém
vez por outra sou tomado por um sentimento de negação absoluta. Apenas algumas
pessoas sabem da minha condiçao (meus pais e meu irmão são meus grandes
aliados e amigos nessa batalha), porém sinto que minhas forças estão se
esvaindo.

Como diria o Robert Smith (Cure): "I am slowly down, as the years go by, I
am sinking..." Nem maconha, nem ácido, nem ecstasy conseguem me deixar em
outra sintonia como acontecia tempos atrás... Espero que um dia minha luz mais
escura volte a brilhar, caso contrário irei desistir.



 



 


Não
sei te dizer quantas vezes pensei em suicídio. Penso quase todos os dias. MAS
você precisa levar em conta que eu sofro de dois transtornos psiquiátricos:


A
saber:


Transtorno
afetivo bi polar (20% das pessoas que siofrem disso se matam)


Personalidade
limítrofe. Isso faz de mim uma bomba relógio sem relógio, eu posso explodir
num clique.



 


Minhas
ideações suicidas não decorrem da sorologia positiva para HIV. Eu quero que
se dane o HIV. É só um hóspede indesejável que eu não posso expulsar.
Assim, ao longo dos últimos 8 anos eu aprendi a lidar com isso e, no fim das
contas, todos vamos morrer um dia.


Que
diferença faz como?


Antes
de me preocupar com a maneira como morrerei, que pode ser sombria, sabemos,
preocupo-me com a maneira como viverei.


As
vezes eu me entristeço por ver tanta injustiça no mundo, e isso me faz ter
vontade de morrer; em outras, me dá uma gana louca de viver e mudar o mundo.
Está claro que eu não posso muda-lo. Mas posso lançar alicerces de mudança.
E é isso que eu procuro fazer, aquiu, em www.soropositivo.org,
www.amorpositivo.com e em http://health.groups.yahoo.com/group/soro-positivo/
que é uma lista de discussões onde veiculo noticias relacionadas a AIDs e as
pessoas procuram se ajudar umas às outras dirimindo duvidas, sendo amigas umas
das outras.


Aceite
meu conselho, inscreva-se a lista. Você verá que não está só e que,
malgrado eu seja um suicida em potencial (20% de possibilidades) todos os meus
movimentos são em busca de vida.


Eu
procuro amar, ser amado, receber e dar carinho, compartilhar o bom e o ruim,
divertir-me quando possível, sorrir quando tenho vontade, chorar quando não dá
mais. Enfim, viver.


Pense
nisso.


Esqueça
as minhas ideações suicidas, pois elas não são filhas do HIV.


São
filhas de uma historia de vida que começou aos 12 anos, na rua, onde fiquei 5
anos e que ainda não terminou, tenho muitas paginas a serem escritas.


E,
se algum dia, os 20% baterem, não terá sido covardia ou medo do vírus.


Terá
sido insanidade..


Não
siga o exemplo da loucura.


Se
há algio de bom em mim e você consegue enxergar isso, mire-se neste exemplo, pífio
embora, e conduza sua vida de uma forma que, quando vc partir, lembrem-se de você com quem
agradece a presença da fonte, ou a passagem da luz (trecho extraído de Justiça
Divina . Luiz Cândico Francisco Xavier – Emmanuel



Escrito por Ronin às 09:19:53
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Ontem, por volta das 19:00, eu estava no terminal Santana de ônibus quando ela passou.
Ela, uma estranha. Mas com um quê de Gabi...
Você já sentiu vontade de recuar 15 anos no tempo e retocar uma cena que mudou sua vida? Pois eu tive esta vontade naquele minuto.
Ah meu Deus, quanta saudade!
A mulher que me fez como sou.
Que, por assim dizer, me recriou e reformou.
Por onde andará depois de uma década e meia?
Estará feliz? Terá sido feliz? Se lembra de mim? Isso, eu tenho certeza que sim. Mas, do resto, nada sei.
E um amor assim tão bonito, tão cheio de beleza acabou por desgaste. Nós nos traímos ao permitir este desgaste Gabi.
Logo nós, que não conhecíamos o ciúme, que respeitávamos a individualidade do outro, que dávamos presentes muito especiais um para o outro, quase que incompreensíveis para a maioria que respira no clima da suposta normalidade... Nós, Gabi, nos permitimos o desgaste.
Um dia, acabou o amor.
E como foi dorido para mim e para você esta constatação.
Como foi triste sabermos que não nos amávamos mais e que, por isso, prosseguir juntos não valia a pena...
Sempre foi por amor. E o que é que não se faz por amor?
Só não se volta no tempo, Gabi; porque é impossível.
Se fosse possível, eu retocaria a cena do nosso ultimo beijo, que já não era de amor, era um adeus. Eu não tentaria criar um paradoxo e mudar os fatos para que estivéssemos juntos até hoje. Eu só retocaria o beijo.
Faria com que ele fosse mais úmido, mais longo, mais terno, mais digno de tudo o que vivêramos até então.
E, depois deste beijo, eu te daria um outro, na testa, em sinal de respeito e gratidão pelos anos maravilhosos que você me proporcionou.
O Dj e a Garota de Programas.
O casal mais detestado da rua, porque era feliz.
Sim! Éramos felizes!
Sei disso.
Tomara que você venha até aqui e leia isso. Sei que você vai se entristecer por me descobrir soropositivo e vai ter a mesma vontade que eu: Voltar no tmpo e retocar alguma cena, à sua escolha, para mudar isso.
Mas não queira provocar um paradoxo Gabi. Depois que você partiu muita coisa perdeu o significado para mim e eu me tornei frio e inconstante. O HIV me deu um break. E, por que não confessa-lo?
Fez de mim, uma pessoa melhor. Recuperou o homem que você erigiu.
Sim Gabi, foi sob o peso de lágrimas que tornei a crescer...
E, se não sou grande de verdade, como você gostaria de ver e se orgulhar, pelo menos eu arranho um pouquinho...
Gabi, dentre as muitas que eu tive, e as muitas que você me deu, o seu lugar é intocável, sagrado, e nunca será ocupado.
Com muitas saudades.
Cau



Escrito por Ronin às 09:19:00
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Dormir?

Ontem, por volta das 19:00, eu estava no terminal Santana de ônibus quando ela passou.
Ela, uma estranha. Mas com um quê de Gabi...
Você já sentiu vontade de recuar 15 anos no tempo e retocar uma cena que mudou sua vida? Pois eu tive esta vontade naquele minuto.
Ah meu Deus, quanta saudade!
A mulher que me fez como sou.
Que, por assim dizer, me recriou e reformou.
Por onde andará depois de uma década e meia?
Estará feliz? Terá sido feliz? Se lembra de mim? Isso, eu tenho certeza que sim. Mas, do resto, nada sei.
E um amor assim tão bonito, tão cheio de beleza acabou por desgaste. Nós nos traímos ao permitir este desgaste Gabi.
Logo nós, que não conhecíamos o ciúme, que respeitávamos a individualidade do outro, que dávamos presentes muito especiais um para o outro, quase que incompreensíveis para a maioria que respira no clima da suposta normalidade... Nós, Gabi, nos permitimos o desgaste.
Um dia, acabou o amor.
E como foi dorido para mim e para você esta constatação.
Como foi triste sabermos que não nos amávamos mais e que, por isso, prosseguir juntos não valia a pena...
Sempre foi por amor. E o que é que não se faz por amor?
Só não se volta no tempo, Gabi; porque é impossível.
Se fosse possível, eu retocaria a cena do nosso ultimo beijo, que já não era de amor, era um adeus. Eu não tentaria criar um paradoxo e mudar os fatos para que estivéssemos juntos até hoje. Eu só retocaria o beijo.
Faria com que ele fosse mais úmido, mais longo, mais terno, mais digno de tudo o que vivêramos até então.
E, depois deste beijo, eu te daria um outro, na testa, em sinal de respeito e gratidão pelos anos maravilhosos que você me proporcionou.
O Dj e a Garota de Programas.
O casal mais detestado da rua, porque era feliz.
Sim! Éramos felizes!
Sei disso.
Tomara que você venha até aqui e leia isso. Sei que você vai se entristecer por me descobrir soropositivo e vai ter a mesma vontade que eu: Voltar no tmpo e retocar alguma cena, à sua escolha, para mudar isso.
Mas não queira provocar um paradoxo Gabi. Depois que você partiu muita coisa perdeu o significado para mim e eu me tornei frio e inconstante. O HIV me deu um break. E, por que não confessa-lo?
Fez de mim, uma pessoa melhor. Recuperou o homem que você erigiu.
Sim Gabi, foi sob o peso de lágrimas que tornei a crescer...
E, se não sou grande de verdade, como você gostaria de ver e se orgulhar, pelo menos eu arranho um pouquinho...
Gabi, dentre as muitas que eu tive, e as muitas que você me deu, o seu lugar é intocável, sagrado, e nunca será ocupado.
Com muitas saudades.
Cau



Escrito por Ronin às 09:18:24
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Um bom commet da loba....

Comentário da LOBA ao post anterior.



 


Vou
comentar as reticências dentro dos parêntesis... o alívio da família com a
morte da Márcia.

Nos sentimos mal ao perceber este sentimento em pessoas que deveriam dar amor até
o último momento, né?

Mas infelizmente são todos humanos... E uma doença prolongada adoece todos que
a acompanham de perto. E o tempo vai se encarregando de matar os sentimentos...
a dor passa a ser maior que a promessa de vida!

Mas, segundo eu soube, os parentes lidam tb com a culpa. Porque o alívio não
vem sozinho.. Vem carregado de culpas.

De qq forma, é difícil pensar sobre isso...

Como sempre, texto muito bem escrito!



 


Pelo elogio, obrigado.


Pelo comentário, hossanas.


Finalmente alguém demonstra entender o que há nestas
reticências entre parêntesis.


Sim, você tem razão, somo, todos, humanos.


Mas, eu pergunto. Não seria justamente por isso que deveríamos
ser mais compassivos com os que sofrem?


Certo. Muitos argumentarão como você, e terão razão: O
sofrimento de entes amados traz sofrimento. Uma doença prolongada desgasta uma
família.


Mas, então, para que serve a família?


Eu, que nunca tive uma de verdade, imagino que seja para
apoiar, incondicionalmente, qualquer membro da família. Isso se chama
generosidade. E de forma alguma este membro doente pode ser considerado como um
peso... É, na verdade, uma abençoada ocasião de crescimento para todos.


Os prodígios da afeição... Quem já não os viu? O que não
pode o afeto sincero e diligente diante da dor?


Muita coisa, eu diria, se fossemos realmente humanos, no
sentido abrangente da palavra. Na verdade, somos humanos, mas, quase sempre,
para justificar nossa falibilidade.


Falhei. Errei. Sou humano.


Simples e cômodo.


Vá lá, que sinta-se o alívio.


Mas que este alívio seja oriundo do fim de duras provações
da pessoa que parte..


E não este alivio que se vê nos olhos e na face: “Até
que enfim.”


Até que enfim na teremos mais de carrega-la ao hospital.


Até que enfim não termos que velar por ela em noites que
ela não passava bem.


Até que enfim...


Até que enfim...


Este alivio, minha prezada amiga, é filho do nosso egoísmo
e de nossa dureza de coração. Raiz de todos os males que nos aflige, enquanto
“humanidade”.


Só depois que estes males forem estirpados de nosso meio
teremos alguma chance de poder parar de pedir aos Céus que baixem a Terra e
consigamos, mais corretamente, elevar a Terra aos Céus...




Escrito por Ronin às 09:16:32
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Márcia

Logo depois do diagnóstico e da calamidade, quando eu já estava há uns dez ou quinze dias na casa de apoio, concluí que se não queria enlouquecer de uma vez por todas teria de encontrar um meio qualquer de ser útil a alguém, em alguma coisa.

Como era o período que eu mesmo chamo de o fim da primeira onda (a terapia tríplice - o dito coquetel- acabara de ser implantada e ainda tinha muita gente em uma situação de saúde ruim) não foi difícil encontrar o que fazer.

Passei a acompanhar um paciente ao hospital dia do CRTA na Rua Antonio Carlos, o Waldir, que morreu uns 65 dias depois vítima de algo que apareceu no atestado de óbito como tuberculose miliar e me foi esclarecido ser tuberculose disseminada por todo o corpo (um dia eu me animo e conto esta outra história). Morreu de pobreza o Waldir.
Mas não é a historia do Waldir que venho contar aqui, nesta página, é a da Márcia, que tive o prazer de conhecer enquanto acompanhava o Waldir.

Depois de "entregar" o Waldir para que recebesse seus cuidados, que eram inúmeros e tomavam o dia todo, eu ficava livre para voltar a casa e só vir busca - lo no final da tarde (buscar aqui é colocar na cadeira de rodas e levar ate a ambulância), que era da casa de apoio, conhecida como papa tudo (...); mas preferia ficar no hospital, circulando pelos corredores, entrando em cada quarto, conversando com a pessoas e tendo a chance de entregar um copo d'água a uma pessoa esquecida ou, algumas vezes, de alimentar o espírito de alguém com alguma esperança que eu mesmo não tinha e, como se pode ver, estava enganado. Acho que tanto dei esperança que acabei me convencendo.

Assim conheci a Lia, a Edna, o Pedro, a Ângela (19 anos hemofílica), uns outros tantos (como aquela moça que teve toxo e com as complicações vive consciente e em posição fetal, dependente de todos, para tudo, o tempo todo); dentre estes outros tantos, Márcia, que me traz lágrimas, mesmo agora.

Márcia contraiu HIV do marido e foi colhida de surpresa por um diagnostico positivo de HIV em virtude de um sem numero de infecções oportunistas que atacaram e mataram seu marido em um período de 5 meses.

Ela tb não estava legal (eu me pergunto sempre como uma pessoa começa a ficar doente disso ou daquilo e ninguém se incomoda em fazer um exame mais aprofundado; me pergunto também como a pessoa não percebe que algo esta errado e deixa ir ate o fim. Deve ser o medo de saber.

Mas quando a conheci, estava melhor, já tinha voltado a andar, como uma patinha choca (eu sempre dizia isso para ela, que sorria...), e estava repleta de esperanças.

Mas tinha de estar lá todo dia e receber medicação endovenosa; as picadas a torturavam, não havia mais veia que pudesse ser achada sem uma busca de 30, 50 minutos... e ela chorava só de ver a agulha (acho que isso piorava ainda mais a situação de suas veias) e eu sempre passava por ai as 8 e meia da manhã para tentar ajudar (abraçava ela e ficava falando besteiras no ouvido dela, passava cantadas cabeludas na menina de trinta e sete anos e ela ria como uma criança. Ao menos se distraia.

Isso durou uns 2 meses e ela teve alta.
Meses depois, eu já fora da casa de apoio, entrei no CRTA para cuidar de mim mesmo e vim descendo os 8 andares pelas escadas, passando por cada um dos quartos e acabei reencontrando a Márcia, que dormitava, olhos abertos, bastante abatida. Tão abatida que me assustei. Ela também se assustou com a chegada repentina de uma pessoa e acordou.

Conversamos.
Não havia muito a dizer. Eu não acreditava em mais nada... E ela me disse assim:

Cláudio, estou cansada, não quero mais viver.

Mesmo sem esperança, ralhei com ela e disse que vivesse, que lutasse, que não cedesse agora que estava tão perto (do que?!), que seguisse adiante só mais um dia.
Fiquei com ela o quanto pude, mas tinha de ir embora, era uma sexta feira e a vida me chamava lá fora, me cobrando obrigações e compromissos...

Quando eu saia, ela me abraçou e disse:

Obrigado por tudo Cláudio.

Chorei (como choro agora) e não tive palavra... Foi a última vez que a vi em vida, na Terra... Faleceu em casa, junto aos seus, que se sentiram imensamente aliviados (...)

É uma história normal, comum a qualquer hospital deste mundo.
Só um detalhe nesta história me faz conta - la: Na segunda feira, logo de manhã, corri ao hospital, ainda não sabia do destino dela, e quis informações.
Foi então que a Dona Teresa, enfermeira chefe do hospital dia, uma senhora de 55 anos, cabelos grisalhos, olhos felizes (a imagem da vovó) me disse que ela havia falecido.

Ante o meu espanto e a minha tristeza ela disse:
Por que esta assim? Você sabe, vocês, portadores de HIV e pessoas que vivem com AIDS, acabam sempre assim...
Estive, por um segundo, a ponto de joga - la do quarto andar, mas a entreguei a si mesma...
Nunca mais falei com ela. Parece-me até hoje completamente absurdo que uma profissional de saúde possa ser tão insensível...

Escrito por Ronin às 09:15:54
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Datas

Datas

Eu sou do tipo que comemora datas. Não importam quais sejam, desde que marquem alguma coisa em minha vida eu as comemoro. Mesmo as mais tristes. Ou as mais sórdidas, eu as comemoro. Para isso basta-me olhar no calendário e me lembrar.
Quando eu esqueço de comemorar uma data, é que o fato em si perdeu a importância. É mais ou menos como aquele número de telefone que você nunca mais vai usar e, mesmo assim, insiste em puxá-lo de memória, para se certificar que ele permanece lá, arquivado, pronto a ser usado. Até que um dia... Um dia você o esquece.
Isso é libertação. Quando você esquece uma data, um nome, um rosto ou um numero de telefone, está livre daquele fantasma que arrastava correntes dentro do seu castelo. Mas estes fantasmas têm amor à casa alheia e muitas vezes custam a sair; mesmo quando a razão, senhora da casa, os insta a retirarem-se, eles se apegam aos mais pueris argumentos... E eles vão ficando.
E hoje é uma data importante.
Há tempos, que não vou especificar, entrei num avião com o fito único de conhecer uma pessoa.
E que pessoa! Quando a vi, com seus quarenta e dois anos, rosto iluminado por um sorriso a me chamar de “meu anjo” eu pensei: “E ela. Finalmente eu a encontrei. Gastei duas décadas sofrendo e espalhando sofrimento, mas te achei...”
E com esta sensação embarquei num táxi rumo à casa dela, numa cidade qualquer deste imenso e belo País chamado Brasil.
Tínhamos tanto a dizer um para o outro e o tempo era tão curto. Eu só tinha três dias. E tinha séculos para contar... (Curiosamente, agora, entra, no meu winamp uma música de Rita Moss: “Just a Dream Ago”)
No primeiro dia, na primeira tarde, seguramo-nos como podíamos. Conversamos, ela me mostrou sua coleção de Cd’s, seus álbuns de fotos, falou-me de sua vida e, quando caiu a noite, saímos para jantar.
Jantamos próximos a uma praia, a Lua Cheia (esta impostora) prateando o mar e nós falando sobre tudo e qualquer coisa, rindo, felizes um do outro. Eu me sentia rico, milionário. Nem Onassis, em toda a sua opulência, pode sentir a riqueza que eu senti...
Quando voltamos para casa, não havia mais recurso. As barreiras foram se esfacelando (as time goes by) uma a uma e, num dado momento, mesmo me sentindo um adolescente, eu lhe pedi um beijo.
Ela me disse: “Claro”.
E não se viu mais nada.
A noite passou, entramos pelo dia, não atendemos telefone, não respondemos e-mail, não nada.
Éramos um do outro (I loved You, Freddie cole) e não havia Planeta.
Estávamos numa dimensão só nossa e nos amamos como loucos, como dois animais...
Assim passamos o tempo que nos restou, não quero me alongar nisso.
Adiamos meu retorno até o ultimo avião possível e a ultima cena que guardo dela é sua imagem no aeroporto, me olhando e acenando adeus.
E era adeus mesmo.
Dias depois começamos a conversar e nos decidimos por viver juntos. Eu iria para a cidade dela e começaríamos vida nova. Seríamos felizes.
Mas uma sombra se interpôs entre nós (l’avie em rose, Louis Armstrong, com direito a solo de pistão): O preconceito.
De família rigorosa e influente, foi cercada por todos os lados, e eu também e fomos impedidos de nos unirmos.
O aviso de “não venha” se deu três horas antes do embarque, eu de malas prontas, com um sorriso nos lábios quando o celular tocou e me deu a ordem inapelável: Não venha, depois eu explico.
Entrei em parafuso.
Não venha?! O que teria acontecido. Fiquei perdido, atônito, perplexo e se pude fazer alguma coisa foi sentar e chorar.
Depois tudo me foi explicado e eu ainda muito lutei pelo que não poderia ser... Horas e horas de telefone, mereceríamos uma estátua de honra ao mérito por parte da Embratel.
Mas não foi possível.
O meu sonho de ser feliz ao lado daquela a quem eu tanto procurei desvaneceu-se nas sombras da exclusão social, da ignorância e da crueldade.
Muito eu sofri depois disso, de tal forma que sou, hoje, paciente psiquiátrico, com transtorno afetivo bi-polar e vivo sob o peso de muitas drogas.
Mas não deixo de comemorar a data (Life is a cabaret, Liza Minelli).
É certo que os acontecimentos iniciados em algum ano no passado, nesta data, trouxeram-me a uma situação de calamidade moral e emocional. Mas também é certo que eu finalmente a encontrei.
E se não posso tê-la, posso amá-la.
E se posso amá-la, já sou feliz.
Aqui entrou Glenn Miller, Moonlight Serenade

Escrito por Ronin às 09:15:21
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Marcelle

Ontem, segunda feira, foi um dia extremamente proveitoso.
Saímos eu e Sérgio à cata de placas-mãe sucateadas e conseguimos um lote com 100 peças! Isso vai dar um bom retorno financeiro e, desta vez, eu saio do sufoco.

Mas tinha uma ansiedade no ar. Eu tinha, para depois da sessão com a analista, um encontro com Marcelle.

Eu, que gosto tanto de ficar na MoBoFix, porque lá se ri as baldas, sai mais cedo do que o necessário em direção à Casa da AIDS, na Rua Frei Caneca. Dei sorte, minha terapeuta estava livre e me adiantou a consulta em meia hora. Eu liguei para Marcelle e adiantei nosso encontro, que foi simples:

Um longo abraço, onde senti um perfume suave, delicioso, um beijo no rosto e estávamos devidamente apresentados, como se nos conhecêssemos há séculos...

Fomos ao Shopping, temamos um mate. Um café, fumei 5 cigarros em uma hora (ela, mas comedida) fumou três, e falamos sobre o projeto da ONG, e dos meios de arrecadar fundos para tocá-la adiante.

Nada como alguém que entenda de um assunto, Marketing no caso, para resolver certos problemas.
Em uma semana encontrou a solução para um problema que eu não resolvo desde agosto de 2000, quando coloquei o site no ar.

Deixei com ela uma copia do projeto, que ela vai fazer a finesse de digitar para mim, posto que perdi o arquivo.

Quando ele estiver pronto colocá-lo-ei aqui no blog e no site, para que todos possam conhecê-lo e, quem sabe, envolver-se nele...

Bom, depois de pouco mais de uma hora, eu estava muito cansado, tinha comprado cem placas e feito uma caminhada considerável na parte da manhã, disse que precisava ir.

Ai a grande dama acompanhou-me ao ponto de ônibus, onde deixei um passar sem dar sinal para privar mais um pouco daquela presença agradável.

Inevitavelmente a fiz corar, fiz várias vezes. É um habito meu, deixar mulheres coradas.

Isso, fechando o dia e o encontro, foi impagável...

Escrito por Ronin às 09:14:34
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“Às vezes me preservo, outras suicídio...”

Sou como diz o Zeca Baleiro:

“Às vezes me preservo, outras suicídio...”
Deve ser por conta do meu grau de insanidade. Que é alto. Mas... Tudo bem...
A grande vantagem que encontro na loucura e na soropositividade é a minha liberdade. Eu não preciso ter medo de nada, pois o inevitável para todos está definitivamente demarcado em mim. Sou, de alguma sorte, um sentenciado. Sem crimes é claro. Isso me dá alguma comodidade como, por exemplo, não me permitir estar preso a ninguém.
Disse, hje, a uma amiga, que ela não deve sofrer por amor, como está sofrendo, pois ela está nos melhores anos de sua vida, e eles passam rapidamente.
Digo, a mim, todos os dias, que devo viver como se não houvesse amanhã. Até porque há poucas garantias disso.
Minha relação com minha esposa se dá nestas bases. Somos livres, como na musica de fundo, a maça, do Raul Seixas. Vivemos uma vida em comum, mas, entretanto, respeitamos a individualidade do outro e seus desejos. Demos, um ao outro, uma carta de alforria.
Assim não tem traição, mágoa, mentira, falsidade, porra nenhuma.
Temos a verdade, e vivemos com ela. E, nem por isso chegamos ao ponto de nos detestarmos ou nos magoarmos. Fazemos o que queremos com o cuidado que o outro merece.
Dou liberdade e recebo liberdade.
E, no que tange a mim, amor que é amor, liberta. O que não pode ser nosso partirá algum dia e não voltará jamais. Maktub.
O que é nosso pode ir aonde quiser, quantas vezes for e, mesmo assim, debalde todos os prognósticos nefastos, sempre voltará.
Chamo isso maturidade. Alguns chamarão imoralidade. Dêem o nome que quiserem, será sempre a minha vida, vivida à minha maneira...
Foi assim desde que saí de casa, com 12 anos, e não é agora, aos 40, que isso vai mudar.
Quem puder me compreender e aceitar assim, ótimo. Quem não puder melhor se afastar, pois eu serei um campo de lágrimas e dor para tal pessoa.
E isso é algo que eu não quero ser.



Escrito por Ronin às 09:13:56
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Ah que vontade de escrever. E que falta de inspiração.




Tenho notado que estou assim, sem muito o que dizer.

Afora o evento maravilhoso chamado Marcelle não tem acontecido muita coisa em minha vida. 




Financeiramente eu melhorei, esta semana ganhei algum dinheirinho com o lance de comprar sucata para recuperar. É um trabalho complicado e de risco, mas vale a pena. Deu pra pagar plano de saúde, plano odontológico e ainda sobrou pro cigarro e pro café. Isso em uma semana de trabalho. Haverá outras e eu sinto que as coisas estão, neste sentido, tomando o rumo de melhorar. 

The things are getting better.




E isso me deixa satisfeito.




A bem da verdade é preciso dizer que este negocio só existe porque o dono de uma certa empresa,

é muito meu amigo e quer me ajudar.

É uma amizade antiga, já tem uns 15 anos e, em ultima análise, é para isso que servem os amigos.



Eu ainda não disse a ele,por falta de oportunidade e oxigênio o quanto sou grato pela porta que ele me abriu enquanto tantas outras se fechavam com um chiado.



Mas deverei dizer esta semana.



Talvez nem precise, pois ele pasa por aqui, vez por outra.



É isso ai Sergião, você está sendo a mão que me retira do lodaçal.

E, se você me conhece bem, sabe que eu não vou esquecer isso.



Abraços.

Claudius Black Stripe



Escrito por Ronin às 09:13:13
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Um sábado bobo.

Um sábado bobo.

Saí de casa muito cedo, mandei consertar minha cadeira, já não agüentava mais ficar sem ela, voltei para casa e dormi.
Um bonito resumo para um sábado.
Mas, não é bem assim. Um sábado ensolarado, uma brisa de outono, algumsa mulheres bonitas passando na rua dão cor e textura a quelquer dia, mesmo estes de “dolce far niente”...
E é aí que a porca torce o rabilho. Pois eu fiz alguma coisa. Fiz alguns ajustes no site de um cliente e amigo meu (cliente jamais, ele é amigo mesmo), preparei uma outra alteracao em flash que está esperando o OK dele para ser publicada e conversei muito com aquela que, num futuro bem próximo, vai escrever a minha biografia.
Sim!
Vou ter a historia de minha vida publicada num livro, minhas memórias, minhas aventuras, meus dissabores, enfim, tudo.
Mas só graças a ela, Marcelle, que se dispôs a fazer. Eu não saberia fazer isso.
Ms, agora, isso, que era um sonho, sempre foi, vai se tornar realidade.
Marcelle, menina, mulher...
Meu muito obrigado



Escrito por Ronin às 09:12:38
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Um anjo

Hoje dormi bem. Acordei tarde com o celular tocando para me avisar que hoje é dia de dentista. É não. Era, pois eu já fui... Primeira consulta e a dentista, solteira, é belíssima.
Ah, mulheres, porque sois assim? É péssimo este vosso hábito de solteirar e ser bela.
Ou será que é péssimo este meu hábito de procurar mulheres belas e solteiras?
Não sei. O que sei é que a conjunção destas duas coisas faz de mim um incorrigível galanteador e, inevitavelmente, galanteei, com sutileza, a dentista. Disse:
“Hum, ser torturado por uma mulher tão bonita não pode ser de todo ruim”.
A moça enrubesceu na hora. Por que enrubesceis, mulheres? Para me atiçar ainda mais? Pois é só o que podeis obter com uma face afogueada...
Bom, deixemos as mulheres em paz por alguns instantes e passemos ao boletim de saúde.
Meu CD4 esta em 1200. Estava, antes em 855 (a normalidade imunológica oscila entre 800 e 1200.
Minha carga viral baixou de 85.000 para 34.500!
Isso sem tomar remédios.
Estou aliviado, pois estes indicadores dizem que, a despeito de um problema ou outro, tais como a hipertensão, o sobrepeso e a diabetes, estou ótimo de saúde...
Isso me deixa mais tranqüilo e deve deixar a vós, que se acostumaram a me acompanhar, mais tranqüilos.
Ficai, pois, tranqüilos. Estou bem.
Só me falta acalmar o espírito.
Mas, para isso, surgiu um anjo, um anjo de verdade, que vai me ajudar a asserenar a alma.
É, com certeza, uma das mais gratas ocorrências deste blog, por tudo o que pretende me ajudar a fazer.
Por traz de um pretenso grande home deve haver uma grande mulher, seja como for.
E , parodiando meus fantasmas, ei-la...
Seu nome?
Não conto.
Só o tempo poderá decidir isso



Escrito por Ronin às 09:12:15
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O desfile dos fantasmas



Ontem foi dia de overdose. 100% a mais de psicotrópicos. Dupliquei todas as doses. Pensam que dormi logo? Besteira...

É justamente na hora em que vou dormir que os fantasmas me assaltam.

Mas, antes de falar neles, estou precisando de uma ajuda. Um script que se abra quando uma pagina for acessada mostre uma caixa de dialogo com um botão de OK. Só para dar ciência aos cadastrantes do serviço amorpositivo.com que este é um serviço pago.

Agora sim, os fantasmas.

Eles chegam no momento exato em que me deito. Na verdade eles devem estar aqui espreitando o tempo todo, mas só manifestam-se quando eu tento contactar Morpheu.

E eles me fazem perguntas...

Querem saber por que eu deixei passar aquela chance... Chamam-me inepto e outros nomes feios.

Mas, pior que isso, nesta noite, eles me trouxeram uma imagem.

Eu a vi. Como na ultima vez que a vi, depois de ter passado pelo portão de embarque do aeroporto, linda, tudo o que eu sonhara até então para mim...

Ai, com psicotrópicos e tudo o mais, chorei...

E eles me disseram:

“Ei-la, a tua amada, ei-la, a tua perdida”.

E eu me lembrei do gosto de seu beijo, do perfume que ela exalava, do calor de seu corpo. E, mas uma vez, chorei.

“Ei-la, a tua sonhada, ei-la, a tua inalcançável”.

E eu me lembrei de tudo, da voz doce e rouca, das mãos suaves, do toque sutil, da feminilidade exacerbada e, mas uma vez, chorei.

“Ei-la”, eles riram, “ei-la”.

E, em prantos, com a visao dela em minhas retinas, por acréscimo de misericórdia, dormi...



Escrito por Ronin às 09:11:50
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Depender deste governo para se manter vivo é uma coisa que não parece muito boa

Acordei mais ou menos cedo. Oito horas. E de relativo bom humor. Não sei ao certo porque acordeiu de bom humor, mas com o passar do dia e alguns acontecimentos, isso foi mudando.

Sai de casa por volta de nove horas e fui à cata da minha sucata de informática para fazer uns trocados. A vida esta dura... Depois almocei e fui à Casa da AIDS onde conversei com Sigrid, minha médica, que me receitou, em receita do HC, a medicação que a endocrinologista me passou.

Esta medicação é padronizada e é obrigação do Estado fornecê-la.

Pois bem, aqui temos a lista:



· Cedur 200Mg 90 comprimidos por mês.

· Neo Metformim 850Mg. 75 comprimidos por mês.

· Inalapril 5mg 120 comprimidos por mês.



Só tinha o inalapril. O resto “está em falta”.

E lá vou eu de novo correr atrás de dinheiro ou cheques emprestados apara comprar remédios que o governo tem que me dar, mas não dá por mera irresponsabilidade. Sempre uma desculpa à mão. A licitação, o diabo que os parta.

Fui até a diretoria do hospital e perguntei a diretora porque ela não em dava logo um tiro, ao invés de ficar fingindo eu atende. Ela ficou aturdida e eu disse o diabo a ela.

Quando disse que ia representar contra o Governo para ter a medicação à viva força, coisa que deve demorar um mês, a ordinária disse que tudo bem.

Não têm vergonha na cara, bando de irresponsáveis. Quem conhece estes remédios sabe o quanto eles são importanmtes e em que pé esta a minha saúde.

A coisa não está fácil, eu estou me complicando e a irresponsabilidade dos órgãos “competentes” está me complicando ainda mais.

Terminei o dia p. da vida, com dor de cabeça, triste e preocupado.



Depender deste governo para se manter vivo é uma coisa que não parece muito boa...

Estou deprimido.



Escrito por Ronin às 09:11:22
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Os telhados molhados e o céu de outono

Ontem dormi tarde (grande novidade). Quase duas da manhã. Estava de papo com alguém especial... Eu tenho algumas pessoas que considero especiais, que devem ser provadas como um bom vinho e um excelente queijo roquefort... Era bem este o caso

Aí, quando a necessidade dos psicotrópicos falou mais alto e o sono começou a me dar dor de cabeça terminei a conversa.

Para não incomodar as pessoas decidi-me por dormir no sofá.

Dormi como um gatinho...

E, para que se diga toda a verdade, fiz xixi no sofá. Absurdo! 40 anos de idade e fazendo xixi na cama! Mas isso aqui é um diário, com base em verdades, e a verdade é que eu fiz xixi na cama.

Tudo bem, estava lá meio frio, eu durmo dopado, mas não deixa de ser hilário eu acordar e sentir aquela pequena poça. E não é a primeira vez! Já houve outras...

Mas, deixemos, por favor, este assunto úmido de lado.

O fato é que acordei num dia de outono, muito bem humorado, sob intensa garoa, vendo os telhados das casas à minha volta molhados, refletindo a luz cinzenta do céu e isso me deu vontade de escrever um poema.

Mas, infelizmente, eu não sou poeta, e ficarão todos com o gosto de um poema não escrito cujo titulo seria “Os telhados molhados e o céu de outono”.

Divirtam-se com o título.

Eu me divirto com a vossa estupefação.

E por agora vou ficando por aqui.

Ah, importante. Eu já tomei banho sim...



Escrito por Ronin às 09:10:46
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O outono começou como eu.

O outono começou como eu. Sonolento. Acordei por volta de nove horas da manha com a sensação deliciosa de um friozinho suave entrando pela janela e uma preguiça de fazer pena.

Depois do meu café da manha dignei-me a olhar pela janela e descobri que minha vizinha barulhenta esta pintando a casa. E descobri, também, que está garoando. São Paulo, terra da garoa, quanta lembrança esta garoa não me traz...

Lembrança boa e lembrança ruim. Mas lembrança.

A julgar pelo verão tépido teremos um outono frio e um inverno gélido.

E eu adoro invernos gélidos.

Gosto daquela sensação do frio cortante batendo no rosto, me da a sensação de estar vivo.

E como eu preciso desta impressão!

Preciso me sentir vivo para não enlouquecer, para não morrer de tristeza e tédio.

Preguiça... Preguiça até de escrever...

Bom começo de outono minhas crianças

Escrito por Ronin às 09:10:14
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Ronin

É noite. Passa da meia noite. Ouço alguns cães, carros e o apito de um guarda noturno em sua motocicleta. É sempre o mesmo toque. Um curto, dois longos. Com isso ele afirma que estar presente e vigilante, para que as boas famílias, as pessoas de bem possam dormir em paz.

Mas, mesmo agora, passa um avião em rota de pouso (eu moro embaixo desta rota infeliz) e eu me pergunto como alguém poderá dormir com estas turbinas ruidosas urrando nos céus de São Paulo...

Eu, nesta noite, não dormirei. Não tenho sono, tenho vontade de ficar acordado olhando o tempo passar.

O tempo passa por nós?

A que razão? Um segundo por segundo, me parece, pois as coisas se arrastam lentamente em minha vida.

Hoje decidi que algumas coisas, em mim, precisam morrer. Precisam morrer para que eu possa continuar a viver. Não posso prosseguir com isso, com esta luta insana, esta guerra sem quartel sem correr o risco de perder a sanidade mental e me arrojar num despenhadeiro ainda mais profundo...

Então morrerão algumas coisas, e outras nascerão. Será, eu espero, um pouco diferente do que tem sido, pois eu me colocarei mais impessoal, menos envolvido, mas humano e mais frágil.

Chega de ser uma rocha.

Para que ser uma rocha?

De que me valeram estes anos em que me fiz de rocha?

De pouca coisa, quase nada.

Então eu deixo para outros a postura da rocha e pratico uma espécie de sepukko simbólico; entretanto, permaneço vivo, permaneço ronin.



Escrito por Ronin às 09:09:44
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As eras

Segunda feira passei pela análise. Disse exatamente como me sentia: Uma merda.

E disse mais. Disse que a ideação suicida crescia a cada dia e que, a a cada dia, tornava-se mais difícil controlá-la. A consulta prolongou-se por 90 minutos... E ganhou um extra para quinta feira, as dezessete horas.

Ela me perguntou porque, assim, eu, que vinha “tão bem”, de repente, me sentia, assim, tão mal... Respondi que as coisas, em minha vida estavam acontecendo lentamente, e que a urgência que elas tem não permitem esta lentidão. Assim, me sinto acuado, acossado a um canto, sem amor, sem nada. Tudo fluido de maneira morna e dolorosa.

Foi uma longa conversa e eu não vou replicá-la aqui. Mas, depois da conversa eu sai e me lembrei de uma cena em O Senhor dos Anéis, primeiro filme, onde aquela Elfa diz ao Guardião:

Prefiro uma vida mortal com você à solidão das eras (importa informar que os elfos são imortais)...

E vi que é exatamente isso que eu estou sentindo.

Muito embora a minha vida seja finita e esta finitude esteja bem demarcada, eu vivo eras de dor, évos de solidão, eternidades de angustias, inabordabilidades temporais de obscurantismo moral etc, etc, etc...

E assim, preso a estes abismos de tempo, eu, que tenho o estigma da morte, acabo vivendo a imortalidade das eras e suas dores.

É compreensível que eu queira por termo a isso.

Eu não posso suportar este ritmo de vida onde as coisas são dolorosamente eternas quando são ruins e não há nada de bom acontecendo.

Assim, fica difícil.

Não importa muito que “as eras” durem semana ou meses, talvez dias, importa que elas parecem eternas, infindáveis e inconcebíveis como forma de martírio moral.

Eu, chego, agora, ao limite entre a razão e a loucura onde me percebo enlouquecendo e vejo, diante de mim, por transcendida a minha capacidade de resistência, o suicídio ou o manicômio, ambos deploráveis, quando todos os meus movimentos conhecidos são em busca de vida.

Esta numa musica: Ressucita-me, ainda que mais não seja, porque sou poeta, e ansiava o futuro... Ressucita-me, quero acabar de viver o que me cabe, minha vida...

Eu sou aquele que pensa no suicídio, na morte, talvez simbólica, em busca de um renascimento...

Talvez, apenas talvez, eu devesse desaparecer. Apagar soropositivo.org, amorpoisitivo.com, lista de discussão, blog, e morrer para o mundo.

Vender meu computador, meu aquário, tudo o que eu pudesse vender para fazer algum dinheiro e me estabelecer em uma cidade qualquer, minúscula, onde precisassem de um técnico de informática e eu pudesse ressuscitar em paz da minha morte apócrifa.

Apenas talvez, porque eu não tenho coragem para tanto.

É mais fácil que eu venha a buscar a morte propriamente dita, até porque a mesma é inexorável, malgrado as eras..



Escrito por Ronin às 09:08:22
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Uma Irmã.




Não preciso nem pretendo negar que estou trabalhando como DJ num inferninho. Ainda é melhor que ser DJ de quermesse.

Digo inferninho porque está repleto de garotas de programas e prefiro inferninho à outra palavra qualquer, mais depreciativa.

Ocorre que esta casa tem uma casa irmã onde trabalha Marcelo, um amigo de longa data que é muito complicado no trato com as mulheres.

Ocorre também que, por isso mesmo, ele atrai para si diversas mulher.

Uma delas veio até a mim, percebendo que sou amigo dele, me pedir conselhos sobre como conquistar o Marcelo. Tenho como política minha não interferir em assuntos de coração porque, depois, se tudo der errado, o grande culpado sou eu.

Expliquei isso para ela e, assim, passados 15 minutos, tinha alguma proximidade moral dela e perguntei, de leve:

-"Quantos anos você tem"?

-"19".

Pensei... que lástima.

Ai perguntei, à queima roupa:

"Como você veio parar aqui"?

E então ela me contou que primeiro morreu o pai, coração. Depois a mãe, desgosto, e ela acabou se vendo na necessidade de morar com a irmã casada.

Segundo ela. depois de alguns meses, a irmã casada disse:

Olha, X (nunca revelarei estes nomes, mesmo que fictícios), não está dando mais para você ficar aqui, melhor você arranjar algum lugar para morar.

Assim ela encontrou a boite, que oferece moradia, e iniciou sua carreira de garota de programas.

Meu desejo mais íntimo era poder encontrar a irmã dela e perguntar:

"Você é irma de Fulana de Tal?"

Ao que ela me responderia sim e eu perguntaria se ela dorme bem à noite. Em seguida faria chover torrencialmente a verdade amarga que ela fez a irmã tragar, gota por gota até tê-la desfeito em lágrimas.

Certamente ela me perguntaria onde está a irmã. Mas eu não diria, pois o mal que tinha de ser feito já foi feito e ainda haveria o risco dela ir lá para chamar a irmã mais nova de vagabunda.... Não, eu não diria.

Mas teria pelo menos o consolo de saber que ela já não dormiria mais assim tão tranqüilamente todas as noites...



Escrito por Ronin às 09:07:58
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Viagem

16/03/2004 09:03 -

Texto antigo


Viagem



Sábado fim uma viagem curta. Santos. Mas não fui para me divertir. Fui fazer um pequeno trabalho que me rendeu uns trocados para eu tocar a vida.

Coloquei um micro em condições de funcionamento. Na verdade um maldito micro que me consumiu horas e quase me consumiu as entranhas enquanto me consumia as horas e terminei o serviço quando já noite.

Tenho onde ficar em Santos e resolvi pernoitar por lá. Santos é minha segunda cidade; vivi lá alguns anos. Salvador é a terceira, por razões que não interessam a ninguém.

Todavia, antes de ir para "casa", me permiti devanear no canal um. Sou um homem precavido (se isso fosse verdade eu não estaria aqui blogando...) e, sabendo que a cidade não estava acolhedora, fui com minha velha jaqueta de couro... Chovia fino, manso e miúdo.

E se alguém deu por mim, uma figura de bengala, boina e jaqueta de couro, sentado na mureta do canal, próximo às ondas que morrem, certamente me tomou por louco. E como toda a certeza terá toda a razão. Por falar nisso, é a praia do José Menino, minha favorita. Talvez a mais feia de todas, mas a minha favorita; isso tem uma razão natural. Era para lá que eu ia com Gabi. E foi para lá que levei muitas outras em noites que não esquecerei... Eu e minhas loucuras intermináveis...

Fiquei ali um bom par de horas, pensando no passado, no presente e no futuro (três impostores). Revivi minha vida, meus amores, como num filem barato com pouca iluminação.

Pensei nas que amei ardentemente e, mais ardentemente, desejei que ficassem mas partiram. Nas que amei de manso. Nas que foram apenas um momento (Deus!!! Porque me fizeste assim?) e nada mais. Pensei naquelas que, de alguma forma, esperaram construir alguma coisa comigo e nada edificaram por causa da minha inconstância; pensei em cada uma delas, pensei em todas e não cheguei a conclusão nenhuma. A não ser a mais óbvia, que me leva a uma confissão:

Confesso que vivi.

Esta confissão já foi feita por outros e outras, e cada um, como eu, estava convencido de que ninguém viveu mais intensamente.

E cada um, como eu, estava enganado a este respeito. É que nosso maior referencial (nós, os que confessam ter vivido) são nossas próprias vidas e, de alguma forma, tudo o que eu pensei naquelas duas horas ou mais, talvez não passasse de poeira e ilusão.

Talvez nenhuma delas tenha querido construir algo comigo. E se teve, foi alguma outra, que me pareceu ser apenas um momento.

O que é certo nisso tudo é que talvez minha visão, naqueles anos, estivesse fora de foco e, por isso, acabei dando tanta cabeçada.

Mas confesso, com orgulho, que vivi, e que isso não me fez mal.

Certamente chorei por Gabi. Certamente chorei por aquela a quem conheci como Flor e que viveu e partiu (de minha vida) sem que eu soubesse seu nome.

Certamente chorei por muitas delas e, infelizmente, devo ter enchido um vale de lágrimas (como estou piegas hoje...)

Mas me alegra saber que, a despeito de tudo, lágrimas, choros, tapas, insultos, beijos, carícias, prazeres, o que me restou foi o fato de ter vivido. E ter vivido um bocado...

Não sei porque, mas me deu vontade de colocar isso aqui. Certamente não será útil a ninguém saber que eu vivi.

Mas eu vivi.

Atesto e dou fé.


Escrito por Ronin às 05:52:11
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Ontem, depois de 11 exames de sangue

Ontem, depois de ter feito onze exames de sangue e estar
placidamente sentado em casa lembrei-me que era dia de analista. Lembrei-me
disso a menos de noventa minutos da consulta e disparei para o AMCA (ambulatório
Casa da AIDS) e cheguei lá com a precisão de 5 minutos adiantado.


 


Bati meu papo com a Éline, descobri mais algumas coisas
sobre mim, todas insatisfatórias, e terminei a consulta. Ai liguei pata minha
esposa e avisei que os remédios que vinham faltando estavam disponíveis e que
ela viesse apanhá-los, já que estava co  a receita. Assim, resolvi que a
esperaria e voltaríamos juntos para casa.


 


Chovia. Isso fez com que uma moça, 28 anos, parasse ali à
espera de seu marido que viria buscá-la.


Para não perder o costume puxei papo e obtive sucesso. A
moça é comunicativa. Paciente do AMCA há três anos tem a filha positiva e o
marido negativo. Contraiu de um outro marido, ex, viciado em drogas, já
falecido, que Deus o tenha.


 


Tranqüila, me conta que sua filha já passou por muitos
problemas de saúde e que, em algumas vezes, pensou que a perderia., Agora, a
menina esta melhor. Complicações possivelmente provocadas pelo HIV geraram um
hipotiroidismo na menina que precisa ir a AACD toda semana para estimular o
crescimento e alongamento dos nervos das pernas.


 


Neste ponto eu pensei que não tenho problemas...


 


Contou-me de sua vida e eu descobri que era, com um rosto
bonito e aspecto de anjo, uma verdadeira guerreira, que não se deixa abater pela
infecção, pelas vicissitudes da vida, pelos espinheiros do caminho.


 


Uma grande mulher cujo nome registro aqui:


Viviane.


 


Só isso.


 


Isso é um gigante chamado Viviane.


 


Quero que Viviane viva muito e que sua filha sobreviva a
todas as dificuldades e cresça para seguir o exemplo da mãe...


 


Conversamos muito. Teria muito a dizer, mas cada um pode
imaginar a vida dela. Minha cabeça ainda dói muito para eu ficar escrevendo
sobre as pessoas...



Escrito por Ronin às 05:51:39
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Peklo dia 8 de março

Pelo dia Internacional da Mulher

Hoje passei por um laboratório e
fiz 11 exames de sangue. Todos para uma endocrinologista. Amanha faço uma
tomografia computadorizada do crânio.


 


Passei por quatro mulheres, todas
bonitas (vocês são lindas) e agradáveis. A mais difícil foi a que me deu três
picadas em duas horas... Mas tinha de ser assim, paciência.


 


O interessante é que não tinha
nenhum barbado, a não ser dois gorilas a quem deram a posição ridícula de
“segurança” em todo o meu caminho.


 


Isso fez as picadas menos doridas o
ambiente mais leve e gracioso e, se estou morto de fome, também estou saciado de
carinho. Tive muitos olhares e muitas atenções feminis para um dia só.


 


Ah, mulheres, que lástima que vocês
só tenham o dia 8 de março para comemorar. E na verdade nem seria um dia para
vocês comemorarem e, sim, um dia para os homens se envergonharem. Mas esta
historia já é bem conhecida e eu não vou me prolongar nisso.


 


Ah, meninas crescidas e cheias de
exigências pueris, charmosas e deliciosas, eu queria tanto saber o que dizer de
vocês sem ser mais um pateta repetitivo a me desmanchar em elogios que amanha se
esquecem que acho melhor não dizer muita coisa.


 


Só isso: Eu tive a companhia de
muitas de vocês, e muitas me amaram enquanto outras me odiaram (eu tenho este
dom de despertar amor e ódio. Gosto disso)... Mas eu amei também, e algumas
vezes, por não saber perder, também odiei (este é outro dom que tenho, o de amar
e odiar, gosto deles)...


 


O que sei é que a cada vez que uma
de vocês me tocou o coração e me deixou levou consigo um pouco de minha alma,
mas deixou um pouco da vossa e, assim, quase ouso dizer que meu lado mulher as
compreende tão bem que entra em contato com o lado homem e dialoga,
contemporizando: “releva, é da natureza feminina, e você já sabe disso”.


 


E meu lado másculo, sisudo,
carrancudo desanuvia a face e ouve a mulher, ou as mulheres, que habitam em mim,
deixando o dito pelo não dito...


 


Sois belas!


Sois adoráveis!


Sois Deusas!


 


E nada mais direi.


 


Feliz dia 8. E que chegue o dia em
que o mundo seja comandado por vós.


E que eu possa vê-lo e ser o mais
humilde servo....



Escrito por Ronin às 05:50:48
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xeque mate

Xeque Mate


Para os que estão acostumados às minhas
palavras habituais, quase sempre demonstrando uma força que eu preciso forjar na
têmpera do aço, este post será bastante estranho.



Mas, eu sou estranho.



Minha mulher dorme, esgotada. Minha cabeça
dói, insistentemente...



Os prognósticos são péssimos e a situação
requer uma força que eu não tenho.



Sim! Mão tenho esta força, vós que me
observais, atônitos...



Parece-me, às vezes, que tenho o dever de
ser forte diante de vós e, infelizmente, eu não posso ser assim...



A musica, hoje, é mais emblemática do que
nunca.



O acaso me protegeu, deveras, por muito
tempo. E eu nem andava distraído.



Curiosamente eu não deveria ter queixas.



Eu trabalhei menos e me perturbei menos com
problemas pequenos. Amei mais, chorei mais, vi o sol nascer inúmeras vezes e me
arrisquei e errei inúmeras vezes. Tantsa foram as vezes que perdi com um sorriso
de dor que até perdia conta... Da vida, não posso ter queixas.



Ou, não sei...



Honestamente não sei.



Eu compliquei pouco as coisas, morri de
amor diversas vezes e, a partir de um certo ponto, aprendi a aceitar a vida como
ela é...



Mas... Isso...



É demais para mim.



Eu não posso suportar isso.



E não vou fazer referencias a que isso é
isso.



Isso me faz sofrer.



E me condena.



Para os que não sabem, tenho aqui comigo,
uma quantidade de psicotrópicos suficientes para que eu morra três vezes.



E eles me chamam. E eu não encontro ninguém
com quem falar. Parece que todos sumiram, cuidando, naturalmente, de suas vidas.



Deixam a mim o encargo natural de cuidar da
minha. Justamente quando a dor é tamanha que o maior impulso é por fim a ela.
Noite longa, de expectativas cruéis, muita crueldade para um bi polar/borderliner...
Eu sou aquele que caminha, sem querer, no fio da navalha...



E como corta os pés este fio!!!



E como dói andar sobre ele!!!



Não, eu não vou suportar isso, de forma
alguma.



Passarei a noite em claro, esperando a hora
do exame.



Depois, passarei mais dez dias em agonia e
pânico, à espera do menos pior entre duas possibilidades angustiantes.



Se fosse uma partida de xadrez eu ainda
poderia fazer alguns movimentos sem nexo para tentar distrair o oponente e
fazê-lo errar.



Mas, infelizmente, não é uma partida de
xadrez.



E se for, já perdi minha dama, duas torres
e um bispo. Pouco se pode fazer com dois cavalos e três peões...



Estou em xeque.



Mate em três lances.



Talvez eu deva derrubar o rei...



Escrito por Ronin às 05:49:27
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Coisa estupida

Coisa estúpida


 


 


Hoje passei por uma
endocronologista. Por aqui há problemas em profusão. Fora a minha cabeça que não
para de doer , vão surgindo outros problemas e, debalde, vou tentando
minorá-los.


A consulta com a
endocrinilogista me fez chegar a conclusão que a endocrinologia é uma ciência
complicada, apropriada para loucos...


Depois de 40 minutos discutindo
prolacitina (acho que é isso) e outras coisas, eu estava com um nó no cérebro...


Aí, encerrada a consulta veio a
pergunta:


 


“De qual grupo de risco você faz
parte?”


“Como disse senhora?”


“Como você cointraiu HIV?”


“Isso faz alguma diferença,
doutora...?


“Não, é uma curiosidade pessoal
minha. Nem vai entrar no prontuário...”


“Não vai mnesmo, pois eu não
direi. Isso não é da sua conta”.


 


Ela emudeceu e disse que eu não
precisava ser agressivo.


Disse a ela que ainda não me
vira agressivo. E que se ela não queria problemas com o CFM era bom só fazer
pergunta pertinentes ao meu tratamento.


Ela se desculpou. Mas estragou
meu dia.


Por que vocês têm que fazer esta
pergunta? Que diferença,  por Deus, isso faz?


Eu sei o porque. Mas só direi
outra hora.


Quero que vocês reflitam sobre
isso




Escrito por Ronin às 05:48:33
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Fui dormir ontem com um misto de alegria

Fui dormir ontem com um misto de alegria, por conta das
Beatas e de tantos telefonemas de parabéns, desejando felicidades, e medo, pois
a dor de cabeça está se tornando severa e assustadora.


Não sou de reclamar de dores. Toda vez que sinto uma penso
logo no Cristo, crucificado, e vejo o quanto a minha dor é ínfima... Mas eu
tenho um limite natural  e humano de suporte e enfrentamento à dor e quando este
é ultrapassado eu chio até sem querer.


 


Hoje eu deveria colher um Liquor, mas estou tão desanimado
que vou deixar para amanhã. Tenho também que fazer uma tomografia do crânio, mas
o convenio ainda não cobre e teremos que pleitear uma urgência no HC... Tomara
que o pleito me seja favorável...


 


Acordei com a dor de cabeça. A bem da verdade, ela me
acordou. Fui ao blog e vi que as beatas passaram por lá, isso me alegrou, pois
eu estava ficando preocupado por não conseguir deixar comentários no blog delas
e temia perder a amizade delas, que prezo muito. Assim como a de outras pessoas.


 


Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida, em breve
entrarei num a fase que o Drummond, se não me engano, chamou de envelhescencia...
Muito parecida com outra, a adolescência...


 


Talvez, se eu tiver sorte, envelheça um pouco.


 


Hoje é quarta Feira e o meu Santos vai jogar pela
Libertadores. Estarei torcendo, mesmo que a dor de cabeça me faça ver duas
bolas.


 


Queria aproveitar este post para agradecer a festa no blog
os


escolhidos
e pelos telefonemas que recebi, de Recife
ao Rio Grande do sul, inclusive um do Japão!


 


Muita gente que eu nunca vi e que talvez jamais veja,
demonstrando amor, carinho e consideração, mesmo que por apenas dois minutos.


 


Não importa o tempo, importa  a qualidade.


 


E qualidade não faltou.


 


Obrigado a todos.


 


Claudius



Escrito por Ronin às 05:47:33
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Uma lástima

Fui Dj na noite por quinze anos.
Comecei a ser Dj antes que a profissão tivesse este nome. Eu era “sonoplasta”. E
era iluminador também. Tinha de me desdobrar nas duas funções. E tinha uma
terceira função: Chefe de bailarinas. Ou seja, eu coordenava a entrada e a saída
das mulheres na casa, no placo, nas passarelas e, para que se diga toda a
verdade, nos hospitais, para onde as levei quando bebiam demais ou quando, no
ápice de suas tragédias, abortavam o fruto de uma transação comercial...


Sim, pois isso acontecia, e
muito. E, se eu não podia salvar as crianças que assim se perdiam, podia, ao
menos, salvar as vidas das mães desesperadas que atiravam ao vaso sanitário
vidas e vidas...


Isso, naturalmente, me fez
aprender coisas. Coisas sobre a vida e a morte. E, sobretudo, coisas sobre as
mulheres.


Ah! Mulheres... Seres cheios de
meandros, de complicações, idiossincrassias, mistérios...


Encantadoras? Sim. Nunca pude
resistir ao apelo que me faziam silenciosamente, com um olhar...


Bonitas? Todas têm algo de
especial, mesmo que seja a matiz da íris em seus olhos...


Charmosas? Poucas não o são... A
maioria vive envolta numa bruma intangível que as faz sedutoras irresistíveis.


Ah não! Eu não acabaria com os
adjetivos e isso ia ficar muito chato de ser lido... O que digo é que elas,
todas elas, sempre me ensinaram uma coisa, fundamental, na questão do
relacionamento entre um homem e uma mulher, independentemente do nível de
comprometimento afetivo:


Reciprocidade.


É preciso que seja recíproco.


Como num Rádio de Galeno, que
não usa energia elétrica mas, sim, a própria onda portadora do sinal radiofônico
para se sustentar.


A estação transmite o radio
recebe. O rádio só funciona porque a estação transmite. Mas esta colocação é
pobre ainda. Pois a estação transmissora pode sobreviver sem o rádio. E em
relações humanas isso já não é bem possível. Não existe “eu te amo por nós
dois”.


É sublime a frase. Mas é
mesquinho.


A relação mais amena poderia ser
comparada a duas torres de transmissão que se alimentam mutuamente. A e B. A
alimenta B que retribui a A com mais energia. Este processo de troca pode ser
chamado de amizade, companheirismo e até mesmo amor.


Pode se dar a ele o nome que se
quiser, mas ele só sobrevive enquanto as duas torres mantém o intercâmbio.


Isso me ensinou Gabi, mais que
as outras, e foi por ter acabado este intercâmbio que nossa relação morreu.


Mas durou alguns anos antes de
morrer e foi bonita enquanto durou.


Infelizmente nem sempre é assim.


Infelizmente algumas torres têm
pouca energia e não vão além das primeiras ondas.


E isso, sinceramente...


Isso é uma lástima.


E eu poderia começar a dizer:


É uma lastima por tudo o que se
poderia ter vivido.


É uma lástima por tudo o que
poderia ser sentido.


É uma lástima...


É uma lástima..


É uma lástima...


 



Escrito por Ronin às 05:44:03
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Outra de pira parte 1

Esta é do temo em que eu
morava em Piracicaba



 



 



Faz umas três semanas.


 


 


 


 Talvez seis. O fato de eu não
saber precisar quando aconteceu não torna isso menos verdadeiro. Inverossímil
talvez, mas verdadeiro.


Custou-me muito contar isso
porque há um risco muito plausível de vocês mandarem homens fortes aqui em minha
casa, com o intuito de me carregarem para o hospício. Negarei tudo e os mandarei
de volta.


 


É a história de uma batalha aérea
e de um incidente diplomático.


 


Tinha acabo de mudar para esta
casa, era pouco conhecido, e ainda sou, porque pouco saio e quase não falo com
estranhos (não devia estar falando com vocês se ouvisse o que minha avó me
dizia).


 


O fato é que
casa nova, vida nova, vizinhança nova, ordem nova. Ficou estabelecido no
estatuto que rege a convivência desta casa que eu sou o encarregado da limpeza
da parte da frente da casa, o que significa lavar a garagem vazia, que serve de
abrigo para vasos, a calçada e a rua. A rua tem uma árvore pródiga em sombra e
folhas caídas.


 


Estava eu
cumprindo minhas obrigações numa manhã de sábado, céu azul, sol quente, pessoas
na rua, muito distraído, pensando sabe ¿ se lá em que quando olhei para o céu e
vi, dois metros acima de mim, um marimbondo. Creio que era o Pai de Todos os
Marimbondos!!!! Imenso, estava circulando acima de minha cabeça.


 


Tenho horror
a marimbondos. Lembro de um que me ferroou uma vez e a dor foi tamanha que
berrei a tarde toda, e toda a noite e todo o dia seguinte. Desde então, detesto
marimbondos.


 


Aquele, pelo
tamanho, poderia ser até mesmo o mesmo marimbondo de 30 anos atrás, ou um de
seus descendentes. Isso bastou para que eu declarasse guerra a ele. Na falta de
um lança chamas, mandei lhe um jato de água. O danado esquivou-se com uma
destreza surpreendente. Meu tiro certeiro falhara, o fator surpresa já não
existia...


 


 


 


A versão do
marimbondo:


 


Era sábado, o
sol, estava quente, o dia, belíssimo. Que mais pode fazer um marimbondo, senão
voar e picar algumas pessoas? É oficio de marimbondo picar pessoas desatentas.
Mas eu não tinha nenhuma intenção contra este ser imenso que se arrasta sob mim,
na verdade, era uma missão de reconhecimento aéreo, nada, além disso. Ah! Mas o
infame me atacou, covardemente, e há de pagar pelo seu crime... 


Assim que se
esquivou, investiu contra mim e eu lancei mais água sobre ele. Este infeliz se
esquivou novamente. A manobra o afastou um pouco, mas era clara a sua intenção
de contra atacar. Meti - lhe mais água, e novamente ele se esquivou. Desta vez,
com tal destreza que chegou muito próximo de mim, que precisei lançar mão de um
balde e atacá-lo corpo a corpo. Ele fugiu, espavorido e pensei que
debandaria... 


O marimbondo
raciocina: 


Tal ser não
merece compaixão. Primeiro tenta me abater com água, depois, infame, me
arremessa um objeto gigantesco. Isso não há de ficar assim...


Eu estava lá.
A postos, pronto para qualquer infâmia proveniente deste maldito marimbondo. Não
demorou muito e ele atacou, com uma fúria selvagem que só redobrou o volume de
água lançado sobre ele.


 


Por muito
pouco não o abati, o infeliz devia estar cansado, pensei, era uma questão de
tempo.


 


Foi ai que
tudo aconteceu: Combinando toda sua força e destreza na arte de voar, o
desgraçado arremeteu-se contra mim, num ângulo que não sei definir, mas que
poderia ser fatal. Esguichei água nele. Tanto quanto pude, e o infeliz manobrou,
evadiu, fugiu e girou 180 graus, na tentativa imunda e covarde de me apanhar
pelas costas. Percebendo a intenção nefanda deste miserável girei, 180 graus, e
atingi uma senhora, de 55 anos, com um torrencial jato d´água...


 Posso
imaginar a expressão de alegria na face do marimbondo, que partiu sem outros
questionamentos...


 Deixo a
vocês o prazer de imaginar os dez mil insultos que ouvi...


 Foi o
primeiro incidente diplomático com a vizinhança...


 Maldito
marimbondo



Escrito por Ronin às 05:43:03
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Outra de pira city parte 2

Repercussão
(por Lisiane Resende - Ou Lee, a calça velha, azul e desbotada)


 


Consta que
deu entrada numa "ala especial para repouso" um senhora de 55 anos, visivelmente
perturbada das idéias, conforme fica fácil evidenciar pelas respostas dadas ao
médico que a está tratando:


 


Doutor, já
que o senhor insiste, vou repetir mais uma vez a história que venho lhe contando
nas últimas 3 semanas: 


Era uma manhã
de sábado, o céu estava azul, era um dia quente e havia muitas pessoas na rua.
Eu estava voltando de minha caminhada matinal, recomendada por um médico como o
senhor, com a diferença de que o outro médico não sofre de problemas de memória
e portanto não fica me pedindo para repetir, pela vigésima vez, a mesma
história.


 


Eu vinha
calmamente pela rua, quando então avistei, ao longe, uma pessoa diligentemente
faxinando a calçada. Minha visão já não é a mesma de antigamente e os olhos
freqüentemente me pregam peças, mas pareceu-me tratar-se do vizinho novo que eu
tinha enxergado apenas uma ou duas vezes. Atravessei a rua e fui em sua direção
para aproveitar a chance de me apresentar e conversar um pouco com ele, pois
prezo muito o bom relacionamento com os vizinhos.


 


Quando já
estava razoavelmente próxima a ele, o rapaz começou a brincar com a mangueira,
fazia piruetas no ar e esguichava água para os lados. Se a pessoa envolvida em
tal cena fosse uma criança, eu certamente não teria me aproximado, temendo levar
um banho de mangueira.  Mas tratando-se de um moço alto e forte, me pareceu
bastante lógico que, à minha chegada, ele interrompesse a brincadeira com a
mangueira e educadamente conversasse comigo.


 


Ele parecia
bastante entretido nessa brincadeira de lavar a calçada, esguichando a mangueira
ora para cima, ora para baixo e me aproximei devagar pois ele estava de costas e
não parecia que tivesse conhecimento de que havia alguém caminhando em sua
direção.


 


Ainda não
entendi como foi que ele me viu. Deve ter olhos nas costas !


 


Quando eu
estava a uns 2 ou 3 passos dele e estava abrindo a boca para cumprimentar: "Olá,
vizinho !", eis que o rapaz subitamente vira-se para mim com um expressão
zangada, um brilho de fúria nos olhos, girando à toda com aquela mangueira como
se fosse uma arma, aponta-a para mim e literalmente me encharca inteira !


 


E então a
expressão do rosto dele se altera em questão de segundos, o brilho de fúria
desaparece dos olhos, e ele começa a repetir uma longa e confusa ladainha na
qual afirma ter pensado que eu era um marimbondo !  Oferece-se para buscar uma
toalha para mim mas não arreda o pé e desanda a repetir a história absurda de um
marimbondo que o persegue há 30 anos, diz que o tal marimbondo já o atacou
antes, que a ferroada dói muito,etc, etc.


 


Doutor, eu
sei que estou muito acima do meu peso, tenho plena consciência disso mas não
aceito que vizinhos venham me insultar dizendo que estou imensa !


 


Quando
afirmei que ele estava muito crescido para tamanha aversão a insetos e que
marimbondos não costumam passar 30 anos perseguindo uma pessoa, ele tornou a
afirmar que me atacou com a mangueira por ter pensado tratar-se de um
marimbondo, senão aquele, então um descendente dele, já que NUNCA NA VIDA HAVIA
VISTO ALGO TÃO IMENSO !


 


Foi o
suficiente para que eu apanhasse o balde que estava no chão e desandasse a
desferir golpes furiosos contra ele, pois nunca admiti que me faltassem ao
respeito dessa forma e não vou aceitar que ninguém mais, nem o meu médico (o
outro), fique me chamando de gorda, obesa, IMENSA, ou o que for.


 


E nem que
alguém fique me olhando e repetindo sem parar: "Maldito marimbondo ! Maldito
marimbondo ! Maldito marimbondo !"


 


Doutor, eu já
falei que prezo muito o bom relacionamento com vizinhos. Além disso, moro
naquela rua há mais de 30 anos e posso garantir duas coisas: nunca sofremos
qualquer invasão de marimbondos gigantes e nunca, jamais, algum vizinho me viu
daquele jeito: despenteada, cabelos escorrendo água, a roupa encharcada,
agredindo alguém com um balde.


 


É lógico que
os vizinhos acudiram, apartaram a briga, chamaram meus familiares, todos
correram para acudir.  Eu até entendo que, num primeiro momento, tenham todos
pensado que eu estava fora de meu juízo normal e então me parece lógico que
tenham procurado socorro médico.


 


O que não
consigo entender é que o senhor, com sua formação acadêmica, anos de experiência
e toda essa calma de quem me escuta contar, pela vigésima vez, a mesma história,
recuse-se a acreditar que estou no meu perfeito juízo e continue me impedindo de
voltar para casa. A história que contei é verídica e nesses meus 55 anos, foi a
primeira vez que agredi alguém com um balde.


 


Espero que
dessa vez o senhor entenda o meu relato e providencie minha alta. Já disse e
repito: não ofereço qualquer perigo aos vizinhos




Escrito por Ronin às 05:42:49
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Cargomilo

Das grandes amizades que deixei em Piracicaba uma delas é muito especial. Celso
Cruzzato; ou, Cargomilo, segundo meu nefasto humor...


 

Cargomilo é o apelido infeliz
que eu coloquei nele e que ele gostou. Até tem e-mail cargomilo@qualquer coisa.


 

Conheci a figurinha nos tempos
em que me associei ao Felipe num pequeno e incipiente negócio que estava
conduzindo: Uma loja de computadores. Tudo por debaixo dos panos, é claro, mas
era um começo. Inútil dizer que a loja faliu e eu não vou contar o porque, até
mesmo porque não vale a pena... Celso trabalhava para nós.


 

Trabalhar é acréscimo de
misericórdia da minha parte, mas tudo bem, ele montava uns micrinhos.


 

Mas tinha uma droga de um
Pentium 166 em casa, enquanto nos já tínhamos PIII 700. Era de dar dó vê-lo com
aquela máquina.


 

Então inventamos um história
qualquer para que ele trouxesse o micro dele para nós. Ele trouxe.


 

Inventamos outra história e
mandamos ele para casa, sem o micro. Ele, relutante, foi.


 

Aí fizemos nossas contas e
chegamos a conclusão que montar um celeron 400 para ele não ia custar tão caro e
certamente o faria muito feliz.


 

Foi feito. Compramos o material
e deixamos lá. Ele teria de montar a máquina. Mas eu não poderia me contentar
com tão pouco. Perco o amigo, mas não perco a piada. O que se segue é uma
transcrição quase fidedigna do diálogo que tive com ele por telefone:


 


 


 

Cargomilo, preciso falar com
você.


 

O que foi?


 

É sobre o seu micro.


 

O q.. que tem meu micro...


 

Seguinte... A gente tava com um
problema aqui com um cliente. Ele tinha comprado um Pentium 166 e deu pau. O
cara tava ameaçando dar parte na policia (silêncio de tumulo do outro lado) e
nós ficamos sem saída.


 

Como assim, s...s... Sem saída.


 

Entregamos o seu micro para ele.


 

Ah... Muito bom! E o que vocês
farão agora?


 

Já fizemos. Montamos outra
máquina pra você. Não é lá estas coisas...


 

Como assim?


 

É um 486, um SX 25 com 4 megas
de ram. Meio lento (...) mas é só até a gente fazer o dinheiro para botar um
micro legal na bancada pra você.


 

Ah é, é? Um 486! (encolerizadissimo)
E o que vocês querem que eu faça? Que eu enfie os dois dedos no %$
e me vire do avesso (neste ponto eu comecei a rir como louco)? Eu vou chegar
ai do avesso, uma imensa hematoma, roxa, pulsando e sangrando para pegar esta
merda que vocês fizeram para mim. Quanto tempo eu vou ter de agüentar isso.


 

Ah Celso, acho que uns três
meses.


 

Três meses!!!!
C*&^%&*@, Seus Filhos de assim, assim, vão
fazer isso e isso, e não parou mais de dizer noves feios.


 

Eu gargalhava ao telefone e isso
o enfurecia ainda mais:


 

E você a..ainda ri... Seu...
Seu...


 

Aí eu disse para ele vir buscar
logo a máquina dele antes que eu acabasse vendendo-a também...


 

Ele desligou o telefone e
disparou para casa.


 

Não chegou em casa do avesso.
Chegou inteiro, como uma cara de morte anunciada. Não sei se a minha ou a dele e
eu desabei a rir novamente.


 

Disse a ele: Vai lá na
assistência que sua máquina está lá.


 

Ainda lembro da felicidade dele
quando viu o celeron prontinho para ser montado...


 

Este pequeno up-grade ajudou um
pouco e, à partir deste ponto, ele passou a ter boas máquinas.


 

Era eu, em parte, devolvendo um
pouco do muito de bom que o Universo me dá..


 

Mas que eu precisei rir muito
antes, ah, sim, eu precisei.


 

Cargomilo, desejo de todo o
coração que você seja sempre muito feliz e que consiga, de alguma forma,
encontrar aquela que você tanto procura; e tanto não acha....



Escrito por Ronin às 05:41:13
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Voltei de Santos um dias mais cedo

Voltei de Santos um dia
mais cedo. A chuva inviabilizava a permanência lá. Depois, só de pensar que
amanha ocorreria um grande êxodo, congestionando as estradas já nos bastou para
que voltássemos ainda hoje.



 


Mas, a mesma chuva que nos
expulsou de lá hoje me fez refletir ontem... Estava eu treze andares acima das
ruas olhando o brilho refletido de uma lâmpada no asfalto e a profusão de pingos
que caiam por ali, bem mais visíveis. Depois, eles se reuniam à massa aquática
que se agregava nas ruas e se confundiam com o resto dos pingos que caíram antes
e com os que cairiam depois.


Tive vontade de imitar um
daqueles pingos e saltar de lá, do décimo terceiro andar e me espatifar na
avenida, criando caos, dor e desolação a dezenas de pessoas... Mas pensei que
não valia a pena. Não por tão pouco.


 




  • Não pela ignorância de muitos.


  • Não pela crueldade de tantos.


  • Não pela indiferença de outros


  • Não pelo cinismo de centenas.


  • Não pelo preconceito arraigado
    com profundas raízes...


  • Não pelo medo que alguns
    demonstram ter de mim...


  • Não pela inexorabilidade dos
    fatos.


  • Não, por nada...


E quedei me a pensar, enquanto a
chuva caia, em quantos poderiam estar tendo a mesma idéia que eu e,
infelizmente, pondo-a em prática.


Dizendo sim, à morte, porque a
vida lhes é negada; por esta ou por aquela razão. Aí tive uma vontade imensa de
chorar... Mas eu não choro mais, me secaram as lágrimas e o depakene me embota
as emoções.


Um navio partiu, malgrado o mau
tempo, soltando fogos e fazendo festa... São, em sua maioria, os inconscientes
do mundo. E que permaneçam assim, sem a noção de dor.


Eu, em plena segunda feira de
carnaval, sinto me só como o último mamute na era do Grande Gelo...


E nem poderia ser diferente.


Minha alma é só.


E esta condição não tem
lenitivo.



Escrito por Ronin às 05:39:13
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O Blog os escolhidos me deu a seguinte honra:

O Blog os escolhidos me deu a seguinte honra:

MARtinha: 9,5 Siri Albino: 10 Nane: 9,5 Rogério: 9,5 Média: 9,63

Nome do Blog: Soropositivo. Porque a Vida é possível com HIV
Escrito por: Cláudio Souza
Gênero: Diário
Novo Endereço: http://soropositivo.blogspot.com
A Boa: Muito Bem redigido
Dica: Textos menores para atrair mais pessoas

Nane: É impossível entrar neste blog e não sentir a força que ele tem, é impossível ler e ficar indiferente a sua maneira de se expressar, é impossível não se emocionar neste blog, é impossível não se comover quando aquela carinha triste aparece e diz que podemos abraça-lo, é totalmente desprezível o preconceito que algumas pessoas tem, mas infelizmente ainda tem gente com a alma vazia neste mundo. Este maravilhoso blog fala essencialmente da vida de uma pessoa que é portador do vírus HIV e que vive uma vida normal, assim como os nossos convidados, o Roger, eu e você que está lendo agora. São textos simples que ele conta sobre sua vida seus medos, receios, alegrias, amores..., e aí é que vemos a diferença dele e nossa. NENHUMA. A dica que dou é continuar escrevendo seus textos mas para ele também escrever textos menores para atrair mais pessoas que não são adeptos a leitura a ler e conhecer essa pessoa maravilhosa. Parabéns pelo seu trabalho e Sucesso. Você merece.

Rogério: Achei o blog muito bem redigido. Ali ele mostra sua força e abre a mente das pessoas mostrando que uma pessoa portadora do HIV tem uma vida normal como qualquer outra. Ele conta a vida dele, seu passado, seus amores, suas loucuras, enfim é um blog que mostra para nós o valor da vida e que ela é vivida de qualquer maneira. Eu aprendi muita coisa neste blog e acho que vou continuar aprendendo. E no que ele precisar para ajudar conte conosco. Outra coisa dia 02 de Março estaremos aqui comemorando teu aniversário, certo. Abraços

Observação: Não nos responsabilizamos pela critica dos convidados publicadas aqui. O Conteúdo é colocado conforme enviado por e-mail sem alterações.

Convidada MARtinha*:Soropositivo foi o primeiro blog que conheci no UOL. Clau, como nós "meninas" o chamamos, nos mostra sua força e coragem para enfrentar a realidade da AIDS, bem como seus medos, angústias e anseios. É um exemplo para todos nós. Em seu blog, ele descreve suas tristezas e alegrias, do passado e do presente, de forma simples e clara, são crônicas muito bem escritas, algumas divertidas, às vezes melancólicas e outras tragicômicas.
Sugeriria apenas no layout do blog um gif da camisinha, em vez dos dois existentes e as duas fitas vermelhas, de tamanho igual, símbolo da campanha. Quanto às imagens, devem permanecer mas não estão em harmonia com o espaço. Clau está de casa nova, ainda na arrumação e, provavelmente, fará alguns ajustes.

Em uma prancha de surf numa onda qualquer nosso convidado Siri Albino*: Claudius tem muito a nos ensinar, mesmo nos seus dias depressivos. O banner do site www. soropositivo.org, que também é dele, é maneiro e de impacto. "Pode me abraçar. Não vou deixar você doente. Vacine-se contra o preconceito."
Por isso, cambada de mal acabados, joguem fora (no mar não, pelo amor a Netuno) esse preconceito burrico que carregam em suas almas. Ainda dizem que o meu cérebro é de siri... Sei...
Claudius, bro, quando nos encontrarmos para o surf, quero lhe dar um BIG MAC abraço. Como não entendo desta geringonça de html, nem layin ou layout, lhe dou a nota máxima. Mas, se precisar de um carpinteiro pode me chamar para fixar a barra de rolagem horizontal. Martelei alguns pregos no blog da MARtinha e esta ficou fixa. O meu preço para cada prego utilizado é uma água de côco bem gelada.

AGRADECIMENTOS

*Ilustres Convidados: MARtinha e Siri Albino
Blog: http://jardimnadasecreto.zip.net
Recado do Os Escolhidos: Agradecemos de coração a MARtinha e ao Siri Albino pela participação neste blog. Beijos




Escrito por Moderadora Nane às 17h10

E eu nao tenho palavra



Escrito por Ronin às 05:38:00
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Madrugada no porto

Madrugada no porto. (um conto, para variar)


...e ela me disse...

Antes que eu conte o que ela me disse é preciso que eu me apresente. Meu nome é Pedro, sou um estivador nas horas vagas e vagabundo nas horas úteis. Moro, naturalmente, numa cidade portuária; morar é um eufemismo: Ficaria melhor se eu dissesse que compartilho um cubículo infecto com dez mil baratas numa cidade portuária pequena e miserável, no sul de um continente miserável. Mas não cai bem a uma pessoa de minha estirpe este tipo de lamentação; por isso digo apenas que vivo em uma cidade portuária.
Passo minhas noites numa espelunca que ousam chamar de “Bar do Zorba, o Grego”. Deve ser a pieguice de alguém... O bar tinha uma reputação tão ruim que beirava ao escândalo público; mas seus freqüentadores não tomavam conhecimento disso; ou fingiam não tomar; eu ficava na segunda categoria, a dos cínicos...
Como eu ia dizendo, passo as minhas noites nesta espelunca mal-cheirosa tomando blod mary ou run da pior espécie. E, obviamente, à caça de alguma incauta que queira me conceder suas benesses, sem compromisso, por uma noite, uma madrugada, uma hora e meia que seja. Desde que eu não tenha que pagar, pois dinheiro de estivador é suado e curto, mal da p’ras bebidas...
Estávamos em meio a um sombrio inverno que congelava a medula dos ossos. Os navios, pude observar, estavam devidamente atracados ou fundeados, não havia vento, o mar estava calmo (tenho muita desconfiança de mar calmo) e o nevoeiro começava a adensar-se lentamente.
Lenta, mas paulatinamente. Logo chegaria o momento em que não se veria absolutamente nada além de três metros... Situação perigosa, um estivador (e um vagabundo) tem inimigos, não é bom não poder vê-los com antecedência.
Mas a loura oxigenada chamava-me a atenção com maior intensidade que o perigo. Olhava para mim e fingia que não via; eu, cinicamente, não olhava para ela de frente, apenas de soslaio, sem interesse, com as virilhas doendo de tanto tesão...
Ela bebia cerveja (certamente vai para o céu), muita cerveja. E me olhava com aqueles olhos turvos, a maquilagem mal assestada, os cabelos em desalinho, um desleixo que a tornava excitante. Uma puta. Isso é o que ela parecia ser:
Uma puta.
Nada me excita mais que uma puta. E ainda mais uma que está bêbada e acessível.
É o tipo de mulher que me agrada. Tinha a voz suave, mas falava alto e isso a tornava patética. Mas, em meio à algaravia de idiomas falados naquele bar tudo soa patético. Até meu silencio ou o ruído do meu isqueiro é patético.
Por volta das duas da manha uma briga.
Alguém disse, em algum idioma, algo que outro alguém não entendeu bem ou não gostou. Facas a postos, gente gritando, algumas cadeiras atiradas e o Jorginho Montanha finaliza a briga com dois safanões... Quase toda noite é assim... Às vezes o Montanha não vem. Aí alguém sangra. Às vezes sangra até morrer.
É a vida, ou a morte, no cais...
O interessante é que a loura não se abalou. Ficou fria, parada, como uma onça pronta para dar o bote e proteger sua prole de algum predador. Quando o tumulto cessou, pediu mais uma cerveja. Foi prontamente atendida por esta imitação de grego que fica atrás do balcão.
Nesta, ela demorou-se. Estava ficando tarde e o nevoeiro estava quase sólido.
Foi quando ela pediu a conta. Pagou com dinheiro graúdo e deixou o troco. Quando passou por mim pediu fogo.
Eu disse: “Que espécie de fogo?” E ela: “Aquele que acende cigarros, por enquanto...”
Acendi o cigarro com o desleixo habitual e ela não agradeceu, nem eu esperava que ela agradecesse coisa alguma. Perguntou meu nome:
-Rodolfo, menti.
-O que faz aqui a esta hora?
-O que faz você, aqui, a esta hora?
-Sabia que não se responde uma pergunta com outra pergunta?
-E o que você está fazendo agora?

Começou bem. Uma luta pela autoridade, pelo comando da situação... Ela fez menção de sair eu disse. “Fique”. “Pra que? Pra ouvir um vagabundo?” “Como se você fosse muito diferente...”
Neste momento soou a buzina de um navio: Tuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuum
Ouvia-se um navio em noite de nevoeiro como se ouve o anuncio do fim do mundo; sempre há a possibilidade de um capitão de segunda e um piloto bêbado...
Saímos daquele lugar e procuramos manter alguma distancia do cais.
Paramos duzentos metros adiante. Durante a caminhada não trocamos palavra. Encostei-me a um poste de luz e o efeito da luz sobre o nevoeiro e aquela maquilagem ridícula era, no mínimo, exótico.
Ela ficou me olhando, desceu os olhos até a região já volumosa abaixo de minha cintura e disse: Bela manifestação de serenidade.
E eu, sabiamente:
Gostou (sou um cafajeste) ? Pode ajoelhar e se divertir à vontade. Ele é todo seu.

Foi neste ponto que ela me disse vá se foder, deu-me um tapa na cara e saiu andando, a passos rápidos, desaparecendo no nevoeiro...
O anel que ela usava cortou meu rosto e deixou esta cicatriz. É a vida... Não se pode vencer sempre.



Escrito por Ronin às 05:37:22
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Agora a noite melhorei um puquinho

Agora à noite melhorei. Também, pudera, depois de 20 gotas de neuleptil qualquer um dorme e acorda melhorzinho.

Eu tenho destas coisas de tristezas sem causa, ou com causas ocultas, sei lá...

Ainda vão ser anos de análise...

Quando acordei ainda estava rodando o CD do Pink Floyd, que eu deixei em “shuffle” e estava começando a tocar “Wish you were here”; nada mais apropriado...
How I wish...

Mas existem as questões de espaço e tempo que Einstein equacionou mas não resolveu.

Porém, mesmo assim, há uma outra força, a do pensamento...

Esta, esta não conhece barreiras.

Estamos juntos.

Escrito por Ronin às 05:36:46
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Um casal

Um casal

Ontem eu conheci um casal. É coisa corriqueira conhecer casais. Casais pululam de todas as partes, em todas as expressões de credo, raça e idade. Então fico com a impressão que não aconteceu nada e este início de texto é absolutamente inútil (escrevo isso ouvindo primeiros erros, com Kiko Zambianqui). Mas não é não. O casal é muito especial, tem uma história de 35 anos e isso é algo que se deve respeitar, registrar e anotar. Os casais de hoje em dia não duram muito.

Às vezes não duram 35 dias...

Na verdade eu estava fazendo um trabalho. Instalava um novo HD num micro e instalava um sistema operacional para que tudo funcionasse a contendo. Eu poderia ter feito o trabalho em duas horas. Fiz em seis; e a finalidade única da demora era ouvir o que aquele homem de sessenta e tantos anos tinha a me dizer sobre a vida. Ouvir os velhos é sempre muito bom, aprende-se muito com eles e se evita muita cabeçada.

E ele me contou que ela foi policial e se aposentou; e que ele foi motorista de táxi e também se aposentou por invalidez. Disse-me que muitas mulheres fizeram parte de sua vida, pelo menos uma vez. Mas também me disse que em toda a sua vida nunca pensara em abandonar sua esposa. Esta, uma mulher radiante aos 53 anos, de uma serenidade ímpar.

Almocei com eles e, a despeito de todos os psicotrópicos bibi do vinho que me ofereceram apenas um cálice e isto me fez bem.

Contaram-me suas peripécias pela vida, a construção de suas histórias que se fundem numa só que culmina, hoje, numa família com três filhas casadas, um neto e o começo de uma nova história.

Acho que é isso que faz o mundo girar: as pessoas. E a maneira como elas conduzem suas vidas... Será sempre difícil acertar em todas, mas é imperativo ir tentando, mesmo que de improviso, acertar, se não na mosca, no alvo.

Confesso que invejei aquele casal que conseguiu o que eu e minha Amanda*** não conseguimos.

Eu e ela, de alguma forma, erramos. E a vida não nos perdoou, separando-nos por um tempo que pode parecer para sempre.

Mas eu acredito em outras vidas e sei que tudo aquilo que eu não puder fazer nesta farei em outra; então é bom poder não perder a esperança em concretizar sonhos.

Quanta vez não terá tentado acertar o casal que conheci ontem até poderem acertar?

Deus sabe.

E a mim não cabe questionar...
Cabe-me apenas viver o quanto possível.


Escrito por Ronin às 05:35:56
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Do tempo em que eu morava em Pira City

Saudades


Como não pode deixar de ser, quando vou a sampa passo pelas ruas de minha vida...
É interessante notar que, malgrado nossos desejos de fixação, tudo passa.

Talvez por eu ter saído de casa tão jovem, aos 12 anos, tenho a impressão de que já sou um homem com 50 anos, a despeito dos 36 outonos sombrios que carrego comigo.

É que minhas lembranças remontam bem mais atrás.

Onde eu deveria ter jogado bolinhas de gude, lutava pela vida e acrescentava referenciais que hoje não teria se não fosse assim.
Quem leu a historia do toureiro e da Gabi não sabia, penso eu, que ela se passava no Le Masque, que era (,...) uma boite na rua Bento Freitas, onde eu era DJ.

Pois não é que o Le Masque fechou?

Fechou.

Vai virar um bingo.

E pensei: as pessoas virão aqui e se sentarão, arriscarão a sorte e ganharão algum dinheiro. Outras deixarão lá suas calças e algumas notas promissórias assinadas... Uns irão para casa bêbados e outros nem voltarão de medo de apanhar da mulher...

Haverá alguns que sairão dela indiferentes ao ganho ou a perda.

Jogadores profissionais.

Não se importam com nada. Perdem 10.000 reais com a mesma serenidade com que os ganhariam... Invejáveis pessoas estas que mantém o sangue frio onde o meu ferveria...

Mas, a despeito de tudo isso, eles jamais saberão o que eu sei sobre aquele lugar.

Não saberão que la esteve, naquela porta, o toureiro, que esperou por mais de 20 anos pela oportunidade de reencontrar sua amada.
Não saberão que a Gabi também andava por lá, linda, com seus olhos imensos, seus cabelos curtos, sua pele macia e espírito selvagem... Não saberão que eu e ela nos amamos como loucos que éramos então e, quanto possível, leais um ao outro.
Não saberão. Mas eu sei.

Sei e isso ninguém pode tirar de mim. Nem mesmo o trator insensível que vi por la, demolindo paredes, esmigalhando pisos, destruindo cenários...
Isso me leva a pensar que certo mesmo é a canção que diz:

Em paz com a vida e o que ela me traz...

Vivi pencas. E mesmo agora consigo ouvir a voz da Gabi, me dizendo coisas (...).
Lembro me de nossos planos: "um dia, sairemos daqui e viveremos nossas vidas, felizes"; ela me dizia.

Não saímos. Ou saímos, cada um para um lado e não fomos felizes, juntos; cada um de nos teve de procurar a própria felicidade em outras paragens e o tempo se encarregou de os afastar, com sua peculiar habilidade em afastar pessoas.

Muitas vezes me pergunto por Gabi. Me pergunto, na verdade, por muita gente boa e má que sumiu, sem deixar vestígios, nesta estrada longa e sem sinalização...

Onde andas? Por onde vais? Com QUEM vais? Sabias que o Le Masque, aquele cantinho obscuro e mal reputado da cidade fechou?
são tantas as perguntas minha amiga de outras eras que não poderei me satisfazer com poucas respostas.

Por isso fico eu mesmo com aquela resposta que me destes, mais de dez anos atrás:

"Tudo passa, e nosso tempo passou¿.

Acho que passou mesmo. E para ratificar sua opinião, o Le Masque fechou. Aquela nossa musica, legato a um granello di sabia (preso a um grão de areia ), foi substituida por outra, la lontanazza ( a distancia ).

E nos, que viveremos presos a um grão de areia recebemos como premio a distancia, a ausência, a saudade e, por que não dizer? A lembrança.

Acho que da vida é o melhor que tiramos: nossas lembranças.

De que valeria a vida se não tivéssemos nossas lembranças? Nossa vívida impressão sobre tudo o que vivemos?

Acho que irei, em breve, até o José menino, lá em santos, olhar aquele pier, uma última vez.

Tenho a impressao que se eu for ate la e estreitar os olhos com bastante força verei nos dois la, sentadinhos, olhando os navios...



Escrito por Ronin às 05:35:12
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Apenas um aviso

pessoal, estou migrande de volta para o UOL. A coisa esta meio desordenada, mas vai ficar legal quando eu acabar, mas dá uma preguiça...

Escrito por Ronin às 14:39:56
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Fora de propósito

Hoje, falo ainda da segunda feira, posto que ainda não consegui dormir, foi dia de análise.

Dia sempre bom de uns tempos para cá. Já há, entre mim e Éline, uma certa intimidade que faz com que as coisas fluam naturalmente e eu posso dizer, e ouvir, o que quer que seja, e tudo está bem. Se eu pudesse, recomendaria a todos, mesmo aqueles que “não tem problemas”, que fizessem análise. Sempre há algo a se descobrir, algo a se retocar...

Eu, por exemplo, preciso trocar o telhado, o piso, e algumas paredes para que a casa fique em ordem. Mas eu não sirvo como exemplo, posto que louco. E, já disse, a louco, tudo se perdoa.

E como é bom ser louco! Ah! Como é bom. Não tenho certeza, mas acho que o Poeta Vinicius escreveu uma Elegia à Loucura... Amanhã vou ver isso, pois posso estar a dizer besteiras... Nada mais natural.

Acho que aqui no quinto parágrafo todos já estão fartos e querem saber o que se passou na análise. Que coisa feeeeia! Onde é que já se viu? O que se passa num consultório entre paciente e analista é igual a segredo de confissão, cambada de indiscretos.

Basta que saibam que a sessão foi boa, providencial e me deu um pouquinho a mais de juízo.

Este juízo me levou a interpelar uma pessoa e eu vi que tal pessoa também tem juízo.

Então, se eu sou um louco com juízo (contra-senso dos contra-sensos), tenho uma pirada completamente ajuizada. E como isso é bom, como é bom ter amigas ajuizadas, que sabem os rumos da vida e que têm a coragem de descrevê-los e até mesmo assumir a hipótese de trilhá-los...

Já falei demais.

A segunda feira foi ótima. Em algum lugar, são seis da manha e alguém certamente conseguiu, finalmente, dormir, depois de muito rolar na cama e ler muitas páginas de algum livro...

Na Nova Zelândia passa das duas da tarde.

E esta informação é completamente fora de propósito...

Escrito por Ronin às 14:39:10
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Marina e Priscila

Antes de Flávia veio Marina. E junto com Marina, Priscila; ou Ana Cláudia, como queiram.

Marina era minha esposa e a união já durava dois anos quando surgiu Priscila.

Eram duas pessoas completamente diferentes. Marina era uma candura sem igual e, quanto eu possa me lembrar, só me deu reiteradas provas de seu amor por mim. Foram inúmeras e eu poderia avocar o testemunho de amigos silenciosos que acompanham este blog para atestar o amor de Marina por mim. Era um amor incondicional, que se dava e dava de si qualquer coisa por mim. E por dois anos, eu fui fiel a Marina; de alguma forma, amava-a; mas não tanto quanto ela a mim. Afinal, não é sempre que duas pessoas conseguem elevar a vibração ao mesmo nível e formar um “casal perfeito”.

Já Priscila era diferente. Era bailarina do La Concorde. Sei que as feministas de plantão dirão: Filho da mãe, trocando uma mulher destas por uma puta... Julgai, antes, vossos maridos, namorados e amantes. O fato é que Priscila tinha um que de sensualidade que me punha em chamas... E era difícil resistir ao apelo.

No começo, era só uma transa. Na verdade era para ter sido só uma transa e na da mais. Só que a transa foi ótima e a vontade de repetir pode ser retida por uma noite. Em uma semana estabeleceu-se um caso rumoroso que mais tarde se tornaria tórrido e cheio de rompantes de desespero.

Eu comecei a levar uma vida dupla.

Uma mulher na noite e outra no dia. Dormir, que é bom, 4 horas, no máximo cinco. E eu ainda tinha de trabalhar! Homens que me lêem, não entrem nesta, é a maior gelada!

Marina pressentiu alguma coisa e se distanciou um pouco, angustiada (lembro-me de ter pedido perdão dezenas de vezes na última vez que nos falamos por telefone uns três ou quatro anos atrás); mas permaneceu firme em seu amor. Cuidava de mim como se nada de errado estivesse acontecendo, como se meu horário de chegada em casa, cinco e meia da manha, convertido em nove ou dez horas não representasse nada...

Priscila fazia bem o papel da outra. Exigia a separação.

Eu não sabia que pé tomar, pois me lembrava bem da devoção de Marina e de um rompante de grande valor num momento em que eu caíra em desgraça... Não podia abandoná-la... Então Priscila dava o troco: Fazia o diabo dentro da boate para me achincalhar o orgulho; me levava a ter medo de perdê-la, um inferno.

Lembro-me que no natal eu fui obrigado a trabalhar. E Marina fez questão de ir o La Concorde passar o natal comigo. Imaginem isso. Imaginem-me indo para o cadafalso acompanhado de uma banda de musica tocando “se você fosse sincera, O o o o, Aurora...”

Pois não aconteceu nada de espetacular. Na hora da ceia, sentamo-nos, Marina e eu, a uma das mesas e qual não é minha surpresa quando vejo Priscila se converter em humilde garçonete daquele casal!

Fez tudo direitinho, primeiro serviu Marina, olhando de soslaio para mim, depois me serviu, sem olhar para mim e saiu marchando, passo duro, revoltadíssima com a presença da rival que, felizmente, não sabia e, naquele momento, não soube de nada.

Houve um numero sem par de fenômenos desta espécie e eu não acabaria de escrever se tivesse que contar tudo o que aconteceu. O que sei é que em determinado momento Priscila resolveu voltar para a cidade dela, que não digo para não suscitar coisas, e eu considerei um grande alivio. Era uma viagem temporária, dois, três meses, mas seria o suficiente para eu recompor a rotina de casa e remendar os estragos feitos àquela união.

Mas Priscila morava em um apartamento e deixou muitas coisas lá. E deixou também uma divida. Eu não sabia da divida. Só soube no dia em que a “amiga dela” trouxe todas as coisas de Priscila e entregou na porta de casa para Marina, dizendo, diga a ele que guarde as coisas da mulher dele. Eu estava dormindo. Fui acordado numa tempestade, assombrado, buscando entender o que acontecia ali. Fui tomando pé da situação e acabei conseguindo convencer Marina que aquilo era intriga (talvez fosse tudo em que ela queria acreditar), que ra gente querendo nos separar. Lancei pragas, Éditos, Maldições...

Mas Marina continuou mexendo nas coisas de Priscila e acabou encontrando uma prova definitiva:

Uma carta.

Uma carta ardente, com a minha singela caligrafia.

Este era um documento impossível de se desvirtuar.

O mundo desabou sobre mim. Eu, envergonhado, confessei tudo e ouvi o diabo. Era merecido.

Deixei a casa levando apenas pertences pessoais, incapaz de sustentar um olhar na direção dela e fui morar na casa de um amigo, cujo nome não cito, pois não sei se tenho liberdade para tanto. Ele e sua esposa me receberam de braços abertos.

Priscila voltou. Tentei ter alguma coisa com ela, mas foi impossível.

Para que ela não voltasse para a noite liguei para o pai dela, inventei uma historia qualquer e coloquei-a num ônibus, de volta pra casa.

Passei a viver com este casal de amigos, passei por Flávia e sobrevivi mal. Aí...

Aí veio Simone.

Mais isso já é outro capítulo.



Escrito por Ronin às 14:38:37
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Pocahontas

Acabou o infeliz horário de verão. E eu digo graças a Deus!
Esta coisa de uma hora adiante não me agrada; perturba os sentidos, cria ilusões, faz-nos perder a hora... Prefiro o horário de verdade. Muito embora o horário de verão tenha me ajudado numa conquista amorosa que, depois, se revelou uma das minhas maiores derrotas: Flávia.
Conheci Flávia pouco antes, cerca de um ano, do resultado soropositivo. Já era, eu, um DJ decadente, sem muito ânimo para tocar e se o fazia era mais por necessidade que por amor. Assim, estava trabalhando numa casa decadente, o Clube de Paris, que tivera dias gloriosos, mas, naqueles últimos dias, estava na sua fase final, chegando à repugnante condição de oferecer quartos para seus clientes...
Uma bela tarde de verão a chuva me tomou de assalto e eu entrei no clube de paris correndo, antes do horário e choquei-me com uma morena que só pode ser descrita assim: Pocahontas.
Pedi desculpas e pensei: “Uau”...
Não sei o que ela pensou. Sei que ela começou a trabalhar ali na mesma noite e na mesma noite entabulamos amizade. Esta amizade levou-me a acompanhá-la até a porta de sua casa, uma pensão na Barão de Piracicaba, onde ganhávamos algum tempo por conta do horário de verão.
Não custou muito para que eu me apaixonasse por ela. E daí a enlouquecer por ela foi só mais um passo. Felizmente ela correspondeu a isso.
Um domingo (eu tinha a obrigação de cuidar do Clube nas noites de domingo) levei ela para lá e ficamos de papo, até que viesse o primeiro beijo, longo, molhado, repleto de tesão.
Foi no palco do decadente Clube de Paris que começamos um tórrido romance que teria como um de seus pontos culminantes a minha demissão do Clube, já que o proprietário não admitia relacionamento entre funcionários e garotas da casa. Ela saiu comigo, em solidariedade e protesto.
Pagaram-nos no ato e no ato nos enfurnamos num hotel, o Castor, de onde só saímos uma semana depois.
Aí começou o problema. Eu, com 32 anos. Ela, com 19.
Eu tinha literalmente desaprendido tudo o que Gabi me ensinara e entrei na paranóia do ciúmes. Não suportava os programas dela e a cada um era uma briga pior.
A bem da verdade eu tinha medo de perdê-la para algum endinheirado da vida. Isso acontece, eu já vi acontecer. E este medo me apavorava ao ponto da irracionalidade.
Assim as brigas foram crescendo e eu fui inviabilizando uma história que poderia ser de amor.
Uma madrugada, eu desci para apanhá-la (ninguém estava me dando emprego) e vi-a parada na esquina conversando com um homem, cerca de 25 anos. Em seguida alinharam-se e desceram a rua, passando por mim.
Entrei no “Trem das Onze” E tomei uns 8 conhaques em uma hora. A hora da espera. Depois saí do Trem e sentei-me na calçada do outro lado da rua. A espera eternizou-se por não sei quanto tempo; mas tempo o bastante para eu pirar de uma vez. Quando ela chegou encontrou um mar de sentimentos revoltosos e eu a agredi verbalmente de todas as possíveis e inimagináveis. Isso determinou o fim do romance.
E o inicio da minha loucura.
Cheguei em casa tremendo, chorando, morava com um casal de amigos. A esposa dele veio saber o que se passava comigo e eu contei. E ela me acalmou até que eu dormisse. Dormi pouco e acordei angustiado.
Enfim, não vou narrar os vexames que dei, os porres que tomei, as barbaridades que fiz “pelo amor de uma mulher”.
Mas, direi, sem muito orgulho, que cheguei ao ponto extremo de pedir a ela, por favor, por uma última noite.
Ela me disse que isso não mudaria nada, que tudo estava acabado.
E realmente estava.
Flávia sumiu. Depois de entretecer um curto namoro com um amigo meu acabou cumprindo a minha profecia e casou-se com um endinheirado da vida...
Deve, eu espero, estar feliz. Q
Quando soube do HIV mandei avisá-la. E, ao que me consta, ela é negativa.
Tanto melhor...
Já era um DJ decademte. Por muito pouco não me tornei um homem decadente. Depois deste susto, assestei rumo e só voltei a sofrer por amor mais uma vez. Mas, desta vez, a coisa foi séria, e eu nunca contarei esta história.



Escrito por Ronin às 14:38:13
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Um dia ruim num passado distante

Hoje foi dia de consulta extra na psiquiatra. Depois da briga monumental que eu tive com o infectologista ridículo que me arranjaram só poderia dar nisso. Cheguei lá às dez da manhã, tinindo; pensei que viria um imenso sermão e eu não estava disposto a sermões.

Valéria concordou comigo. A postura do médico foi mesmo antiética e eu poderia tomar as providencias que eu achasse melhor.

Mas me chamou à atenção o fato de eu estar levando tudo no ferro e fogo a despeito da pesada medicação que eu tomo... Eu sorri e disse a ela: “Já pensou se eu parar com os remédios?” E ela: “Deus me livre!”

Conversamos e ela me deu um laudo médico para eu obter uma eventual aposentadoria por invalidez, já que emprego mesmo eu não arranjo. Este laudo era o centro da discórdia entre mim e o médico Caxias que me considera apto ao trabalho e não vê o lado social da doença. Mandei-o a todos os diabos. E todos os diabos o mandaram de volta a mim. Assim entreguei-o à ouvidoria da casa da AIDS e veremos o que resta dele.

Assim se foi minha manhã e parte da tarde, quando comecei o retorno à minha casa. Fiquei num ponto de ônibus na Rua Augusta e um sol morno de Inverno me tocava e aquecia; por outro lado, uma brisa vinda do Pólo Sul me acariciava a pele e provocava arrepios. Gosto disso. É a sensação de estar vivo. Porque não basta estar vivo. Amebas estão vivas, coleópteros estão vivos, gansos, abelhas, pernilongos gatos e cães estão vivos. Mas não sentem a vida como nós, humanos, podemos sentir.

E este prazer em me sentir vivo, presente de um sol ardente e de uma brisa gelada me fez e faz bem. Pois me lembra que estou vivo, que ainda tenho muito a fazer e que não é um medicozinho de merda que vai por obstáculos em minha vida, impunemente.

É Valéria, você tem razão quando diz que eu levo tudo a ferro e fogo. Mas eu penso que tenho razoes de sobra para levar tudo a fogo e ferro, pois preciso estar vivo e sentir isso, mesmo que tenha de morrer mil mortes para dizer que estive vivo por dez minutos num dia de Inverno. Está em mim, no meu âmago, lutar pelo que preciso ou por aquilo em que acredito e levar os fatos até o ultimo desdobramento da última conseqüência, ou não serei mais quem sou e estarei morto..

E morto, em vida, não desejo estar, não quero estar e não vou estar, custe o que custar.

Tremei... Hoje eu entardeci tempestade.

Escrito por Ronin às 14:37:51
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Desculpas tolas

Ontem assisti um documentário sobre o Chile e a Patagônia; Patagônia esta que minha intrépida Bee visitou munida de um Jeep e muita coragem.

O documentário termina mostrando a casa de Pablo Neruda. Um espetáculo! Quisera eu ter uma casa margeada ao Pacífico!

Explica-se, assim, com o acréscimo da inegável genialidade do homem, a sua fonte de inspiração.

Mas eu só tenho uma janela e nem de longe sou um Pablo Neruda. Então, fico aqui caçando brisas e olhando a minha vizinhança que tantas vezes me serve de mote para escrever. São casas pobres, gente humilde, que sempre me levam a pensar no bem que a vida me deu durante anos e que eu não soube aproveitar... Mas isso aqui não é um texto de lamúrias. É, na verdade, um expedito de perdão incondicional.

Alguém me escreveu hoje pedindo perdão por uma bobagem; a bobagem eu não mencionarei e a pessoa também não.

Só queria que você ficasse tranqüila com relação ao que foi dito e ao que aconteceu porque eu já sou mais forte que certas coisas, mesmo porque eu nem sempre tomo-as ao pé da letra e, em última análise, sempre carrego a esperança de ver a pessoa se descobrir equivocada e mudar de ponto de vista.

Você mudou de vista.

Isso é bom. Prova a mim e a você o que eu já te disse:

Você está crescendo.

Faz assim, como na canção intuição:

“Canta uma canção bonita, falando da vida em, ré maior”

E já vai me bastar como alento.

Eu, da minha maneira, também te amo, o amor de criatura para criatura, que poucos podem entender, e só desejo o seu bem...

Enfim, eu encontrei um amor, este, a nível de persona, e já não importa muito os impedimentos que você encontrou num determinado momento...

De todas as formas, adoro você.

Beijos

Cláudio (É assim que você gosta de ver meu nome)

Escrito por Ronin às 14:37:17
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Inexplicável

Apesar deste dia não estar sendo dos melhores, não posso me furtar a escrever. Mesmo que seja só um pouquinho.

Ontem foi dia de consulta com a infectologista e, quanto possível, as coisas vão bem.

Triglicérides alto, mas diabetes controlada.

Não saiu o resultado de CD4 nem de Carga Viral.

Então ta. Depois se vê. Mas deve estar tudo bem, apesar de uma manifestações epidérmicas (foliculite)...

O fato é que não estou preocupado com isso. E, se escrevo, é porque acredito que os que me acompanham acabam se perocupando mais que eu com isso. Então vou expedindo boletins meteorológicos de tempos em tempos. Com o passar dos anos estes boletins deverão piorar sensivelmente até que não sejam mais expedidos por falta de expedidor... Mas, é o jogo.

Me preocupa muito é saber, depois de uma conversa com uma médica e amiga, que há, na Casa da AIDs, uma paciente de 24 anos que não sabe sequer ler o próprio nome. Casada com um louco que tem tanto ciúme que não deixa ela estudar, está fadada ao desconhecimento. E isso, na hora de combater o HIV, é funesto.

A minha amiga disse que desenha sol, luas, coloca nas caixas dos comprimidos, faz de tudo, mas não há meios para fazê-la entender o modo de tomar os remédios. De fato, é meio complicado e tem muita gente estudada (sic) que se perde.

Para piorar, o animal que ela tem como marido sabe ler, conheceu-a depois dela ter contraído HIV e ficou com ela assim mesmo. Isso é um sinal de amor. Por outro lado, ele não a ajuda sequer a acompanhar o próprio tratamento e, as vezes, ela perde a consulta porque não sabe ver a data...

Que amor é este? Este que aceita (...) o HIV mas condena a morte (a médica diz que ela vai de mal a pior)?

Que homem é este?

Se alguém puder me explicar, eu agradeço.



Escrito por Ronin às 14:36:23
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E emparerai que per morrire te basterá um tramontto.



E descobrirá que para morrer, te bastará um por-do-sol.





Não quero outra coisa. Talvez eu tenha que atravessar o continente para encontrar este lugar onde o sol se ponha sobre o mar para, no meu ultimo dia, sentar-me numa esperada cadeira de rodas e ficar ali, olhando o mar, o céu, as gaivotas e o sol se ponto, rútilo, alaranjado, enorme, distorcido pela lente que a atmosfera cria quando ele, o sol, está na linha do horizonte.

Certamente estarei fumando um cigarro. O último. E estarei me lembrando de muitas coisas passadas e vividas, todas vívidas na memória. O Poeta se enganou quando disse que “tudo se perde no fio tênue da lâmpada da memória”. Não Vinicius, não se perde não. Permanece até o ultimo instante e vai alem, conosco, para muito além dos portais...

O que me dá pena é que muita gente não se apercebe disso e permanece numa luta insensata, buscando ser o melhor em tudo, sobrepujando a todos, pagando qualquer preço para isso...

Aí, terminam tristes e solitários num leito de hospital, sem nada a dizer senão sobre suas conquistas matérias que em breve serão alvo de dilacerantes duelos de cobiça e ganância...

Falo isso porque já vi acontecer. E já vi muita gente que tinha tudo, mais do que o necessário para garantir até mesmo o futuro de suas gerações, se engalfinhando em lutas comerciais nem sempre dignas, nem sempre honestas, nem sempre éticas, com o fito único de acumular para si.

Vi homens que levaram outros à bancarrota pelo simples prazer de obter e acumular. E vi estes mesmos homens caírem em desgraça anos depois, indo, alguns, às raias da mendicância e indigência...

Há uma Lei de Efeito e Causa e esta rege a nós todos.

A cada um, segundo as suas obras.

E eu me pergunto o que será dito àqueles que, num repente, são soerguidos a condição de ídolos, abraçando a riqueza incomensurável e, misteriosamente, esquecendo-se de seu passado, de sua vida verdadeira...

Há um grupo de homens e mulheres neste planeta que, sozinhos, com um pequeno percentual de suas próprias riquezas, impossíveis de terminarem, poderiam mudar a geopolítica planetária instituindo escolas e hospitais onde campeia a miséria, a fome, o desespero, o aviltamento de seres humanos, reduzidos à condição de animais famintos...

Não quero, jamais, estar na posição deles, enceguecidos pela luxúria, desfilando opulência num mundo de misérias.

Prefiro ser e estar como estou.

Ao menos, faço o pouco que posso e durmo com a consciência relativamente tranqüila.



Escrito por Ronin às 14:35:34
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Humanitas

Tenho um programa que monitora o clima e a temperatura na minha cidade, sampa. Ele mostra 18 graus. Mas, aqui no Horto Florestal sempre está uns dois ou três graus mais frio. Então arrisco que estou num clima ameno de 15 graus. São pouco mais de vinte e três horas.

Adoro esta temperatura. Boa para comer, para passear, para fazer amor então! Huuuuuuuuuuum...

Tenho uma amiga que esta na Alemanha em pleno Inverno europeu. Deve, pelo adiantado da hora, estar dormindo sob três edredons com dois pares de meia, um suéter, uma calça de lã e, muito provavelmente, um gorrinho. Ela deve ficar uma graça de gorrinho cobrindo as orelhas... Pouco de seu rosto é visível...

Mais a Leste, talvez na Rússia, eu arrisco que esteja amanhecendo.Pessoas saindo de casa para trabalhar, tiritando de frio, com neve até os tornozelos...

Mas lá na Nova Zelândia é quase meio dia e as praias estão cheias de gente bonita e gente feia, mas gente, acordadíssima, e em plena atividade. Surfistas, praticantes de Body-Board e estes esportes aquáticos que se inventam a cada dia apenas para se ter prazer em testar os próprios limites...

Em algum lugar a Oeste de nós começa a anoitecer, provavelmente numa ilha no meio do Pacífico, numa ilha pequena onde uma comunidade de homens e mulheres simples estão recolhendo seus barcos e redes depois de um dia de labuta pela vida enquanto começam a se preparar para o merecido descanso...

Isso é o mundo girando em torno de si mesmo enquanto faz outro movimento em torno de um centro de energia que está na localização exata para que nós possamos existir aqui, confortáveis e seguros.

Seria bom se todas estas maravilhas pertencessem a todos o que habitam este planeta.

Mas não é assim.

E eu não vou enumerar as desgraças que proliferam no mundo porque todo mundo que tem um mínimo de consciência sabe delas e está ciente que algo precisa ser feito para que este quadro mude; mesmo que um pouquinho a cada dez anos...

São, estas reflexões, resultado da minha insônia e da minha sede de Justiça. Não só para mim, que aprendi a procurar pela justeza das coisas (slope, eu não esqueci)... Mas, sim, para o mundo, que pode sustentar a todos com dignidade e não o faz porque alguns seres humanos se encastelaram no poder a qualquer preço e não tem consideração nenhuma por nenhum outro ser humano. Só querem para si. E querem cada vez mais. Não importa se para isso é preciso haver guerra e derramamento de sangue (não direi sangue inocente porque desconheço sangue culpado).

É a velha tese de Machado de Assis:

Humanitas tem fome. Humanitas precisa comer.



Onde isso vai dar? Eu não sei...

Escrito por Ronin às 14:35:07
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Omni Similis Sumus

Éline, a Terapeuta, está me convencendo que sou um bom menino...

Ou, melhor dizendo, que estou me tornando um bom menino, que estou evoluindo e melhorando a cada dia que passa.

Isso me trouxe uma alívio, uma paz de consciência que eu não consigo traduzir em palavras.

O fato é que eu sempre carreguei muita culpa por usar o que Lacal chama de “poder de sedução” com finalidades malignas... Ou seja, era conquistar para saquear e abandonar.

Mas, depois de muita conversa e muito pensar, eu vou percebendo que as coisas não são bem assim.

Eu posso até ter vivenciado uma experiência assim, me passando por um vilão. Mas, e o outro lado? O que pretendia? Como vivenciou?

Talvez, como eu, não quisesse mais que uma noite; até porque eu nunca seduzi uma mulher prometendo-lhe qualquer coisa além de uma boa noitada...

E nunca levei ninguém na marra... Ou melhor, teve uma sim, eu peguei ela no meio da rua, coloquei no ombro direito e subi as escadas do hotel em que morava com ela esperneando e me chamando de todos os nomes feios que ela pode encontrar. Mas quando eu parei na porta do quarto a soltei e disse: “Pode ir, se quiser...” Só que ela não foi. Então ela não ficou porque não quis. Era tudo uma brincadeira e acabou numa loucura que nem vou ousar narrar... O UOL pode me por fora do ar...

Mas é isso. Estou, hoje, bem mais apaziguado com tudo... Ou pelo menos quase tudo. Há um espinho aqui, que não pode ser removido. Ms que também não deve ser publicado, pois envolve o sofrimento e a vida de outra pessoa, a quem amo e respeito, à minha maneira, é claro.

Dói em mim saber que ela pode partir a qualquer momento... E que eu não posso fazer nada.

Está nas mãos de Deus.



Omni Similis Sumus

Escrito por Ronin às 14:34:42
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O vento nop Horto Florestal

Ola...



Dormi como um anjinho (é o único momento em que posso parecer –me com um anjo). E acordei com vontade de fazer vontades. Quem ouviu Queen ouviu, quem não ouviu, vai ficar pra outra oportunidade.

Hoje é dia de analista, dia de descobrir coisas horríveis sobre mim...

Mas também encontro alguma coisa boas. Nem tudo é perfeito e nem mesmo eu poderia ser tal mau assim.

A música vai para duas pessoas. Uma por que gosta, outra porque os sentimentos são reais.

Esta segunda pessoa julga que fracassou quando, na verdade, deu mais um passo na sua vida em direção aos platôs mais altos que um dia ela vai ocupar e, nem de longe, eu poderia acompanhá-la.

Disse a ela ontem e digo hoje a todos:

Nem sempre é possível ser o melhor sempre, somos humanos e falíveis...

Esta é uma das coisas que a análise me trouxe à luz da consciência.

A outra é que estamos sempre crescendo enquanto interagimos com o mundo.

Logo, é importante interagir com o maior numero possível de pessoas para que nos enriqueçamos cada vez mais e, na via oposta, as pessoas se enriqueçam conosco.

Este não é o post do dia, muito embora eu não tenha etsa de postar só uma vez ao dia, mas apenas uma pequeno oi para dar ciência que, malgrado os piores prognósticos, eu continuo vivo.

À tarde eu trago alguma coisa nova para vocês...

O vento, aqui no Horto Florestal, uiva...

Escrito por Ronin às 14:34:12
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All dead

Acabou o domingo.

Ele se arrastou, mas acabou. Pouca coisa eu fiz.

Conheci uma moça que está muito longe de casa e que é uma beleza de mulher (está ali no meu descritivo que eu sou um incorrigível); valeu-me o dia.

Também proseei com Lacal e, para não variar, sempre um bom papo.

Li alguma besteira escrita no meu blog sobre a AIDS ter cura.

Cuidado! Se você porta o vírus e vierem com esta conversa, que é melhor abandonar o tratamento, mande ao diabo que carregue. Todas as pessoas que eu conheci que entraram nesta morreram.

Por outro lado, se você não sabe se porta ou tem certeza que não porta HIV não se fie nesta conversa para arriscar uma transa sem camisinha. Pode ser fatal...

Não que você vá morrer na hora... Antes fosse; mas você entrará para o meu time e terá de passar por coisas desnecessárias em sua vida.

Cuide-se.

O HIV existe, é sexualmente transmissível, também se transmite pelo sangue e pelo uso compartilhado de agulhas e seringas quando do uso de drogas injetáveis.

Eu não faço apologia a drogas. Mas não vou ficar dndo conselhos do tipo não use drogas, até porque isso é coisa que cada um deve resolver por si. Mas, se for usar drogas, pelo menos tenha seu kit de uso pessoal e intransferível. O seguro morreu de velho.

Ah!... Dirão... “Você não se cuidou e agora fica fazendo pose!”

Pode até ser, mas é justamente por não ter me cuidado e estar do lado de cá que aviso que não é uma boa correr este risco, nem por amor, nem por tesão.

Sua vida vale mais que uma transa, pode apostar nisso.

Enfim, o dia trouxe novos amigos, uma delas particularmente bonita e considero-me quitado com o domingo.

São 23:05, estou cansado, acordei as 4 da matina.

Está na hora de um bom banho, um lanchinho esperto e uma soneca até as seis, sete da manha.

Vou tentar postar alguma coisa amnha, mas não sei se terei criatividade... Minha cabecinha anda meio oca... Bato nela e faz toc, toc.

Mas é dura. Não quebra fácil.

Fiquem ao som de Queen. All dead, all dead.



All the dreams we share... Of course I don’t believe… All dead, and gone…

Escrito por Ronin às 14:33:47
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Simples

Simples


Acordei antes do sol raiar. Depois dos procedimentos normais tomei meu desjejum, café e bolachas e vim para a frente desta máquina infernal. Abri a janela que dá para a casa da mulher que nunca para de lavar roupas (hoje os varais estão vazios) e para o pinheiro que serviu de palco para o colóquio amoroso e um casal de bem-te-vis.

Sei que esta minha janela gradeada aponta para o leste, pois o sol nasce lá. E não tardou muito para que viesse. Primeiro meio que a medrar por entre as nuvens, um ar frio me tocando o corpo, depois, soltando sua luz por detrás das nuvens cinzentas.

Bastou esta luz para despertar os pássaros. Há uma profusão deles por aqui. Alem dos que nos vêem bem há também canários, periquitos, alguns sabiás e outros que desconheço, posto que não sou ornitólogo; há também o ruído de outros pássaros, de metal, rumo a Cumbica. Eles passam baixo por aqui, estão em rota de pouso e fazem questão de passar sobre o meu teto.

Nada de excepcional. Uma tranqüila manha de domingo, alguns carros, a maioria das pessoas ainda dormindo. Afinal, agora são 6h50m. Vendo a hora chego a conclusão que não foi uma boa idéia retirar o neuleptil. Estou dormindo menos e me enfurecendo mais...

Deverei ligar para ela amanha.

O que digo desta manha?

Está visto que estou sem assunto.

Mas esta coisa de escrever gruda na pele, se agrega aos glóbulos vermelhos e parece uma praga que não nos abandona nunca..

Não quero falar sobre o passado, que pode até ser agradável, mas tem seu aspecto sombrio; sobre hoje... Ainda não aconteceu nada. Eu só acordei, vi o sol nascer (sempre lindo) e ouço alguns pássaros cantando (outro maldito avião).

Então vamos ficando assim, com um texto curto, sem muito conteúdo, mas recheado de coisas simples como o prazer do ar frio da manha, o café quente, o canto dos pássaros, o sol que nasce, alguns carros que circulam e uma preguiça enorme de fazer qualquer coisa que chega a ser avassaladora.

Talvez eu volte apara a convidativa cama; afinal, levantei-me muito cedo e tenho o direito civil de permanecer mais tempo nela.

Conclusão para este texto?

Nenhuma.

A vida pode ser tão simples...



Escrito por Ronin às 14:33:15
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Surto

Sábado , 07 de Fevereiro de 2004

Surto


Faz mais ou menos um mês, talvez um pouco mais.

Antes de começar a contar é preciso explicar que eu tenho, quase por diletantismo, um aparelho automático para medir pressão arterial. Pois bem, meu diletantismo acabou por tornar-se útil numa tarde de domingo.

De repente, eu comecei a passar mal. Primeiro uma tontura, depois um turvamento da visão, chamei minha esposa, disse que não me sentia bem.

Ela aviou-se e pegou o aparelho de pressão: 19 por 16. Alta e convergente.

Eu estava à morte.

Então, sem plano de saúde, ela me colocou no carro, eu mal podia andar e levou-me ao Hospital das Clínicas.

Eu reclinei o banco até o limite do possível conforto sem perder a visão das ruas e do céu.

E ela foi dirigindo e perguntando preocupada se estava melhorando e eu respondia maquinalmente que não, que me sentia cada vez pior.

Só não dizia a ela que sentia e acreditava que estava morrendo.

O que sei é que nestas horas não convém é anunciar inevitabilidades para não apressá-las...

Passamos por uma ponte qualquer e eu vi o Rio Tietê; tive uma pena imensa do rio, já morto pelos homens, e uma grande raiva dos esgotos clandestinos e permitidos que tornam uma fonte de vida em algo morto e mal-cheiroso. Minha pressão subiu ainda mais, procurei me acalmar.

Curioso nisso tudo é que eu não sentia medo. Mas tristeza.

Fiquei triste por estar partindo, segundo eu mesmo, “tão cedo”. Pensei nas coisas que gostaria de fazer e não fiz, nos sonhos acalentados e irrealizados e, confesso, rolou uma lágrima. A impressão de estar morrendo me aguçou todos os sentidos e eu posso afirmar que há periquitos em vida selvagem na capital. Eu os ouvi, assim como vi quão verde são algumas das poucas árvores que restam na megalópole de concreto, metal e vidros.

Ela perguntava como eu estava e eu não tinha a menor vontade de responder. Não faço o que não tenho vontade. O carro passou a ir mais rápido... Chegamos, enfim, ao HC. Lá chegando fui recebido por um robô que não se importa mais com a dor humana que mandou que eu esperasse.

Foi aí que me vi num palco de horrores. E tive a impressão que, em verdade, eu não estava morrendo. Aquelas pessoas, abandonadas em macas, sim, estavam muito mais próximas da morte que eu.

Minha esposa procurou uma enfermeira, explicou a gravidade do caso e ouviu que a moça “iria em breve”. Não veio.

Passei uma hora e meia lá, vendo chegarem todas as vítimas da catástrofe humana, cada vez mais entristecido e revoltado, sentado numa cadeira desconfortável mas, surpreendentemente, estava melhorando.

Saí de lá sem ser atendido. Se tivesse de morrer, já estaria morto.

Não há grande coisa no que escrevo, apenas a sensação angustiante da morte com o medo convertido em tristeza e a tristeza em desespero pelos outros.

Voltei para casa e mandei um mail para Sigrid. No dia seguinte estava lá ao meio dia e comecei com Inalapril. Até agora, parece-me, a coisa está controlada.

Mas eu aprendi como é sentir-se à morte.

Não dá medo. Deixa triste.


Escrito por Ronin às 14:32:31
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Muitas vezes eu me pergunto como seria um mundo sem amor



Eu, que amei tanto e tantas...



Não sei o que se diga.



Acho que seria como se não houvera Vida



Como se não houvera Esperança



Como Se não houvera Luz



Como se não houvera Tú, que me deixastes.



Escrito por Ronin às 14:32:00
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Acabou o medo

Depois de colocar All by myself como fundo musical do meu blog numa interpretação digna de uma diva (pena que eu não sei o nome) me veio um saudosismo ímpar...

É que eu vivi por mim mesmo, sem pensar em ninguém por muito tempo, numa atitude egoísta e covarde que encheu um vale de lágrimas.

Mas, com sinceridade, a despeito disso, elas fizeram parte de minha vida, mesmo que por uma tola noite, ou uma tarde de outono.

E se de cada uma eu tirei alguma coisa, às vezes até mesmo a sanidade mental, mesmo que temporariamente, certamente deixei algo:



A minha essência.



Por menos que me importasse com a pessoa em si, por menos que a amasse (havia aquelas que eram puro tesão), eu sempre procurava dar o meu melhor, a te porque gostaria, e ainda gosto, de ser lembrado como um acontecimento único na vida delas, as minhas parceiras de cama, as minhas (por que não dizer?) vítimas.



E hoje, olhando para trás, sem vitimismos ou arrependimentos tardios, eu sinto uma ponta de alegria por tudo o que vive e por tudo o que fiz, malgrado tenha havido muito engano, muita lágrima, algumas derramadas por mim e, no fim das contas, alguma tragédia (a vida, para ser bem vivida, precisa de um clima trágico de vez em quando).

Os beijos que dei. Os abraços que eu recebi fazem parte deste patrimônio que eu chamo e minhas memórias, de minha vida, vivida à minha maneira.

Certamente há os beijos e abraços que ainda darei e receberei. Terão, então, outro sabor. É que hoje estou, digamos, mais maduro, e procuro valorizar a presença de quem quer que seja, como se não houvesse amanha.

Em síntese, eu continuo o mesmo, só que mais sofisticado.

Continuo vivendo para mim.

Só que com uma diferença:

Eu me dou mais. E, se é certo que tive tal desilusão que nunca mais voltarei a amar (você me lê, slope, e você sabe que deu curso a isso), também é certo que poderei me entregar com uma força inigualável, pois não tenho mais medo.

Nem de prender. Nem de ser preso.

Nem de perder, nem de ser perdido.

Acabou o medo



Escrito por Ronin às 14:31:31
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All by myself

A musica de fundo de fundo tem tudo haver comigo (se é que vcs a ouvem):



When I was Young/ I never needed anyone/ and make love just for fun/ those days are gone



Quando eu era jovem/ Eu nao precisava de ninguém/ e fazia amor só por diversão/ Estes se foram



E a letra segue em direção a uma solidão definitiva e consumada, all by myself, tooda por mim mesmo.

Se algum dia eu tiver um cerimonial como velório, esta musica deverá ser tocada enquanto meu esquife desce à minha tumba, seja ela onde for.

Vivi assim, fazendo amor por mera diversão, por mero prazer e, na maior parte das vezes, sequer lembro o rosto de quem esteve comigo.

Minha indiferença para com as pessoas ia às raias da crueldade.

E, se é verdade que amei algumas, feri tantas que nem vale a pena mencionar.

Por isso, hoje, acho justo que exatamente aquelas que eu mais desejei que ficassem, pelas quais destruí meus portos e queimei meus navios tenham partido.

O dia hoje será melancólico



Escrito por Ronin às 14:30:54
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Chuvas



Ontem fui dormir às 21h00. Isso é um evento. A bem da verdade eu andava um bocado cansado e com o sono atrasado. Relatam-me que choveu, relampeou e trovejou. Mas não vi nada. Ainda que movessem o prédio para outro bairro eu não perceberia.

Certamente, ao acordar, estranharia a paisagem nova e julgaria estar vivendo um episódio de além da imaginação. E voltaria a dormir no afã de acordar e encontrar meu prédio de volta ao seu lugar de origem. Este seria um sono inquieto, pois haveria uma expectativa.

Por falar em expectativas, há uma que diz que nunca vai me amar. Sei não...

Dizem que... Bom, dizem... O que sei é que não vou perder o sono por isso.

Começou uma nova chuva por aqui, e esta eu ouço tamborilando em alguma coisa lá em baixo. Gosto da chuva e do cheiro fresco que ela traz em seu bojo.

Quando era mais jovem costumava tirar folgas em noites de chuva ou garoa. Pegava a minha Gabi e saíamos para passear pelo centro, com a chuva nos encharcando. Duas jaquetas e couro eram nossa única proteção. Parávamos numa antiga loja de conveniências na Rua 7 de Abril, tomávamos um café ou chocolate, batíamos um papo e descíamos para a Ladeira da Memória onde fazíamos amor em praça pública, sob a chuva. Éramos dois loucos, e aos loucos tudo se perdoa...

Depois, molhados e saciados, voltávamos para casa, tomávamos banho, juntos, nos deitávamos e assistíamos qualquer coisa na TV, até que o sono viesse e dormíssemos, apaziguados.

Foi um tempo bom, este em que tudo era festa.

Hoje, me resta o lembrar...

Escrito por Ronin às 14:29:56
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O pinheiro

Acordei agorinha há pouco e, depois de quase um ano morando aqui, descobri que há um pinheiro de quase 8 andares de altura... Isso deve dar ao leitor a dimensão exata sobre o quanto sou atento ao mundo que me rodeia e quanta credibilidade mereço receber.

É um pinheiro jovem, e deverá crescer muito mais. Mas já esta grandinho o bastante para servir de pouso e repouso para algumas aves.

E as que estão ali, agora, são duas. Um casal de bem-te-vis.

Afirmo que é um casal, pois dois machos desta espécie não são capazes de compartilhar o mesmo céu, que dirá a mesma árvore...

Quedei-me momentaneamente no oficio de ornitólogo e percebi que o que se passava diante de mim era um namoro. Ele estufava o peito e ela olhava com indiferença (não sei porque, mas isso me lembrou homens e mulheres); e voavam de um galho para o outro, sempre se aproximando mais. E ele sempre estufando o bico e soltando pios bem diferentes do já famoso “bem-te-vi”!

De repente, despencou uma chuva e eu pensei: Lá se vai mais um namoro por causa de uma intempérie; qual o que! Permaneceram lá, firmemente magnetizados um ao outro es sua dança que para mim não significava nada, mas para eles, muito.

O que sei é que acabaram se entendendo e mergulharam para um local mais protegido da arvore e, a esta altura, há a possibilidade de um ninho e dois ovos minúsculos que darão origem a duas criaturinhas ínfimas, que dependerão da mãe por muito tempo.

Tomara que cresçam e superem a fase mais dificuldade suas vidas, que é esta, em que não podem voar.

Depois, tudo ficará mais fácil.

Se serão um casal ou dois machos ou duas fêmeas, eu ainda não quero apostar.

Mas são duas novas vidas.

É o Eterno Milagre se repetindo

Escrito por Ronin às 14:29:29
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Outra vez para Lacal

Lacal que vai invadindo meu blog por tabela escreveu algumas coisas em seu blog, pensamentos, que está linkado ali no meu clube e contou que leu a já famosa estória do homem que ia andando pela praia jogando de volta ao mar estrelas-do-mar que não tinham conseguido voltar com a maré... Ocorre que na história este homem é interpelado por outro que recebe a explicação e raciocina que diante de milhares de quilômetros de praias e milhões de estrelas-do-mar o esforço de dele em resgatar algumas é nulo. Mas o homem diz: Para esta aqui, faz muita diferença sim.

Minha amiga diz assim: “Não sei bem o que pensar sobre esse assunto, essa questão é muito contraditória para mim; hoje procuro fechar os olhos para algumas coisas que vejo por aí, mas não adianta muito, pois sei que elas existem, e talvez seja por isso que penso que o mundo todo está errado”.

Sou obrigado a dizer que as coisas são exatamente assim.

É o esforço de cada um que há de, um dia, modificar o mundo.

Alguns de nós são mais conscientes e se esforçam de maneira plena. Outros, fazem o que podem e isso já é muito.

Todavia há os que não fazem nada e isso é deplorável.

Não acredito que alguém que esteja cursando fonoaudiologia esteja indiferente para o mundo.

Não é uma profissão que lhe dará projeção social. Tampouco material. Se tiver sorte, terá um emprego publico e um consultório e ficará na casa dos 4000 reais por mês, com muito otimismo.

Mas estará ajudando pessoas que tem a dificuldade de comunicação. Quer seja a de nascença, quer seja a adquirida.

E isso já é muito.

Li, num dos livros do Chico Xavier, nu texto do Emmanuel, a seguinte assertiva:

O problema da melhoria do mundo é problema do mundo. Mas o problema da melhoria de cada um é problema de cada um.

Convém raciocinar

Escrito por Ronin às 14:29:07
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Estou melhorando.

Afinal, já passei pelo labirinto da depressão tantas vezes que aprendi alguns atalhos para sair dele. Não que sejam simples. Mas são eficientes. Um deles é dar de ombros para o que te aflige, mandar tudo às favas e seguir adiante.

Outro é dizer a pessoa certa a coisa certa na hora certa. Isso te dá a tranqüilidade de ter feito o movimento certo num jogo incerto, de resultados imprevisíveis. É como se você apostasse no 13 preto e mandasse rodar a roleta.

Depois solta a bolinha e fica esperando para ver onde ela cai.

Nem sempre se vence este jogo, é verdade; mas o importante é você saber que rodou a roleta...

Uma destas coisas eu fiz hoje. Talvez tenha feito as três, não sei...

Nem sempre sou lúcido quando faço as coisas e, em última análise, sou praticamente inimputável.

Descobri, hoje, que ontem foi aniversário da minha infectologista, Sigrid.

Nome diferente, dirão, e dirão com razão. Ms a médica também é diferente e nada mais justo que um nome diferente para um ser humano diferenciado. Sempre sorridente, a seriedade em pessoa diante de qualquer verruguinha suspeita... Uma leve oscilação na pressão e ela exige sua presença no hospital em duas horas para “ver de perto” o que é que está acontecendo.

Atende por e-mail, por telefone, atende fora de expediente, atende e simplesmente atende. Por isso a amo. Não aquele amor confuso que quer possuir a todo preço (já passei desta fase), mas aquele amor que ama em silêncio, com admiração, gratidão e ternura.

Não sei quantos anos ela fez. Mas a jovialidade é de uma adolescente.

Isso anima até um carrancudo e sisudo paciente como eu.

É uma grane média e não posso deixar de Homenageá-la aqui.



Sigrid de Sousa Santos.



Uma pena que este Sousa seja com “esse”... Já disse a ela que os Souzas originais e que se prezam são como eu. Usam um “Z” digno e sestroso no lugar daquele “s”. Naturalmente isso a irritou e ela fez bico.

Fará de novo hoje, quando ler este Post. Talvez deixe um desaforo nos comments. Mas vai ser engraçado, pois sei que lá no íntimo ela estará rindo, com a adolescente que sempre será.

Enfim, estou melhor da depressão. Valéria devolveu meu comprimido de rohypnoul e deverei dormir bem esta noite.

Amanha estarei inteiro.

Pronto pra outra.



Escrito por Ronin às 14:28:46
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Sobre mim e a depressão

Ante de mais nada é preciso informar que eu sofro de uma doença grave chamada Transtorno Afetivo Bi Polar. Antigamente isso era chamado de comportamento maníaco depressivo. A OMS considerou o termo pejorativo e mudou para o já citado. É um mecanismo complexo o deste transtorno que tem origens químicas, sociais e de formação de personalidade. Eu não cultuo a depressão. A depressão se apossa de mim em momentos em que há um déficit químico de substancias importantes para o funcionamento do cérebro nos termos do que costumamos chamar de “normalidade”.

No caso do TBP o lado trágico é que este se associa a alterações de humos que oscilam entre a euforia (quando eu sou o dono do mundo e faço qualquer coisa, inclusive comprar o que jamais usarei ou poderei pagar), com estados de profunda depressão onde a melhor saída aparente é a morte.

A depressão gera dor física, dificuldade motora e não são palavras de exortação ao bom ânimo que podem resolver este problema. Algumas vezes, até agrava, pois nos sentimos fracos diante de tanta capacidade de reação...

Não me agrada estar deprimido. E eu procuro me afastar do mundo quando me sinto assim.

Sou prejudicial ao planeta e seus habitantes quando me sinto deprimido e procuro uma só causa e não encontro.

É uma questão de saúde mental. E não uma questão de fé.

Digo isso para que entendam que quando estou assim não tenho animo, vontade, coragem ou qualquer coisa parecida e nada me move em direção alguma. A depressão, para m,im, é pior que a infecção por HIV. Isso porque a infecção por HIV eu controlo. A depressão, não.

O que me alenta é que passa e, depois de tantos anos lutando contra isso aprendi que o melhor a fazer é procurar não pensar em, nada e agüentar a puxada da maré até que ela vaze, sem me levar e me afogar.

Isso eu aprendi em dois anos de acompanhamento psiquiátrico e psicoterápico.

Não sei se amanha acordarei bem. Mas sei que, se deus permitir, acordarei e, mais dia ou menos dia, isso vai passar.

Tenham só um pouco de paciência comigo.

Acho que não é pedir muito.

Obrigado.



Claudius



Escrito por Ronin às 19:54:18
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Estilingue

Morreu.



Eu diria: Finalmente morreu.



E todos ficariam perplexos diante de tal assertiva.



Mas o fato é que ele morreu e, para ele, a morte foi um descanso.





A história de Estilingue é das mais conturbadas, Quando o conheci, já era um mendigo que circulava pela boca do luxo, onde passei uns doze anos.

Malandro velho, mas imundo, era, digamos, amigo de quase todo mundo. Sempre andava com um pedaço de pau, à guisa de porrete, para espancar quem quer que o incomodasse.



Mas a grande curiosidade na vida do estilingue é a maneira como ele chegou à mendicância.



Consta, segundo me contaram os mais antigos, que Estilingue era um cafetão. E que tinha sob seu controle muitas mulheres. E que ele tratava a todas com igualdade, dando-se, a cada uma, uma vez por dia.



As mesmas crônicas informam que, certa feita, uma delas quis mais, quis, talvez por ser muito bonita e rentável, a estrela, exigindo mais para si que para as outras.



O Resultado disso foi uma imensa surra e ela jogada na rua com a roupa do corpo.



Na noite, contrariar uma mulher pode ser imensamente perigoso. Aliás, contrariar uma mulher é sempre muito perigoso em qualquer lugar.



E neste caso, a regra não deixou de se cumprir. As crônicas narram que ela viajou para o Rio de Janeiro, faturou como uma condenada, juntou muito dinheiro e voltou a São Paulo, apenas para se vingar. Contratou alguns capangas de aluguel que o seqüestraram e o espancaram por dias e dias, transformando-o num farrapo humano.

Ato contínuo ele perdeu todas as mulheres e toda a sua fonte de renda.



Da noite para o dia, o homem de camisas de seda e sapatos brancos caiu na mais completa miséria... É a vida... (eu, que já vi gente perder tudo em uma única noite de carteado, sei como estas coisas são).



E nunca mais se recuperou.



Quando eu cheguei à Noite, em 1982, ele estava assim há dez anos ou mais, e só agora, 21 anos depois, ele faleceu, vítima de uma doença qualquer, num hospital qualquer.



Nem sei como a notícia chegou até nós. Curiosamente eu me lembro dele com um certo apego, apesar de ele ser um baita porra louca que fez coisas horríveis que eu não vou contar porque não quero perturbar o descanso de sua alma...



Mas ele era, em síntese, um cara legal, imundo, que suportava a própria desgraça com a dignidade que podia.



Tinha o pessoal de um restaurante que lhe dava o almoço e a janta, a Santa Casa que cuidava de seus machucados, um canto na General Jardim onde ele era o Senhor dos Anéis (e ai de quem ousasse invadir esta área) e o respeito de todos, mesmo daqueles que sabiam de sua história meio infame e sua profissão deplorável.



Era raro alguém passar por ele e não dizer: ¿E ai estilingue?¿ E ele respondia com um sinal de positivo e vinha a inapelável pergunta: ¿tem um cigarro ai?¿



Todos nós tínhamos. E se não tínhamos, comprávamos e deixávamos lá com ele, pois já sofria demais para ainda passar sufoco com cigarro.



E finalmente morreu. Suponho que tinha 60 anos, pouco mais, pouco menos.



E confesso que não estou triste. Ele precisava, desde há muito, de um bom descanso.



Que Deus lhe perdoe os pecados e enganos.



E que a terra lhe seja leve


Escrito por Ronin às 19:53:43
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Propósito

Domingo , 01 de Fevereiro de 2004



O Agente Smith, da Trilogia Matrix veio a confirmar o que eu comecei a suspeitar quando descobri ser portador de HIV:

“Tudo tem um propósito”.

Ou, como os personagens da trilogia dizem, “estamos aqui porque tínhamos de estar aqui”.

A descoberta disso se deu em Janeiro de 1997, quando um amigo comunicou (pois eu não teria coragem) a minha última ex-namorada antes do resultado soropositivo sobre a minha sorologia. Depois do pânico inicial e natural que ela sentiu veio a razão e ela fez um exame. Já havia passado o tempo da janela imunológica, noventa dias, e o resultado era certeiro.

Deu negativo.

Senti duas coisas diferentes. Uma delas difícil de ser confessada.





1. Um grande alívio por saber que a pessoa que eu ainda amava (pensava que amava) estava livre do infortúnio e da morte certa que eu acreditada ser a infecção por HIV (cheguei ao ponto de me julgar o assassino dela).

2. Uma imensa tristeza porque senti que, a partir daquele ponto, abria-se um abismo de proporções incomensuráveis entre mim e ela.



Reconheço que o segundo pensamento é repugnante. Era como se eu, no meu egoísmo, para tê-la comigo, preferisse vê-la contaminada. Simone, perdoe, por favor, este pensamento, se acaso me lês... Era um coração dividido este que raciocinava em conjunto com um cérebro embotado pelo pânico de se crer à morte.

Mas, entretanto, havia uma terceira e dolorosa conclusão:



3. A coisa em si era comigo. Era eu quem tinha que sofrer a infecção por HIV e seu processo longo e penoso de desagregação orgânica e exclusão social.



Tomei consciência disso quase que imediatamente. O HIV, em minha vida, tinha um propósito. Só me restava descobrir qual era. Mas, antes, eu precisava encontrar um meio de sobreviver a ele.

Não vou narra os meses em casas de apoio, o tempo que preferi ficar nas ruas por não suportar as casas de apoio, nem o abandono de alguns amigos... Não tenho a pretensão, já afirmei, de ser vítima ou herói. Confesso que durante um tempo senti vergonha e culpa por ter contraído o HIV. E este tempo foi o tempo que levei para criar coragem e contar aos poucos amigos que ainda tenho daqueles tempos e que, ao saberem, lançaram mão de todos os recursos para auxiliar


Uma vez dito isso é preciso que eu narre os vaticínios que se deram desde então, e até hoje, sobre o porque, segundo meu entendimento, contraí HIV.



· Eu era irresponsável comigo mesmo.



Eu não me preocupava com o HIV e nem com outras DST’s. Assim, além de me tornar vítima em potencial destas doenças, era candidato a vetor de qualquer uma delas. Isso leva a outro ponto



· Eu era irresponsável com o mundo.



Desta forma eu era uma ameaça à sociedade como um todo, podendo levar dor e dissolução não só a todos por quem eu passasse mas, também, a outros que, eventualmente, tivessem algum contato com as pessoas que tiveram contato comigo. Isso, analisado friamente tem desdobramentos avassaladores e o nível de responsabilidade só aumenta, com implicações cada vez mais graves para mim, como um todo, no que entendo como processo evolutivo.



Havia, para os Gestores do Mundo, duas alternativas:



A. Terminar com meu mandato na Terra através da meningite que me assolou em 1996.

B. Dar-me a oportunidade de tentar uma reforma intima; mesmo que para isso fosse preciso um grande impacto e um vale de lágrimas.



Felizmente, para mim, ficaram com a opção B, menos aceitável, dados os desmandos por mim cometidos e que só me foi concedido, acredito, por haver alguém ou alguma coisa intercedendo por mim.

Não foi um tempo fácil, como não tem sido até hoje, este tempo de viver com HIV. Há dificuldades inúmeras, a grande maioria no campo social, e eu levo a vida como uma caravela, ao sabor dos ventos e das correntes...

Mas, honestamente, eu confesso que em meio a tanta dor e sofrimento, aprendi a viver de maneira mais responsável e digna, malgrado alguns erros deploráveis que cometi pelo caminho e que ainda tenho de remediar. Pelo menos, agora, eu olho para trás e procuro ver e remediar o que destruí.

Antes, nem isso.

Acho que este é o propósito do HIV em minha vida:



“Promover crescimento.”


Escrito por Ronin às 19:53:17
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Esta é velha

Lembrei-me agora, não sei ao certo o porque. O que me passou pela cabeça foi

uma musica que não tenho, mas que rodou por acidente em meu acervo mental.

Diz assim: ¿Ando devagar por que já tive pressa...¿ E é só isso que eu lembro da musica e isso da a exata noção do que é o meu acervo mental.



Mas não faz mal, o que importa é o que eu vou contar agora (se é que algo que eu diga tem alguma importância). Foi pelos idos de 1997, poucos meses depois de eu ter sabido que portava HIV.



Transitava eu pela Avenida São João, pouco mais de vinte e uma horas. Havia

alguma pressa em mim, já que estava abrigado em uma casa de apoio e havia

normas (o eterno trocadilho, um dia ainda hei de encontrar uma Norma que me

faça feliz e que não me exija nenhum respeito, senão o de poder ama - la...)

a serem respeitadas. Ia no meu melhor passo, a todo o vapor...



Era um domingo, disso me lembro bem, pois era o único dia em que havia um

arremedo de liberdade que consentia que saíssemos para ¿alguma diversão¿.



A avenida São João não permite carros em um certo trecho, que virou calçadão, continuidade do Boulevard que é obra e graça do extinto senhor Jânio da Silva Quadros, que Deus o tenha em local apropriado...



Ora, a conjunção de um domingo noturno numa rua sem carros é um relativo silencio. Dentro deste silencio vinha eu, ensimesmado, refletindo sobre a vida e a morte; mais sobre a morte, que se me apresentava próxima (grande canastrã, por que mentiu tanto para mim?!), quando ouvi passos rápidos atrás de mim: toc, toc, toc, toc. O velho instinto mandou que eu olhasse para trás, para me certificar que tal empenho em se deslocar rapidamente não tinha nenhuma relação comigo.



O que vi foi a figura de um homem, magro, talvez uns cinqüenta quilos, singrando o calçadão como nau desgovernada. Passou por mim como um raio e meu instinto de combate mandou que eu tentasse acompanha ¿ lo. Foi uma tentativa boba, sem empenho, e sem nenhuma razão de ser... Rapidamente desisti e rapidamente a figura afastou ¿ se e sumiu, virando à esquerda, na rua Líbero Badaró (me surpreende o Word®, neste momento, pois conhece Líbero e Badaró - muito culto este Word®!).



Deixado para trás desanimei ¿ me por completo e vaticinei: Estou no fim, já não acompanho um homem em uma caminhada, esta coisa (o vírus) está me corroendo, comendo e esgotando as minhas forças... Não acompanho um homem!!! (o Word® informa que não é bonito colocar três pontos de exclamação. Por desaforo vão mais quatro [!!!!])



Continuei minha caminhada rumo ao Parque Dom Pedro, antigo refúgio de

amantes ilustres (ah! Marquesa, suas histórias ainda ecoam nas ruas de São

Paulo...) que se transformou em terminal urbano de ônibus, pela avenida São

João, subi pela rua Boa Vista, que teve, outrora, uma boa vista, mas que precisa urgentemente de óculos e desci pela ladeira General Carneiro saindo,

finalmente, no Parque Dom Pedro.



Durante o caminho não pensei em mais nada, tal a tristeza que se apossou de mim...



Consultei o relógio e vi que havia tempo para um café, que tomei com muito prazer, seguido pelo habitual cigarro.



Depois disso me encaminhei para a plataforma no terminal e me dispus a esperar, pois ainda faltavam dez ou quinze minutos para que o articulado chegasse.



Havia um outro ônibus parado ali; mas permaneceu parado por apenas alguns segundos; ligou ¿ se o motor, as portas se fecharam e o ônibus saiu.



Isso tudo durou segundos e neste espaço de tempo me surpreendeu um ruído:

Toc, toc, toc, toc, toc, toc e vários tocs descompassados e desanimados com a perda do transporte.



Não vou negar que tive imensa vontade de rir; também não vou negar que ri; ri a bandeiras despregadas, tudo se tornou muito divertido.



O meu ilustre corredor, em sua pressa, avaliou mal o caminho, dispendeu força exagerada e desnecessariamente para perder o ônibus por menos de dez segundos (notem, eu tomei um café, com muito prazer e ainda aproveitei um cigarro)...



Naquele dia conclui que não importa muito a pressa em se fazer coisas, mas o jeito com que se faz as coisas.



Não adianta muito ter pernas rápidas e passos lépidos, se não há alguma ¿coisa¿ no comando...



Entre correr sem pensar e caminhar metodicamente, parece me mais adequada a segunda opção...



Uma noite fria de domingo...



Uma madrugada quente de quinta feira, e uma insônia terrível me fazem colocar isso aqui.



16/08/01 05:19


Escrito por Ronin às 19:52:34
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Meu primeiro vôo parte 1

A história do meu primeiro vôo



O primeiro sutien ninguém esquece.







Assim informa um certo fabricante desta peça íntima. Eu não posso dizer se isso é ou não verdade, posto que nunca usei um destes. Tenho um primo que usou sim, seu primeiro sutien aos oito anos e nunca mais esqueceu. Foi flagrado pela mãe que lhe deu uma boa sova e tornou tal evento inesquecível. Mas isso é só um pretexto para que eu possa aduzir uma outra expressão: o primeiro vôo ninguém esquece.







Foi um vôo curto, 40 minutos. Ponte aérea, São Paulo/Rio de Janeiro.



Mas é bastante pertinente eu informar que meu vôo de 40 minutos começou 20 dias antes do embarque, quando fui notificado que faria o tal vôo. Tentei argumentar alguma coisa, ir de ônibus ou a pé, mas as normas eram claras, eu tinha de ir de avião. Na medida em que nunca namorei uma norma e haviam Normas, aventei a possibilidade de namorar uma delas...



A expectativa foi terrível. Procurei me aconselhar com pessoas mais versadas na arte de voar e muitas me afirmaram que não havia nenhum perigo; o momento critico é a decolagem; e a aterrissagem. No mais, nenhum perigo. Isso me levou a ter a idéia de apanhar o avião em pleno vôo e abandona-lo antes da aterissagem. Fui informado que tal procedimento é terminantemente proibido pelo Departamento de Aviação Civil.


O DAC pode ter seus motivos e, sinceramente, não quero saber quais são. O que posso afirmar é que lancei impropérios contra o DAC, mas este não os ouviu e nem se importou.



Assim, fui obrigado a embarcar em congonhas. Parti da casa de um casal de amigos; a minha querida amiga soube me aconselhar. Ela disse:



-"Cláudio, procure pensar em coisas agradáveis, como Glenn Miller, Ealr Grant, Mamonas Assassinas etc"... É uma grande amiga e excelente conselheira.



Assim cheguei a Congonhas, com a disposição de quem caminha para o cadafalso.



Meu vôo partiria as 15:45. Chequei as 13:50. Meu plano era observar bem o que se passava por ali e encontrar um pretexto qualquer para ir de bicicleta ou skate, meios de transporte que caminham pelo chão, o amado e esburacado chão. Mas a moça do check in, percebendo minha intenção argumentou com um sorriso de comissária que havia vaga no próximo vôo e a companhia se sentiria honrada se eu seguisse imediatamente. Não pude resistir ao sorriso desta moça e nem mesmo ao medo de insultar a empresa.



Embarquei as 14:20 e o avião ficou lá, paradinho, por dez minutos.



Instruções...



...se houver despressurização....



...lembre se que o assento é flutuante....


...a tripulação esta preparada para qualquer emergência...



Fiquei pensando em quantas emergências poderiam existir em um vôo. Depois de ter encontrado dez mil maneiras diferentes de morrer conclui que estavam mentindo, o avião começou a taxiar (aqui preciso fazer um comentário, taxiar cabe muito bem a um táxi, não a um avião), lentamente, muito devagar...



...uma eternidade depois ele fez uma curva a esquerda e a voz soou:



"Atenção tripulação, preparar para decolagem".



Era chegada a hora, já não havia mais o que fazer; talvez... sim, passou pela minha cabeça a idéia de um ataque de histeria com gritos, lágrimas, súplicas... Mas a minha dignidade mandou que eu ficasse em silencio.



O avião anda mais um pouco, metros... de repente ele acelera. Quando digo acelera quero dizer acelera ... meu corpo foi pressionado contra o encosto, eu olhava pela janela e via as coisas passando rápido, mas não me parecia rápido o bastante. Eu olhava pela janela e via a asa do avião. De repente ficou para traz o chão. Para traz e para baixo, muito rapidamente eu vi pessoas encolhendo, carros encolhendo, prédios encolhendo e, subitamente, reduziu ¿ se o ruído dos motores.



Eu não sabia, não tinha sido informado que a decolagem se daria em três etapas (esta lacuna nas instruções quase pôs fim a minha vida, pois meu coração veio à minha garganta; engoli-o a seco.



A visão dos prédios, muito próximos, fazia de tudo aquilo um inferno. Outro impulso. Mais forte, mais alto, os prédios eram, agora, minúsculas caixinhas cujo conteúdo devia ser gente, a saudosa gente da metrópole que mantinha seus pés sabiamente apoiados no solo... Outra vez o avião se demorou, um ruído menor, tudo me dizia que aquela maquina infernal tinha problemas e que estes problemas decretariam o meu fim; mas ele tomou novo impulso e galgou os céus de maneira imponente...

Inútil dizer que eu olhava pela janela procurando reconhecer alguma coisa, talvez aquela rua onde eu e X fizemos coisas malucas de madrugada e por muito pouco não fomos flagrados pela policia; talvez o Pacaembu, qualquer coisa!!! Mas não reconhecia nada...



Rapidamente a cidade ficou para traz, a terra ficou para traz, o oceano era visível...



Tudo estava tão alto que eu amaldiçoei a hora em que aceitei voar; jurei por todos os santos e todas as santas que voltaria de ônibus. Ao diabo com as normas, até porque eu não vi nenhuma Norma. Se ela estava lá não se dignou a aparecer.

Escrito por Ronin às 19:51:39
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Meu primeiro vôo parte 2

*****************************
Não sei porque, relaxei. Acho que a beleza da paisagem foi ocupando o lugar do medo; vales, montanhas, tudo visto de cima. Ai tive uma grande desilusão. Não havia uma cidade sobre as nuvens.



Quando eu era criança, perguntava a minha avó o que ficava em cima das nuvens; ela me contava que tinha uma cidade imensa, feita todinha de algodão doce... Isso me fazia planejar um assalto a esta cidade. Foi isso que me levou a subir em arvores, casas, escadas e tudo o que pudesse me aproximar um pouquinho das nuvens... Não foram poucas as vezes que caí. E descobri, naquele momento, que minha avó estava enganada. Cresci, mas nunca abandonei a tese de minha avó, minha querida Palmira, havia em mim a esperança de uma cidade de algodão doce bem acima de minha cabeça e este vinha sendo a razão de toda a minha existência: estabelecer um plano que me fizesse chegar a tal cidade, que eu devoraria implacavelmente...


Com estes raciocínios e a necessidade de justificar minha avó, que não tinha mentido, apenas se equivocara, passei o resto da viagem.



Agora eu via o mar, a plataforma continental que acabava rapidamente, mergulhando num abismo de proporções desconhecidas. O mar era azul turquesa, com manchas marrons e de vez em quando aparecia mais uma nuvem mentirosa (cheguei até mesmo a pensar que algum outro menino tivesse chegado lá antes de mim), que atrapalhava a visão mas desaparecia rapidamente. Notei que estávamos descendo.



Medo. Lá na minha frente, ou pouco à direita, a Ponte Rio ¿ Niterói; perto dela, uma quadra de tênis que descobri, mas tarde, ser o Santos Dummont...



Passamos por sobre a ponte e fizemos uma imensa curva a direita e o comandante disse, solene:



¿Atenção tripulação, preparar para aterissagem.¿



O mar sob nós se aproximava rapidamente, muito rápido, e não havia noticias sobre terra.



Será um hidro-avião?



Não me lembro de ter visto bóias... os assentos flutuam... mas isso não me parece uma boa alternativa.



Lembrei me que já disse muitas vezes que gostaria de morrer vendo o mar.

Estava vendo o mar. Ele era azul escuro agora, porque estava próximo, muito próximo e cada vez mais próximo, nenhuma noticia da terra, apenas mar, muito mar, molhado, azul, imenso, volátil e próximo...



Morrer vendo o mar... bastante poético; e não sou poeta. Aliás, não sou nada. Meu desejo se realizaria em bem pouco tempo e isso não me agradava... Estava triste. Porque a terra não aparecia?



O mar agora poderia ser pego com uma caneca. Pesei em pedir uma cabeça à comissária para tomar um gole desta água que me engoliria em minutos, uma espécie de vingança; achei que não daria tempo.



Não daria mesmo.



Rapidamente, quase invisível, uma faixa marrom. Terra!!!!!!!!!!!!, Listas quadriculadas, talvez amarelo, em seguida, asfalto. Pista!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



Um toque suave no solo. Freio acionados, os flaps se erguem, a velocidade é alucinante, o freio é acionado intensamente. As rodas gemeram sob o peso da aeronave, que balançou e vibrou em cada molécula. A velocidade caiu drasticamente.



Estava tudo tranqüilo. Eu estava de volta ao solo.



O comandante disse alguma coisa, não sei o que foi...



Creio que não poderei esquecer este dia.



Nem quero esquece ¿ lo...



A vida é mesmo composta de emoções e se eu esquecer as emoções esqueço a vida; esquecendo a vida, estarei morto. E quero muito viver....



Escrito por Ronin às 19:51:24
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Martins

Agora a pouco, enquanto tomava banho (eu tomo banho, importa informar) me lembrei dos meus tempos de boemia, nos idos de 80 a 95, com particular carinho pela década de 80 e me lembrei de como a vida era boa naqueles tempos e o quanto eu fui, apesar de inconseqüente, feliz.

Ganhávamos bem, o fantasma da AIDS mal começara a rondar, as casas funcionavam lotadas de domingo a domingo e vivíamos (eu, meus amigos e minhas namoradas de então) com grande alegria.

É fato que eu vi a figura patética de Veranick, aos 54 anos, fazendo shows de strip-tease e isso me entristecia. mas era, este fato, uma advertência que a Noite nos dava: O tempo passa e quando menos esperardes, estareis velhos e já não mais me servireis.

Mas é fato que vi a beleza exuberante de Ana Paula, Gabi, Márcinha, Daniela Monroe, Flávia... Um capítulo à parte...

Naqueles tempos, terminávamos nossa jornada de trabalho as cinco da manhã e corríamos ao La Farina, que ainda está lá na Rua Aurora e faziamos nossa ceia; duas meses reuvidas e 16 pessoas comendo, rindo e conversando sobre tudo que rolara na noite. Fazíamos alguma política também. Às vezes era necessário derrubar um garçon antes que ele nos derrubasse. E para isso, muitas vezes, era necessária muita astúcia e, porq ue não dizê-lo, a mulher certa, dando o bote certo, na hora certa. Coisas... A Noite é, segundo Machado de Assis, Mãe Caritativa que Vela por Todos... Acho que Machado não conheceu a noite. A noite era, sim, muito cruel e se você não se cuidasse, podia cair em desgraça em 5 minutos...

Foi mais ou menos assim com o Martins, que já faleceu, mas que teria a minha idade se fosse vivo.

Martins era uma garçom jovem, bem apessoado, bonito de verdade. As meninas suspiravam à passagem dele. A coisa era tão séria que quando eu percebia que o alvo de alguma conquista minha era visado por ele eu desistia automaticamente. Sei perder com honra.

E de conquista em conquista Martins conheceu alguém a quem chamarei Isabel. Isabel estava bem na vida. Viera para noite para resolver sua vida e o fez com muita precisão. Já não precisava da Noite. Passeava pela noite. Conseguiu, deus sabe como, 4 aprtamentos e uma pequena frota com cinco taxis. Vivia, e ainda vive, muito bem a Isabel. Mas apaixonou-se por Martins.

E isso foi uma tragédia. Para ele.

Mulher forte e decidida, resolveu que ia dar ao Martins aquilo que costumamos chamar de boa vida. Martins não precisava mais trabalhar. Tinha dinheiro, conta em banco, um carro e uma das mais belas mulheres que eu já vi. Infelizmente não havia muito o que fazer com seu tempo e Martins começou a beber e jogar. Nenhuma destas duas coisas é aconselhável. As duas juntas então... Meu Deus.

Martins se tornou rapidamente um perdedor e um alcoólatra inveterado.

Quando Isabel perdeu o primeiro carro por conta de dívidas de jogo, ainda deu a ele uma segunda chance. Quando ela perdeu o segundo, tratou de salvar-se e mandou o Martins às favas...

Mas até ai o mal já estava feito. Acostumara-se à vida fácil, dinheiro ao largo, bebida e jogo à rodo.

Foi um longo processo de degradação. Havia, na Major sertório, num lugar que foi tantas coisas, um grande salão de bilhar de propriedade do Mané Fodinha (o apelido dispensa apresentações), que tinha lá os seus seguranças, que tinham lá seus momentos de mau humor...

Martins tinha perdido todo o sentido de dignidade e, muitas vezes, implorava por um trago de bebida.

Eu vi lhe darem álcool puro, álcool zulu; e vi-o bebê-lo como quem bebe água...

Mas as pessoas tem o mal-hábito de se preocuparem muito consigo mesmas e não olharem para seus semelhantes em desgraça e, certo dia, no auge da degradação, o Mané Fodinha deu uma surra de cinta no Martins, em pleno bilhar, à frente de todos. Jogadores, mulheres, policiais... Todos presenciaram aquela cena. Inclusive eu que, estupefato, vi o Martins pedir, depois da surra, um trago de cachaça.

Houve então um grande movimento de solidariedade que começou não sei com quem mas rendeu o suficiente para interná-lo numa clínica para alcoólatras. O mantiveram lá por um mês. NA minha opinião, muito pouco tempo. MAs foi o que se mostrou possível fazer e foi o que foi feito.

Martins saiu de lá com um emprego de garçom e um quarto para dormir, dentro de uma boate, o Tetéa, que fechou por estes dias (grande erro).

Agüentou três dias e apareceu embriagado no inicio da noite. Bebera tudo o que pudera e encontrara no bar da boate.

Foi jogado às ruas sem piedade.

Me lembro que ele caiu rapidamente na mendicância e que não mais aparecia com freqüência. Talvez vergonha pelo fracasso.

Até que numa bela noite ele parou na porta do bar do Seu Chico e fez um longo discurso onde o tema central era o reconhecimento da falha e o pedido de perdão, de uma nova chance.

Todos lhe viraram as costas.

Viveu mais dois meses. Foi encontrado morto na Rua Santo Antonio, no bairro da Bela Vista, por policias que nos conheciam.

Foi sepultado na Vila Formosa e assim acaba-se a história melancólica de um homem cheio de vida a quem a sorte sorriu de alguma forma e que foi mal aproveitada.

Até hoje não consegui avaliar se a Isabel lhe fez mal ou bem quando resolveu lhe dar boa vida.

Mas acho que eu nunca poderei saber.

teria, hoje, a minha idade.

Mas está morto, vítima do alcool.

Que descanse em paz.

Escrito por Ronin às 19:49:49
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Hoje bati um papo rápido com duas amigas. Uma delas saiu atarantada por que tinha filhos e visitas em casa. Dois problemas terríveis de se resolver; ainda mais quando são concomitantes.

A outra estava tristonha por causa de seu cachorrinho que está adoentado. Já passei por isso e gastei o que não tinha para salvá-la. Esta coisa de ter animais é um problema porque eles se apegam a nós e nós a eles de tal maneira que a figurinha acaba se tornando um ente querido e amando que não compreende aquele sofrimento e isso nos enche de piedade...

Foi ai que eu resolvi, para não ficar mais melancólico que uma uva passa, re-assistir Moulin Rouge, o filme. Tenho-o aqui e recomendo a todos.

Moulin Rouge é um reflexo da noite em que eu vivi: O show tem que continuar; as paixões, proibidas, pululam em toda a parte. Se você não sabe o que é a noite, assista Moulin Rouge e vai aprender um bocado sobre este mundo mágico onde nós, pessoas comuns, vendíamos ilusões e fazíamos pessoas felizes, cobrando caro por isso...

O enredo de Moulin é simples e verdadeiro. Um escritor se apaixona por uma cortesã (sic) que sonha em ser atriz enquanto um duque patrocina o espetáculo sob a condição da cortesã, Satine, ser exclusivamente dele.

Ora essa, na noite estes tratados são feitos e quebrados com a mesma facilidade com que eu digo oi a uma moça bonita na rua. E em Moulin não foi diferente. Mas tudo isso do Moulin me fez lembrar um incidente com a Gabi, minha namorada, esposa, amante, amiga e garota de programas (homens, não me odieis porque posso compreender uma mulher; buscai, antes, compreendê-las).

Foi o caso daquele homem desagradável a quem chamavam coronel. Era mesmo rico o homem, gastava rios de dinheiro e, segundo rezava a lenda, tinha, dentro do Banco, mais dinheiro que o próprio Banco...

Naquela noite infeliz ele resolveu ir ao Lê Masque e me obrigou a tocar Julio Iglesias e fuscão preto a noite toda.

Mas, desgraçadamente, ele se encantou (e por que não?) com a Gabi.

Eu aprendi há muito tempo que o ciúme é só vaidade (obrigado Raul) e fui levando a noite, meio preocupado, pois sabia que era costume dele levar a sua escolhida de jatinho para a fazenda. Isso não constava do trato tácito entre eu e Gabi. 4 da manhã ela largava tudo e vinha para mim.


Deve ser mesmo incompreensível para quem me lê ver-me admitir que eu tinha uma mulher que fazia sexo, por dinheiro, com outros homens.

Eu explico. Comigo, ela fazia amor, repartia vida, trocava idéias, estabelecia conceitos, idealizava sonhos. Com eles, nada mais que uma hora. Mas uma viagem de uma semana não! Eu não suportaria ficar longe dela por uma semana nem por todo o dinheiro do mundo e mandei um torpedo para ela.

***Livre-se disso.***

Ela mandou outro:

***Estou tentando.***

E foi um tentar a noite inteira sem sucesso.

Seis e meia da manhã minha paciência esgotou: desliguei o som, disse que era hora de vagabundo procurar sua linha e peguei minha Gabi pela mão e fui saindo...

O que veio depois foi uma explosão. O coronel enfureceu-se e quis, a todo custo, avançar sobre mim. Os gançons, aves de rapina, queriam, que eu devolvesse a moça para o coronel. Eu disse que nem morto. Alguém chegou a mencionar que a idéia não era má (eu, morto). E não saímos disso. O homem se recusava a pagar a conta porque um ***funcionariozinho qualquer*** estava lhe roubando (risos) a parceira de viagem. Eu o mandei às favas e ele não foi.

Terminou que saímos no tapa e que os seguranças fizeram o que podiam para sumir com a Gabi e deixá-la em lugar seguro à minha espera.

E lá vamos nós para o distrito.

O delegado ouviu a historia com um desinteresse completo e fez uma ocorrência de ***tumulto ou desordem*** e tudo ficou por isso mesmo.

Eu perdi o emprego. O Le Masque perdeu a Gabi. Fui trabalhar no La Concorde e ela, para evitar outros tumultos, foi trabalhar no Michel, duas quadras de onde eu trabalho...

Do La Concorde fui para o Vagão Plaza. Ela me seguiu e foi para o Kilt.

E foi ai que nossas vidas começaram a se separar...

Mas isso é história para outro dia, quando e se eu tiver vontade de contar...

Escrito por Ronin às 19:49:21
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Carta a mulher amada Parte 1

Foi escrita quando eu percebi que a perderia mesmo, para sempre.





Minha querida (poderia dizer minha amada, minha querida amada, minha adorada, zil coisas; não acabaria de dizer e não há espaço na web para tudo o que teria a dizer. Fico, portanto, em minha querida e amada).

Ontem, 17 de outubro de 2001, viramos mais uma noite ao telefone.
Não sei quantas já são, mas que importa o tempo?
Pouco, minha amada; e é sobre isso que quero falar-te, assim, publicamente.
Falávamos, ontem, sobre o tempo passado, a beleza perdida, o que se foi... Constatei alguma tristeza; quis dizer algo, mas escravo que sou de tua voz, me perdi em ouvi-la e pouco fui capaz de dizer.
Sou ruim com as palavras. Escrevendo, engano um pouco, ao falar me atrapalho fácil, o que é esperado sempre, minhas trapalhadas, e não consigo dizer coisas que penso e acabo me sentindo vazio e impotente.
Mas me lembro de ter tentado te dizer que a julgo belíssima. E me lembro que você me disse:
“É porque não me conheceu alguns anos atrás...”
Emudeci. Estava diante da hipótese de uma deusa.
Senti tua tristeza e me entristeci contigo, pois é dos que amam alegrar-se ou entristecer-se ao sabor das marés das emoções da pessoa amada.
Evoquei-te mentalmente e lembrei de teu rosto, de tua pele, de teu sorriso, de teus olhos...
Lembrei-me do que vivemos e compartilhamos, juntos, e que nem mesmo a distância de duas mil milhas terrestres pôde destruir...
Lembrei-me de teu sorriso de menina, de teu passo de dama, de teu olhar soberano, da Lua refletida no mar, iluminando teus olhos, teus cabelos que balançavam lânguidos ao vento com cheiro de mar...
Lembrei-me do frescor de tua boca, do calor de teu corpo e me senti outra vez um menino, “filiz”, porque, como homem, sabe que tirou a Sorte Grande na Roda da Fortuna.

É verdade, meu amor, o tempo passa para nós, o tempo passa para todos, e leva, a pouco e pouco, o nosso viço, a nossa força, a nossa vitalidade, o nosso impulso de galgar o céu atrás de nossos sonhos, enquanto banha em prata os nossos cabelos...
O tempo nos vai levando tudo, aos pouquinhos, mas, acredite neste tolo, deixa sempre algo em troca.
Deixa-nos a sabedoria, o conhecimento, a experiência, o discernimento; burila-nos a moral, nos eleva e nos transforma, a cada dia, numa pessoa diferente e melhor, mais firme, mais sábia, menos temerosa...
Mas o tempo não nos rouba o brilho do nosso olhar.
O tempo deixa-nos com este brilho até o último segundo, pois é este brilho que dá, de nós, aos outros, notícias do que somos, de quem somos, dá notícias de nossa essência...
Eu quisera ser poeta e te escreveria uma ode.
Mas sou um pretenso cronista, atrapalhado com a vida e só posso contar ao mundo o que vejo e conto ao mundo que és, ainda que não creias, muito bela.
E, de tão bela que és, plantaste em mim, novamente, o desejo de viver.
Mas não porque és simplesmente bela na sua forma exterior; és bela também em teu interior, e não acabaria de escrever se tivesse de dar notícias de tua grandeza, de tua moral, de tua força.
Me dissestes, ontem, que se tiver sorte, há de ficar bem velhinha e que já sabes, de antemão, que não serás uma bela velhinha.
Nada sei de futuros, e nada posso dizer sobre isso; ainda assim posso dizer que serás uma velhinha amada.
Mas quero que saibas que este que te ama, que é dado como doente terminal, teve em si reaceso o desejo de viver e envelhecer, acompanhando-te, como possível, amando-te como um louco, até o remate de nossos dias...
Este que te ama teve reacendida por ti a chama do desejo pela vida. E, se até há algum tempo vivia por viver, vive agora por amor à vida, que te trouxe até a mim, com tuas histórias, tuas dores, teus medos,

Escrito por Ronin às 19:49:01
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Carta a mulher amada Parte 2

anseios, desejos, pequenas manias (o encanto de uma mulher são suas pequenas manias), teu charme (Senhor! Por que a fizestes assim?!), teus encantos.
Se me fosse dado escolher, escolheria atravessar o tempo que nos resta perto de ti.
Envelheceríamos juntos, olhando o Sol se pôr sobre o mar, naquele lugar só nosso, que ninguém suspeita, sabe ou pressente; compartilharíamos a vida e o que ela nos oferece até que nada mais restasse.
Certamente encontraríamos pessoas cruéis que diriam:
“Quem vos viu e quem vos vê”; numa alusão cruel ao que o tempo nos toma a cada dia. Mas estes são tolos, que nada aprenderam e que estão, como nós, em peregrinação ou romaria sobre a Terra, e o tempo também lhes cobrará seus tributos.
Quando eles surgirem, deveremos sorrir, pois só nós sabemos o que a vida nos deu, e quão poucos recebem esta alegria de amar e ser amado através do tempo e do espaço, na presença distante e na ausência dorida de saudades...
São tolos estes que debocham de ti. Não te sabem, não te conhecem como eu. Não merecem teu crédito.
E passaríamos o tempo, viveríamos a vida, amaríamos um ao outro, da nossa maneira peculiar e, se Deus me amasse muito, mas muito mesmo, me levaria antes de ti, para que eu não tivesse de suportar a dor da saudade...
Se Ele te levasse antes de mim, haveria um velho triste, cabelos encanecidos, que depositaria uma rosa branca na orla de uma praia todos os dias e ficaria esperando o mar buscá-la e levá-la para ti.
Todos os dias este velho olharia o céu, o mar, a lua e o infinito, buscando a luz de teus olhos em Canopus, Sirius, Capela (a saudosa Capela) ou Aldebarã...
Sei que uma delas haveria de brilhar mais intensamente por alguns segundos, todas as noites, o que daria muita dor de cabeça aos astrônomos do mundo, que pretendem saber tudo de estrelas sem saber nada de amor, eu veria este brilho e voltaria para casa feliz, sabendo que o Olimpo recebeu de volta uma de suas ninfas e poderia até mesmo sorrir de alegria, sonhando com a concessão piedosa de Zeus, que me permitiria visitá-la vez por outra, neste meu amor humilde, que se contenta em sabê-la existente.
E este velho triste chamaria a atenção de um menino que perguntaria a seu avô sobre tal homem e o avô diria:
“Ali está um homem que amou e foi amado, cujo amor transcendeu o tempo, o espaço e venceu até mesmo os limiares da morte, um amor que, enfim, venceu tudo...”
E o menino não entenderia nada; talvez viesse até a mim, me olhasse, mas não diria uma palavra, diante da saudade em meus olhos.
Meu amor por ti é eterno; e será como o do poeta, que amou “muito e amiúde e que morreu de amar mais do que pôde”...
Mas, talvez, eu parta mesmo antes de ti. E no último momento você terá de meus olhos as mesmas notícias que tem hoje. A jura de um amor eterno, que irá além da última estrela deste Universo conhecido, alcançando a primeira do outro, ainda em construção, que explica a incomensurável noção de infinito...
E você verá que as minhas forças se esvaem, que minha respiração se faz débil e que, finalmente, repouso, pacificado, em teus braços...
Talvez você pense:
“Repousa o meu guerreiro”. E certamente acrescentará:
“É um repouso merecido”.
Bem sabes de minha batalhas; tens participado de cada uma delas como uma leal amiga, uma fiel companheira, uma amante ardente; tens me oferecido a melhor palavra, o melhor gesto, o mais importante vaticínio; só tu tens o dom de me frear os impulsos de fúria e minha gana de destruição...
Tens sido minha luz, minha força, minha coragem, minha vida, meu tudo...
Nada sei do que vai além da morte, mas quero acreditar que poderei sentar em uma rocha bem alta e ficar te olhado, caminhando, o passo lento, a visão embargada pelas saudades; até que um dia, finalmente, me digam:
“Volta, e busca tua amada”.
E eu te buscarei, devagar, com a calma daquele primeiro beijo, quando te puxei pela mão, lenta, timidamente, assustado como um adolescente; sentirás minha presença e, aos poucos, poderá me ver; saberás então que é tempo de retornar e eu te tomarei pelo braço e nos descobriremos ainda e novamente jovens, pois nossas almas serão para sempre jovens, renovadas na força de um amor que não tem fim...



Escrito por Ronin às 19:48:19
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Ansiedade

É noite, estou ansioso. Amanha posso ter um patrocínio para meu site. www.soropositivo.org . Ana dorme. Amanha ela levanta cedo por causa do rodízio; minha anisedde está me consumindo a alma...

Num horário como este espero muitas coisas boas.

Um aviador assassino arrasando meu bairro com napalm.
Uma chuva de meteoros na Nova Zelândia
O surgimento de um Tiranossauro Rex recém descongelado de uma geleira na Antártida em Nova York
O estouro de uma boiada na estação sé do metro que inviabilize o transporte público e que todos possam ficar em suas casas...
O Jô Soares contando uma piada de alemão com sotaque de português...
Enfim, espero qualquer coisa; até mesmo um convite para uma transa virtual ou por telefone (que coisa deliciosa quando as duas pessoas se dão bem... :oP )

Só não espero um e-mail da minha psiquiatra maluca, risos, pedindo para eu, o insone, não abusar de tranqüilizantes...

Deve me ter em elevada estima a Dra Valéria para se lembrar de mim em hora tão adiantada.

E a honestidade me força a dizer que eu fico grato por isso.

Saber que ela, que tem mais de 150 pacientes só na Casa da AIDS consegue se lembrar de mim no meio da madrugada é ser acariciado...

Ainda não dormi, nem sei se dormirei.

Vou pegar um livro qualquer e tentar relaxar.

Um bom dia a todos



Escrito por Ronin às 19:46:48
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A bike

Estava aqui pensando na vida, meio à toa, meio alegre, meio triste. É da minha natureza ser triste e os momentos de alegria tem um sabor muito especial.

Este final de semana foi particularmente feliz. Os motivos? Um presente.

Acho que já havia muitos anos que eu não ganhava um presente. Recebi ajuda de muitas pessoas mas um presente, isso é muito diferente. E me veio à memória um outro momento, 30 anos distante de mim. O dia em que eu ganhei minha primeira bicicleta.

Lembro me dela. Um azul esverdeado. Estava escrito: Monareta 2001.

Foi uma festa. Oba ganhei uma bicicleta!!!!!

Sai para a rua empurrando meu quarto veiculo sobre rodas todo feliz levantei a perna, saltei sobre a mesma e cai. Não sabia andar de bicicleta. Era um menino terrível este que vos fala e chutou a bicicleta como se fosse ela a responsável por meu vexame. Havia 30.000 meninos na rua e cada um deles ria por outros 30.000!

Peguei a bicicleta, subi sobre ela e, novamente cai. Outra vez, mais uma, de novo! Uma sucessão de tombos intermináveis e a maldita bicicleta não se movia; recusava ¿ se, a danada, a aceitar ¿ me como seu legítimo proprietário. Era uma bicicleta muito temperamental...

Este drama durou uns 20 dias e não havia progresso. Os meninos, antes sarristas, estavam tristes. Eles tinham suas bikes, iam para longe, para ¿Terras nunca d´antes vistas¿ e eu não os podia acompanhar. Criou ¿ se um mutirão para que eu aprendesse a andar de bicicleta. Gritos, orientações, torcida, tudo inútil... Eu não aprendia a andar de bicicleta.

Para que fique o registro de toda a verdade é preciso que eu confesse uma coisa: Tinha medo de cair.

Era o medo de cair que se postava entre eu e a liberdade de ser criança. Não sabia e não sei porque tinha medo. Tinha medo e isso é tudo.

A bicicleta ficou esquecida, muitos meses, na garagem de casa, enquanto eu me contentava em soltar pipas, rodar peões, perder bolinhas de gude e alvejar passarinhos com um estilingue muito potente (ecologistas de época, perdoem este menino travesso que nada sabia sobre ecossistemas- a bem da verdade eu era péssimo de pontaria e não achava muito graça em ver um passarinho morto; creio que carrego um homicídio destes em minha consciência, mas é tudo)

O tempo passou e eu me sentia triste e invejoso porque meus amigos iam em bandos de bicicletas até as chácaras dos japoneses e roubavam caquis, mangas, o que fosse da época. Eu não participava disso, era medroso, estava infeliz.

Não sei o que aconteceu, um belo dia, que se perde na noite dos tempos, peguei a bicicleta e fui até o campinho onde jogávamos bola e me arrisquei. Cai. Chorei. Estava sozinho e meninos só choram quando estão sozinhos. Homens não choram nunca, preferem ter infartos. Acho bastante razoável os motivos deles; mas prefiro não ter infartos... voltemos ao campinho.

Tentei muitas vezes e muitas vezes caí. E a cada vez que cai chorava mais e me enfurecia mais. Irritado, nervoso, tive a idéia de jogar a bicicleta pelo barranco, mas a idéia de ter de prestar contas a meu pai sobre o destino da bicicleta me deteve (o medo pode ser útil as vezes).

De repente, aconteceu um milagre: Sentei me na bicicleta, coloquei o pé no pedal e empurrei para frente, com toda a força que os meus 8 anos podiam oferecer. Ela partiu, levando ¿ me, sorri -esta distração quase acabou com a carreira de ciclista- a bicicleta ameaçou tombar para o outro lado, me assustei, pedalei com mais força e ela prosseguiu, comigo; mas ameaçou me mais uma vez, para o outro lado, mais força, ela seguiu em frente, comigo! Eu sorria como uma criança sabe sorrir, aquele riso puro, de puro contentamento... Um novo obstáculo, o campinho estava acabando, eu não sabia manobrar a bicicleta, não lembrava o que era freio, tive medo de cair mais uma vez. Coloquei os pés no chão e, obviamente, cai. Mas já não chorava. Tinha percorrido todo o campinho e sabia que poderia fazer de novo. Durante todo o dia e toda a tarde meu universo se limitou àquele campinho, onde eu ia, descia da bicicleta, dava um jeitinho com as mãos, virava a danada e atravessava o campinho. Não é preciso prolongar isso. Um outro ¿acaso¿ me ensinou a virar a bicicleta e, finalmente, eu podia conquistar o mundo (o mundo de um menino tem o tamanho proporcional á sua imaginação e o alcance de suas rodas)!!!!

Lembrando me disso agora posso ousar dizer que viver não é muito diferente de andar de bicicleta. A bicicleta é um veiculo instável, que nunca esta equilibrado. Uma hora ameaça cair pra direita. Outra, ameaça cair para a esquerda. Você é que tem de se virar e manter a bicicleta andando; você é quem tem de se virar e manter a vida em movimento. Se tiver medo, você cai. Se não se arriscar, ficará sempre no mesmo lugar. Se não aprender a contrabalançar estas idas e vidas daqui pra lá e de lá pra cá, cairá.

Somos nós mesmo que determinamos os nossos rumos, que fazemos o nosso caminho. Podemos ir andando, devagar, com medo de tudo e de todos. Ou podemos ir de bike, olhando a paisagem e conquistando novos lugares, novas paisagens, outras vitórias.

O que não podemos, é ter medo...

Saudades dos meus oito anos. E pensar que eu tinha pressa em ser grande e fazer o que quisesse...



Escrito por Ronin às 19:46:04
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Se há uma coisa que atormenta um depressivo, esta coisa é uma noite sem estrelas.

Hoje estou atormentado.

E ao constatar isso vejo o quanto mudei com o passar dos anos... Antes, na minha “juventude”, quando eu era um DJ na noite, minhas baladas duravam três, quatro noites... E estas três quatro noites eram de farras, diversão e alegria. Não havia em mim esta introspecção, este clima de “algo à espreita”, me ameaçando com não sei que. Hoje, isso é uma constante.

E é com uma saudade imensa que eu olho para o passado e vejo as ruas por onde andei, as camas que compartilhei, os desatinos que cometi, as loucuras impublicáveis que perpetrei, as mulheres que amei...

Daise... Débora... Gabi... Sonia... Simone... Potira (índia mesmo, lá do Xingu), Wan (a chinesa maluca que colocou a máfia chinesa atrás de mim)...Aldeíde... e outras tantas que nem me lembro o nome ou, uma pena, o rosto... E para cada nome seguido por reticências eu poderia contar uma história e mostrar o quanto eu fui amado e o quanto amei; e poderia mostrar também quantas vezes fui canalha e quantas canalhices foram feitas comigo...

E, pensando nisso, chego quase a acreditar que estou quite com a vida. Dei e recebi. Do que dei, recebi. Do que recebi, dei. E dei vida, prazer, tesão, lágrimas, noites mal-dormidas, tentativas de suicídios minhas, outras por mim... Brigas. Tiros. Armas apontadas para mim e muita conversa para que elas não fossem usadas... Grandes amigos, inimigos ferozes. Gente que até hoje comemora o fato de eu ter contraído HIV (todos os anos mando notícias, dizendo a eles e elas que continuo vivo e bem de saúde – sou um debochado)...

Houve quem dissesse (Flávia): “Bem feito! Tem que se fuder!” E o meu maior erro foi tê-la amado demais sem saber o que era amor...

Quando esta fase louca passou eu já vinha beirando os trinta e se não tinha mais o viço da mocidade, tinha a lábia de quem sempre andou nos labirintos da sedução...

Mudei meu estilo. Passei a caçar com mais sutileza. Escolhia melhor minhas presas. E só dava botes certeiros. Naturalmente eu falhava. E a cada falha eu aprendia alguma coisa; mesmo que fosse: “nunca mais cante esta mulher”. Já era um aprendizado.

Logo depois veio a meningite, o coma, e o diagnóstico. A minha vida mudou.

Por meses tive nojo de mim mesmo. Por meses vivi o drama moral de acreditar que ninguém mais me tocaria, pois era implícito para mim que antes de uma transa eu contasse a sorologia. Fiquei oito meses sem um abraço, na mais profunda solidão afetiva, lutando para sobreviver a mim mesmo, ao vírus e às adversidades do percurso, que nem importa narra aqui, pois não quero (nunca quis) ser vítima ou herói, apenas gente. Foi quando reencontrei Débora, que eu não via há quase dez anos. Abatida, a vida havia sido dura com ela. Seu rosto, belíssimo outrora, carregava as marcas de seu calvário particular.

Conversamos. Contamos um ao outro os desastres de nossas vidas e lamentamos o dia em que rompemos. Entramos, então, no labirinto das hipóteses. “Se tivéssemos ficado juntos você não teria HIV...”; “Se não tivéssemos nos separados você não teria ficado viúva, com dois filhos, assim tão jovem...” E resolvemos brindar à nossa felicidade hipotética. “Você pode beber?”Ela perguntou. Eu disse: “Que importa?”.

Bebamos então.

E aí eu ofereci a ela minhas lágrimas enquanto ela me dava seu colo e me ouvia, ouvia a voz de um náufrago que clama por socorro...

Ela me disse para não chorar. Que eu não era tão indigno assim. Que a vida tem suas razoes e o que nos cabe é viver.

“Vem comigo...”

E ela se entregou a mim como nunca fizera antes, devolvendo-me a força que eu precisava para prosseguir. Disse que não tinha medo de mim, nem da AIDS, nem do que fosse. Tudo o que ela queria era me mostrar que eu era digno de amor.

E me amando me dignificou, me reerguendo ao patamar mínimo de dignidade humana que é o que eu espero da vida.

Ela me deu seu telefone. Eu não dei nada, pois nada tinha, e nunca mais liguei. Sentia que o gesto dela fora mais por bondade que por amor, e que não era justo impeli-la a outros movimentos.

Depois deste dia, reencontrei em mim a capacidade de ser amado, de me aceitar como eu sou e ir à luta sem pedir licença a ninguém.

De lá para cá, houve alguma aventura, alguma namoro, algum romance.

Mas houve alguém muito especial (e eu fico com a música: ...e para ninguém saber seu nome/eu digo só/meu bem), que me ensinou sobre a vida mais que eu poderia ter aprendido em muitas vidas; me deu luz quando eu estava nas trevas da minha completa ignorância, me re-ensinou o conceito de justiça, aconselhando-me a buscar, antes, a justeza das coisas, me deu força quando todos me abandonavam e, um dia, me acenou com a felicidade completa, dizendo, “venha viver comigo”. Barreiras sociais se interpuseram entre nós. O mundo tem suas idiossincrasias, e elas precisam ser respeitadas.

A bem da verdade, o mundo é um jogo de espelhos onde só vemos aquilo que nos permitem ver...

E se existe um abismo difícil de ser transposto, este é o da diferença social associada à vida pregressa e a condição de saúde...

Por eu ser quem eu sou, por ter vivido tudo o que vivi, por ter trilhado todos os caminhos que trilhei acabei por encontrar aquela a quem eu daria meu nome (grande quimera) e minha vida sem pestanejar; e por estas mesmas razoes, a vida a levou para longe de mim, para que eu nunca mais possa vê-la...

É um paradoxo, bem sei.

Mas, se é um paradoxo, também faz parte de minha vida que, em suma, é outro paradoxo.

Foi de paradoxo em paradoxo que eu cheguei ao maior de todos os paradoxos, este que determinou o fim de uma carreira de caçador.

Sigo pela vida, à maneira que o Lulu Santos descreveu muito bem: “Te amando calado, como quem ouve uma sinfonia de silencio e de luz...”

Confesso que te amo.

Mas, acima de tudo, por piegas que seja, confesso que vivi.


Escrito por Claudius às 07:23:31

Escrito por Ronin às 19:44:56
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La barca

Dizem que a distancia é ser esquecido.

Mas eu não concebo desta maneira.

Porque eu segurei sendo o cativo.

Dos caprichos de seu coração.



Soubestes esclarecer meus pensamentos

Me dissestes a verdade que eu sonhei.

Afastaste de mim o sofrimento.

Na primeira noite em que te amei.



Hoje minha praia se veste de amargura.

Porque sua barca tem que partir.

A cruzar outros mares de loucura.

Cuida para que não naufragues em teu viver.



E quando a luz do Sol estiver se apagando.

E te sintas cansadas de vagar.

Pensa que eu estarei aqui, te esperando, até que tu decidas regressar.


É um bolerão. Mas diz tudo. Quanta vez cada um de nós não encontrou o “grande amor” de sua vida e sentiu-se assim?

De repente, todo o marasmo, toda a tristeza, toda a angústia desaparecem “naquela primeira noite em que te amei?”.

E vemos tudo mais claro. Nos doamos mais ao mundo, de uma maneira mais sentida, mais pura poruqe, finalmente, alguém nos disse “a verdade com que sonhamos”; e mais, este alguém afugenta de nós todos os sofrimentos nesta mesma noite, na primeira noite que nos amamos.

É porque somos dependentes uns dos outros. Isso, às vezes, no nível da infantilidade. Como se não pudesse haver mundo sem aquela pessoa que, até ontem, não existia em nossaas vidas. Em suma, não nos bastamos a nós mesmos.

Projetamos o “eu ideal” em uma outra tela (pessoa), e passamos a acarinhar este ideal como se fosse tudo de bom e de melhor que poderíamos esperar de alguém quando, na verdade, tudo o que vemos na outra pessoa é projeção nossa, criação nossa e, portanto, já está em nós. Isso deveria servir para que servíssemos a nós mesmos.

Mas não basta.

Aí vem mesmo a hora da amargura, porque La Barca desta pessoa tem que partir.

E argumentamos muito para que não parta. Pedimos, imploramos e, por fim, ameaçamos: Cuida-te para que não naufragues em tua vida. É a tentativa de reter pelo medo.

Mas a Barca vai. Precisa ir. Esta nos seus incisos que ela deve singrar outros mares de loucuras, mesmo que isso lhe custe um naufrágio...

Aí, então, quando não nos resta mais nada a dizer, quando faltam as palavras, os argumentos, os pensamentos, tudo, vem a promessa.

Quando você estiver cansada de tudo isso, volta. Eu estarei te esperando.

É uma promessa vã, tola e fútil.

Se algum dia a barca voltar, nem porto há de encontrar, porque mudamos a cada minuto e por mais que choremos por sua partida, precisamos, também nós, de prosseguir vivendo nossas vidas.

La Barca é um poema.

La Barca é surreal.



Escrito por Ronin às 19:43:31
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A Ruben Braga

Segunda-feira, Junho 16, 2003


A Ruben Braga


Outro dia disse a uma amiga, por telefone, que sou fã do Ruben Braga.

Disse, e não foi por acaso. Havia me lembrado dele naquele dia mesmo.

Li, numa de suas crônicas, a narrativa de uma visão bastante peculiar: Ele se apercebeu que um homem, a seu lado, num ônibus ou bonde, chorava.

Ele descreve aquilo como um "choro digno".

Digno porque era contido; apenas um rolar de lágrimas...

Conta o Ruben que desceu do ônibus, atrás do homem, em busca da causa de sua dor. Viu que o mesmo entrou em uma floricultura, comprou uma coroa de flores, que foi devidamente despachada e tomou seu rumo... Rubens não se preocupou mais com ele, entendeu toda a sua dor...

Assim me flagrei outro dia, dentro de um ônibus em Piracicaba, enquanto olhava as ruas passarem por mim, tudo é relativo...

Por alguns momentos devaneei vendo as pessoas irem e virem, numa corrida louca, insana, não se sabe ao certo atrás de que.

Isso me entristeceu profundamente, um mundo vazio de opções, abandonado por seus habitantes, que perderam o respeito pelo solo em que pisam e pelo esforço de incontáveis gerações.

Notei que uma moça se apercebera disso e me olhava entre a curiosidade e o espanto. Bastou me para que descesse do ônibus e fizesse o resto do caminho a pé. Em silencio, agora chorando nas ruas...

A moça não imitou você Ruben. Ela segui seu caminho e não se importou em saber a causa de minha dor.

Uma pena que você não estivesse lá; tenho certeza que desceria do ônibus e viria atrás de mim, discretamente, vaticinando sobre o porque de minhas lágrimas. Eu não pararia, porque não parei, em nenhuma floricultura, não parei em lugar nenhum.

Acredito que você teria me seguido por quarteirões e quarteirões, até porque perseguiu uma borboleta amarela por mais que três quarteirões, antes que ela "se perdesse". Creio que você não resistiria e tocaria em meu ombro e me perguntaria, sem temor:

-Por que choras, rapaz...?

E eu teria muito a te dizer Ruben. Diria a você que choro por cada um dos que perdi na estrada, que já me parece tão longa...

Sabe aquela ultima milha? Pois é. Parece que ela não acaba e a cada metro percorrido alguém que ia comigo cai ou me abandona.

Nao sei mais por quem ou pelo que chorar, tenho chorado tanto Rubens, que me faltam lágrimas. E as que saem vão assim, a furto e a medo, rolando devagarzinho, embaçando meus óculos, fazendo meus olhos arderem... É muito chato chorar assim, o tempo todo, quase que "sem razão¿ por serem tantas as razoes...

Não dá, Rubens, para listar meus motivos.

Nao da para explicar. O médico e a psiquiatra determinaram: emocionalmente lábil.

4 Mg de clonazepam.

2 Mg de Rohypnoul.

2 Mg de Risperidal

300 Mg de Sertralina

750 Mg de Depakene

15 gotas de neuleptil

Mas, para dizer a verdade, não adiantou muito não Rubens. Acho que é caso para hospício...

Talvez fosse bom eu sair amanha bem cedo, com uma meia dúzia de tijolos e começar a quebrar umas vidraças, fazer alguma arruaça, gritar bastante até a policia chegar e eu dizer pra eles: Vocês não podem me prender... Eu sou Loooouuuuco... E rir debochadamente de todos eles, perplexos diante de um louco que se sabe loco e tira proveito de estar louco...

Ia ser divertido a beça. Por outro lado, eu poderia levar um tiro... Nao sei se vale o risco. A bala ia entrar, ia doer um bocado, eu ia sentir muita sede e, para piorar, certamente não morreria.

Ia ser processado por vandalismo e ainda teria de pagar os danos.

Melhor procurar outra idéia...

Quem sabe, quando o velho Morpheu vier e jogar areia em meus olhos eu consiga dormir, um sono em que você me visite e me de uma grande idéia.

Se é um convite?

Ah!!! Não tenha duvidas... É mesmo um convite.

Boa noite Rubens. É Rubens ou Ruben?

Perdoe me a gafe de fã.

Abraços



Escrito por Ronin às 19:42:41
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Medos... Também tenho os meus...

Também tenho os meus. E como os da maioria das pessoas, não são infundados.

Ontem, segunda feira, 26 de janeiro de 04 eu estive na Casa da AIDS. Era uma consulta com a analista. Mas eu acabei chegando mais cedo e fiquei vadiando pelo hospital, um complexo pequeno de três andares, conversando com os funcionários. Quando foi se aproximando a hora da minha consulta eu desci para o primeiro andar, onde fica o Hospital Dia e o setor de Psicologia e me deitei num leito para aguardar aqueles últimos 30 minutos.

Foi então que ele chegou, numa cadeira de rodas. Um desconhecido; um paciente em fase terminal. Não vou descrevê-lo, ele não merece esta afronta. Mas quando ele passou por mim eu vi automaticamente um grande numero de pessoas a quem perdi nos últimos 8 anos.

Amarílis; Linfoma de Hodgkins.

Waldir; Tuberculose Miliar (disseminada por todo o corpo)

Adriana, Infecção por Mico Bacteryum Avium.

Silvana. Pneumocistose.

Márcia, complicações generalizadas do HIV culminando com insuficiência hepática por conta da medicação pesada...

E tantos outros cuja causa mortis eu desconheço, mas que saíram do mundo de maneira desconcertante e dolorosa, tanto para quem fica como para quem parte...

E pensei instintivamente em como será a minha saída.

Será que terei que passar por um corredor estreito, para dar um último testemunho de uma coragem que ostento sem saber se tenho?

Como será?

Conheci gente que antes de morrer foi perdendo as faculdades sensitivas: Primeiro a visão, depois a audição, depois a capacidade de locomoção e, por fim, a morte, em prolongada agonia...

Houve um caso no Emílio Ribas, de um jovem de 24 anos que padecia de Sarcoma de Kaposi, um câncer de pele que só atinge imunossuprimidos, quer seja pelo HIV quer seja pela idade, quer seja por outras causas... É uma doença terrível e, na época, não havia como controlá-la (hoje em dia há); o rapaz era uma chaga humana e a cada término de plantão os funcionários se reuniam para orar pela morte dele. A mãe acompanhou isso de perto, numa cadeira, dia após dia, até que, finalmente, Deus o levou... Que descanse em paz.

Eu não sei o que o futuro me reserva. Mas tenho medo. Um medo tão grande que chega a me sufocar e que, hoje, depois da visão de ontem, me desfoca a atenção o tempo todo... Gostaria muito que Deus tivesse alguma piedade de mim e me desse um estrepitoso acidente de automóvel como porta de saída deste mundo, com morte instantânea e pouca dor.

Mas não sei se será assim; não sei nada sobe isso e só me resta temer a possível tempestade que deve se assomar sobre mim...

Talvez, apenas talvez, eu recorra aos ritos samurais e pratique um sepukku.

Mas isso ainda é coisa a ser pensada. Por enquanto, o MEDO

Escrito por Ronin às 19:41:38
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Creio que a maioria das pessoas sabe que eu saí de casa ainda menino, com pouco mais de doze anos, fugindo da violência de meu pai. Quem não sabia, passa a saber agora.

E nenhuma criatura na Terra me infunde maior confusão que ele, meu pai.

Podeis imaginar o que passei nas ruas de São Paulo, nos últimos anos da década de setenta, quando o Inverno era Inverno mesmo e por muito pouco não morri, certa noite, de frio; eu ainda conto esta história.

Se alguém perguntar sobre minha mãe digo que não sei mais dela. A ultima coisa que fiz por ela foi transferi-la de um hospital para outro, pois estava nas ultimas, vítima de um câncer no seio que o “Senhor curaria”, segundo ela... Não entro, aqui, no mérito das ações dela. Quando fugi de meu pai procurei refúgio nela. E não obtive. O que obtive foi um convite de retorno à casa de meu pai. Isso equivaleu a uma carta para a rua. Eu raramente volto a um lugar de onde parti; custo muito a partir, demoro-me, postergo, justifico-me, faço o diabo, mas só parto quando não há mais solução. Quando não há mais nada visível ou invisível que possa me reter ali por um átimo que seja.

Fui para a rua.

Enturmei-me na Avenida Ipiranga, movimentadíssima, porque lá havia duas casas de jogos eletrônicos, o popular “fliperama”, que não fechavam. Era um refúgio.

Curiosamente aquelas máquinas me ajudavam. Eu aprendi a jogar bem, ganhava muitos créditos. Quando alguém vinha jogar, me dava uma ficha e eu liberava um credito.

Acumulava 50 fichas numa noite com facilidade e as devolvia no caixa, que rachava comigo meio a meio (tudo tem um preço) e isso dava o bastante para eu comer alguma coisa como a carne louca ou o sanduíche de pernil do ponto dos músicos, hoje, um bingo...

Mas não era popular. Tinha o gênio difícil, era arisco e procurava estar sempre um minuto à frente, prevendo o futuro para garanti-lo da melhor maneira.

Assim escapava da polícia diversas vezes. E outras tantas de alguns desafetos... Às vezes eu dormia no terceiro distrito, “para averiguação”, e era solto na mudança de plantão, às cinco e meia da manhã; em outras, eu era obrigado a me armar com o que encontrasse e defender minha vida como se fosse minha própria vida, pois assim era, então...


Assim passei os anos, cinco anos, até que Fátima, uma garota de programas, com o rosto queimado por ácido, viesse até a mim e me soerguesse ao patamar mínimo de dignidade humana, me dando algumas roupas, um sapato apertado (tudo usado, porque ela podia pouco) e um emprego de lavador de pratos na Boate Louvre, hoje um estacionamento situado à Rua Major Sertório, 178, praticamente na esquina com a Rego Freitas, à noite, é só procurar pelo Mané que ele fala de mim...

Fátima saiu de minha vida da mesma maneira que entrou. Como um raio. Desapareceu sem deixar vestígios. Tudo o que me deixou foi a nota da lavanderia paga para que eu pudesse retirar minhas roupas. Nunca mais soube dela. Movi, depois, céus e terras, e alguns oceanos também, mas nunca pude encontrá-la para me ajoelhar diante dela e dizer muito obrigado.

Tenho certeza que Deus fez isso em meu lugar, e fez melhor. E que, de alguma forma, ainda vou encontrá-la, mesmo que seja, “no Todo”.

É imperativo dizer que Fátima não me pediu sequer um beijo. Fez o que fez por que quis fazer, sem pensar em nenhuma garantia, nenhum ganho, nada. Foi pura bondade.

Assim, leitores, sabeis que não foi uma dama da sociedade, nem a esposa de um pastor, ou uma grande médium da liga espírita que me socorreu.

Foi uma prostituta.

É só graças a ela que eu pude recomeçar e, sem ela, todo o resto teria sido impossível.

Isso dá a vós a medida aproximada do que passei. Da fome, do frio, do medo, do combate efetivo pela vida, muitas vezes tapa a tapa, soco a soco, chute a chute, gota de sangue a gota de sangue...

Tudo isso porque eu não suportei a violência de meu pai; tudo isso porque minha mãe não foi forte o bastante para me abrigar contra a vontade de seu novo marido; tudo isso porque eu fui orgulhoso, e temeroso, demais para voltar atrás preferindo as ruas.

Hoje converso com meu pai de igual para igual. Houve, alguns anos atrás, por conta do diagnóstico positivo, um grande acerto de contas entre ele e eu e, num dado momento, ele me disse:

“... Saiu de casa porque quis, eu não mandei você embora”. Saí para não levar as suas porradas, retorqui.

E ele:

Meu pai me batia com o rabo de tatu e cabo de enxada e eu não morri!

Isso me desarmou completamente. Foi preciso um vírus para que eu descobrisse que meu pai não era mal. Estava apenas passando a bola adiante, segundo as limitações que a formação dele, inclusive de época (o Velho vai fazer setenta anos em setembro), que o faziam violento ao ponto da crueldade.

Creio que ele nem sabia ao certo o que fazia...

Depois disso, nestes últimos anos, penso muito em meu pai.

Nas coisas que não fizemos, nas pescarias que não fomos, nas partidas de futebol que não assistimos, na vida que não vivemos.

E, pensando nisso, meus olhos marejam... O tempo perdido está irremediavelmente perdido... E não se gira a roda do tempo para trás...

What’s done is done. Não se pode mudar isso.

E eu chego aos trinta e nove anos com a certeza que amo meu pai.

Que nem há o que perdoar; pois foi tudo uma questão de escolhas.

Eu escolhi a rua. E a escolha principal era a minha.

E como deve ser dorido para ele saber disso!

Os anos de ausência, nenhuma noticia, a incerteza sobre eu estar vivo, tudo...

Quando reencontrei minha mãe ela fez um grande ato de contrição.

Meu pai faz um pequeno, mas constante, de uns tempos para cá... Creio que ele teme a morte, teme morrer sem poder regozijar-se de seu filho.

E eu temo também. Temo olhar para ele e dizer que o amo. Temo dizer isso e não ser compreendido. E temo não dizer e me arrepender por dez milhões de anos...

Acho que vai ser este ano. Vou dizer isso a ele, no dia certo. Pelo menos uma vez.

A casa da Matriarca esta com as luzes acesas; no varal, milhares de peças de roupa.

Pude entender meu pai.

Nunca vou entender esta mulher.



São Paulo, terça-feira, cinco de agosto de 03.


Escrito por Ronin às 19:40:26
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Este texto é do final de 2003

Sempre que meus pulmões adoecem e a oportunidade existe eu me busco asilo no litoral. Em Santos, mais exatamente. E fico ali na praia do José menino, facilmente identificável (1,86m, usando bengala, relativamente jovem -38 anos-) sempre penso na possibilidade de ser reconhecido por algum listeiro(a) que chegue até a mim e pergunte, meio sem jeito: “Você é o Claudius?” E eu responderia cinicamente: “Talvez; por que?”

E a pessoa ficaria embasbacada. Era ou não era o Claudius? Como assim, talvez? Ou ele é ou não é.

E eu me divertiria muito com esta confusão mental provocada por um simples vocábulo. E meditaria imediatamente no poder das palavras, enfileiradas uma após a outra ou solitárias, e chegaria à conclusão que uma palavra tem mesmo o sabido poder que tem uma palavra. Depois de solta...

E enquanto a pessoa fica paralisada em suspensão animada diante de mim eu ficaria ali dissertando de mim para mim na responsabilidade que certos verbos imputam, e o quão futilmente eles são conjugados...

Como “amar”, por exemplo. É fácil dizer “eu te amo”. Mas amar de verdade, sem dizer uma palavra e permanecer à distância porque a vida nos impõe sacrifícios dos quais não podemos fugir, é bem difícil. E é muito fácil retirar este “eu te amo” e colocar um “acabou”. Mas... Acabou o que? O que nunca existiu ou o que se pensava existir e não era mais que um fogo-fátuo? Nunca saberemos. O que se sabe é que acabou.

Acabou o teu toque. Acabaram-se os seus beijos. Acabou-se a alegria de sabê-la presente. Acabou a ilusão iniciada com uma simples frase e um simples beijo.

É fácil começar uma relação: Basta um beijo. Solidificá-la é simples. Basta olhar nos olhos do outro e dizer: “Eu te amo”.

Mas é um bocado difícil mostrar vivendo, um dia após o outro, com toda a problemática que isso implica. Suportar o mau-humor ou a dor de cabeça do ente amado, aliviar suas tensões, compartilhar a dor, sacrificar-se pelo bem do outro, ainda que por cinco minutos pode ser muito complicado. Eu acho que é por isso que o amor vem se banalizando e as relações vêm durando cada vez menos, com uma qualidade cada vez menor...

Mas, voltemos à pessoa diante de mim, paralisada pela incógnita: Você é ou não é o Claudius?

E eu sorriria e diria que sim. E certamente esta pessoa me abraçaria como quem abraça alguém que há muito (nunca) não vê; e me diria coisas que me fariam enrubescer de orgulho pelo que tenho feito e pelo que ainda pretendo fazer; mas não iria além disso, não se preocuparia em saber como vivo, do que vivo, o que me mantém vivo, nada; seria uma conversa fútil como são fúteis as ondas que beijam a areia da praia...

E isso é falta de amor. Amor de criatura para com outra criatura.

E então eu fico triste com estes pensamentos e torço para que aquela loura belíssima que vem caminhando na minha direção não tenha nenhuma pretensão em saber se eu sou o Claudius...

Aliviado, constato que ela sequer olhou para mim.

Melhor assim.

Melhor este anonimato e esta dor de ser vivo e não ser percebido.

Foi isso que passou pela minha cabeça enquanto olhava as pessoas indo e vindo, indiferentes, diante de mim, à beira-mar, sem Fernandinhos...

Só Claudius.

Anônimos...

Que destino terão?

Quantas delas serão como a flor do sisal, que ao nascer anuncia a morte da planta toda?

Ontem terminou minha pneumonia, eu acho; e começou o inverno.

Em vista destes dois eventos, me ponho melancólico....



Escrito por Ronin às 19:39:41
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Oara vc LCL

Conforme você me pediu, li seu post em seu Blog. E não poderia postar a resposta lá, pois o espaço é limitado demais. Então vamos aqui. Aqui eu digo que compreendo exatamente o que dizes quando se refere ao fato inexorável: Todos vamos morrer um dia...

Você relata de maneira pungente um momento dramático em que sua vida, o controle da manutenção dela, escapava ao seu controle. E declara que isso te deu a liberdade de ser quem é. Sem maiores medos, sem se importar com o que outros podem pensar; até porque você vê, como eu, uma sociedade corrompida, completamente destituída de valores, que endeusa bundas e pessoas deploráveis, que vendem a própria alma e intimidade por um punhado de dólares e alguns momentos de duvidoso e ambíguo prazer... Você, como eu, vê o mundo em cores cinzentas, apesar de eu descrever a história de minha vida como uma coisa sempre alegre...

Assim como você, eu vejo muita frivolidade, muita tolice.

Apenas como um tolo exemplo descobri, hoje, que um vôo São Paulo Paris pode sair por 860 dólares. Todavia, há aqueles que, para esperar numa sala VIP, pagam 6.000 dólares, pouco mais, pela mesma viagem.

E eles nada fazem por seus semelhantes. Isso me amargura. E eu acredito que, em seu íntimo, a amargura também. Temos uma amargura em comum e ambos faceamos a morte muito de perto para temê-la outra vez.

Você não morrerá mais do mal que a assolou. Eu não sei ao certo do que morrerei. Pode ser que eu venha a terminar como aquela pessoa que eu te disse que vi esta tarde. Pode ser que Deus me premie com um acidente de carro, um atropelamento, algo rápido, que não doa muito...

De todas as formas, se perdemos o medo da morte, é imprescindível que mantenhamos a vontade de viver, o prazer de viver a alegria de viver para que possamos continuar a viver, com a intensidade mais vívida, os dias que nos forem dados.

Sei, pelo que li, que você se sente só. Eu também me sinto só. Muitas vezes impotente. Mas não desisto das pessoas. Sei que no meio deste mar de insanos há pessoas que valem a pena. E por dez delas Deus salvaria Sodoma e Gomorra. E nós temos muitas, basta ver este blog. Basta ver o seu.

Sorria menina. Aqui, você encontrou um aliado.

Beijos

Cau



Escrito por Ronin às 19:38:44
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Nao ha destino

Nestes dias em que venho adoecendo mais que convalescendo também tenho me aplicado em ler “UM” de Richard Bach; leitura recomendável a espíritos abertos e que já podem compreender o real significado da faixa de moébios (aquele oito deitado que significa o Universo, o Infinito) onde o ponto de cruzamento das linhas pode ser atravessado e, depois disso, você cairia numa tempo/universo alternativo...

É disso que o livro trata. Das inúmeras possibilidades que temos. De nossos egos alternativos, resultados de escolhas diferentes que faríamos e/ou fizemos que redundaram ou redundariam em outros fatos, outras vidas...

Isso, na minha vida, dá muito que pensar.

Se não fosse a Fátima, naquele prostíbulo, a se interessar por mim e me reerguer a condição de mínima dignidade humana, dando-me teto e trabalho, eu teria enlouquecido em poucos meses e me suicidado; eu tinha dezessete anos e pensava muito no suicídio por não suportar mais o frio e a fome. Mas foi minha a escolha: eu preferi enfrentar o frio e a fome por cinco anos a enfrentar a violência de meu pai... E, a bem da verdade, se é todo da Fátima o mérito por me reerguer, é verdade que é meu o mérito de ter escolhido entrar naquele prostíbulo àquela hora, naquele momento... Se eu não escolhesse isso, minha vida teria acabado meses depois e seria um livro triste e curto, com um lastimável epílogo...

Mas eu fiz uma escolha e encontrei Fátima, talvez em outro Universo eu não tenha feito a escolha e tenha enveredado pelo crime, não é de todo impossivel.

E durante a minha vida fiz muitas outras escolhas de tal maneira que as possibilidades alternativas formam uma miríade inconcebível. Se eu tivesse aceitado o suborno de Shirley, estaria morando na Vila Mariana, num respeitável apartamento, com dois ou três filhos, sem HIV, trabalhando em algum escritório da megalópole. E talvez, num destes Universos paralelos, realmente exista um Cláudio alternativo que vive exatamente esta vida.

Por outro lado, se eu não tivesse dito não àquela pessoa, não teria sido demitido e me tornaria um DJ famoso, trabalhando em Las Vegas, envolvido com drogas e prostituição, acumulando culpas que prefiro não ter.

E pode ser que neste momento estes dois egos alternativos estejam refletindo justamente sobre o campo das hipóteses, pensando em “quem seriam se não fossem...”

E uma multidão de “eus” alternativos estaria em cada um de seus universos pensando, agora, na mesma coisa.

Seguindo adiante neste raciocínio, eu poderia dizer que fiz nova e importante escolha quando recebi o diagnóstico positivo para HIV.

Escolhi viver a qualquer preço, mesmo que isso me custasse lágrimas e sangue. E, atesto, custa mesmo lágrimas e sangue. Lágrimas que eu derramo quando perco alguém para a AIDS ou quando morro de medo que “alguma coisa mais séria esteja me acontecendo”, e sangue que deposito todos os meses em ampolas que servem para exames de rotina... Se eu tivesse me permitido a derrota, estaria morto neste universo e não poderia ter o prazer de ver a mulher que tanto trabalha na casa em frente à minha janela, nem me aquecer ao sol de julho, sob o vento sul, numa situação contrastante que me faz vivo em todos os sentidos...

Mas eu poderia ter escolhido apenas viver, sobreviver e pronto. Não teria site com dezoito mil visitas mensais, nem lista com cento e oitenta pessoas e mais de dez mil



mensagens em três anos. E nem mesmo o texto que é meu depoimento de vida teria sido publicado, porque eu não o teria escrito, e ele não teria servido para nada e, ao que me consta, pelos e-mails que recebo, ele é fonte de força e inspiração para muitos... Eu, particularmente, acho que minha historia é uma historia comum, quase vulgar. Mas eu não posso me julgar ou dar testemunho de mim mesmo.

O que sei é que nada sei. Não sei como seria minha vida se aos dezenove anos eu tivesse dito a frase certa para Vera (eu disse a frase errada e ela me abandonou no dia seguinte) e como seria meu mundo, e o de vocês, posto que faço parte dele, conquistando-a para todo o sempre...

Sei que disse a frase errada, exprimi o sentimento verdadeiro de maneira incorreta e o coração não permite este tipo de incorreção. Pelo menos o coração de Vera não!

E tudo isso só foi possível porque eu, vinte e dois anos atrás, entrei em um prostíbulo e uma mulher marcada pela vida e pelo infortúnio se interessou pela minha história (é preciso pensar em quantas escolhas ela fez até chegar àquele ponto), fazendo com que a mesma mudasse da água para o vinho... É bem verdade que depois do impulso inicial dado por ela tudo foi esforço meu. Mas cada escolha mudava minha vida para melhor ou pior, que importa? Só sei que mudava e ainda muda.

Por isso, hoje, beirando aos quarenta anos, com uma expectativa de vida ambígua e duvidosa, procuro escolher com cuidado cada passo que dou...

E mesmo assim não consegui me isentar de erros. E estes erros me custam a paz d’alma e do coração...

Eu sempre me pergunto: E se...? E se...? E se...?

Mas acho que nunca obterei as respostas.

Apesar de, em meu íntimo, saber que já as possuo todas, em meus Universos e egos alternativos...

Será mesmo?

Está pergunta ficará sem uma resposta por toda uma vida. E quando vier, talvez eu não possa fazer nada com ela.

Mas de uma coisa eu tenho certeza: Não há destino



Escrito por Ronin às 19:37:11
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Daniele Monroe

E no meio daquilo que chamo de minhas lembranças está você, pequenina, mas interessante.



Era jovem, 19 anos, e eu não era muito mais velho, talvez 21, o que me livra de ser tomado por um tarado...



Tinha um nome sim, mas era de guerra, então posso contar: Danielle Monroe.



Não sei que tipo de delírio levou-te a pensar em ser uma clone da outra Monroe, mas paciência.



O que houve entre nós foi muito pouco.

Eram nove horas da manhã e eu estava, ainda acordado, no Studio 2000, que fechou depois de se tornar um antro de traficantes e drogados, vendo se “ainda pescava alguma coisa”



A noite tinha sido ruim, minha fama de cafajeste já se espalhara por todo o quarteirão e cada nova conquista dependia de uma lábia cada vez maior e mais bem aplicada.



E às nove horas da manhã, lá estava você.



Certamente a sua noite também tinha sido ruim, pois se tivesse sido boa não estaria no 2000 às 9 horas da manhã...



Então juntou-se a sua noite ruim e a minha noite ruim e fez-se um dia bom.



Na noite seguinte quem trabalhou foram meus dois gravadores, só rodei fitas, tamanho o cansaço que me afligia...




Mas foi um dia bom.



Pelo menos para mim.



O que me intrigou muito naquela época e intriga até hoje é que você sequer tornou a me procurar, não quis repetir o dia bom.



Confesso que, naquele dia, me senti meio que ofendido, meio que usado... Mas depois fui compreendendo, e prefiro acreditar que seja assim, que você era como eu, Nau sem Porto, e que preferia outras enseadas.



Ver-te, vi muitas vezes. Mas nunca mais nos falamos. Trocamos olhares e sorrisos, mas nunca mais nos tocamos...



E assim fica registrada a história de uma noite ruim para duas pessoas que redundou em um único dia bom do qual eu não me esqueci.



E você, se lembra?



Não imagino sequer por onde anda, haja vista que sua passagem pelo quarteirão da Bento Freitas não durou mais que algumas semanas.



Espero que algo de bom tenha te acontecido e que tua vida tenha sido mudada como num passe de mágica, como às vezes acontece para quem vive na noite.



Espero que você tenha conseguido sobreviver e ser feliz.

E, por que não? Que ainda se lembre de mim e daquele nosso único dia, daquela mesa quebrada que não suportou nossa loucura e da galera do prédio em frente, quase aplaudindo, porque esquecemos a janela aberta....



Dani Monroe... um brinde à sua saúde

Escrito por Ronin às 19:36:31
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entender o mundo

Algumas vezes eu procuro entender o mundo. Só para constar, a casa da mulher que nunca para de lavar roupas está completamente às escuras. Deve ser por causa do culto que vi em uma certa Igreja aqui perto. Tenho a impressão que vai ser uma noite de vigília, sabe Deus porque...

Mas entender o mundo é muito complexo. Melhor eu tentar começar por tentar entender a mim mesmo. E é o que tenho feito com algum empenho já há algum tempo sem muito sucesso. Por isso, aliei aos esforços de minha psiquiatra uma psicóloga: Éline.

E pela primeira vez consegui me entender com uma psicóloga. Cheguei à terceira consulta. Não que as outras fossem más em seu ofício de deslindar almas. Eu é que não me adequava a elas e, assim, raramente ia à terceira consulta.

Com Éline, está sendo diferente. Éline consegue me ouvir com os ouvido e a alma. E consegue compreender um pouco do que se passa nesta tempestuosa alma que vos escreve besteiras o tempo todo para dar vazão à própria inquietude.

Assim, começo a entender que a minha corrida louca pelo sexo não era mais que uma busca inconsciente pelo afeto que me foi sonegado em anos e anos de vida nas ruas. E, mistério dos mistérios, eu abandonava as fontes de afeto, com algumas exceções, imediatamente após receber o afeto.

Esta era a minha forma de vingança simbólica contra quem me sonegou afeto, amparo, abrigo, carinho e todas estas coisas miúdas que fazem parte das nossas necessidades mais básicas...

E de vingança em vingança, de crueldade a crueldade, eu enchi um vale de lágrimas...

Todavia, eu não sabia o que fazia. Apenas fazia, mecanicamente, o que meus instintos mais básicos ordenavam.

Desta forma criei, para mim, uma multidão de fantasmas emocionais e um labirinto de hipóteses.

Eu fico preso, por mim mesmo, ao campo das possibilidades.

“E se...?”

Como teria sido, se não fosse. Dizem que o futuro do pretérito a Deus pertence.

E Deus, que tem me socorrido das mais variadas formas, me sonega esta resposta. É justo. Um pai ensina a seu filho apenas aquilo que ele julga que o filho possa assimilar sem choques...

E, pelo visto, ainda não estou pronto para as respostas. Até porque são muitas as perguntas e as respostas, temo, não serão, sempre, agradáveis de se ouvir ou constatar.

Éline e Valéria, minha psiquiatra, me chamaram à atenção para um fato simples: Porque eu vivenciei a coisa como uma tragédia moral, não significa que a outra pessoa assim o sentiu. Talvez, para ela, não represente nada. E esta é uma grande verdade. Entretanto, há aquelas que me deixaram claro que eu fui o desastre de suas vidas. E o fizeram com palavras e atos (a maluca que se jogou do segundo andar de um prédio e está paraplégica é uma destas; e é uma culpa da qual não posso me eximir: eu dei curso àquele gesto).

Estas, por menos que sejam, já me pesam muito e, para que eu deixe a consciência menos suja é preciso que eu faça muita coisa pelo mundo que não consigo entender.

Mas, como já disse, é preciso, antes, que eu entenda a mim.

E parece que começo a me compreender. Hoje sei porque consigo amar meu pai que me espancava e não consigo perdoar minha mãe que me abandonou: Eu e ele temos algo em comum: Nós dois fomos abandonados pela mesma mulher.

Ele a chama vagabunda. Quando ele disse isso repliquei que ele dormiu com ela 10 anos.

De alguma forma a defendi. E muitas vezes tentei algum contato, alguma forma de restabelecer os laços entre ela e eu mas, infelizmente, ela não correspondia a nenhum movimento. Ao fim de tudo, esgotado emocionalmente, dei a ela a mesma moeda que me dava sempre: A indiferença.

O último gesto que tive para com minha mãe foi transferi-la de um hospital precário (depois de uma briga infernal onde ameacei a diretoria do hospital com o Conselho Federal de Medicina) para o HC, onde a deixei para salvar-se ou morrer. Dei à minha meia-irmã Cecília uma dúzia de números de telefone e vários endereços de e-mail. Nunca soube o que aconteceu. E nunca mais procurarei saber.

Fica entre ela e Deus. Posto que acredito em Deus.

Enfim, começo a me compreender e, ao que parece, isso é bom.

Sei que é apenas a terceira consulta, o terceiro diálogo e que muita coisa ainda vai sair desta cabeça... Sei, também, que vai doer. E avisei a Éline que cuide bem disso, pois é meu Universo Interior que estará sendo aberto para ela. E muita coisa vai doer barbaramente.

É a dor de viver; curioso é que a vida não precisa ser dolorosa, mas para mim dói...

Não há semana em que eu não pense em suicídio como alternativa válida para o “porvir”... Sei como acabam as pessoas que vivem com o que eu vivo. Hoje vi mais uma delas, uma ruína humana em condições deploráveis... E eu sempre me pergunto quando será a minha vez. E como será a minha vez. E quem estará comigo quando for a minha vez. E se eu poderei suportar com dignidade e honradez os últimos lances do meu jogo...

Não tenho resposta para estas perguntas. E tenho tantas outras perguntas a fazer...

Tomara que eu tenha tempo, ao menos, de me compreender.

Assim, pelo menos, minha passagem pela Terra não terá sido vã.

A casa em frente à minha janela continua apagada...



Escrito por Ronin às 19:35:45
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Alerta aos incautos

Perdi minha consulta no INCOR. Por ter acordado as 4 da matina sem razão plausível acabei não dando conta de sair de casa às seis da manha. O INCOR ficará mais alguns dias sem saber como vai a minha taxa de colesterol e glicose em meu sangue. Azar o deles.

Mas hoje à tarde nova sessão de análise com minha terapeuta Éline.

Eu prefiro a terapia às agulhadas, a terapia as vezes dói mais, mas os resultados são mais proeminentes...

Foi na terapia que eu descobri muitos “comos” e “porquês” de coisas em minha vida.

E foi na terapia que ganhei forças para mudar alguma coisa que andava errado e que ganhei consciência que, no fundo, no fundo, eu ainda tenho conserto, apesar de custar caro. Reduzi minhas culpas, deixei de me julgar tão ferozmente e me condenar por coisas que eu fiz sem consciência ou maldade e que só o tempo poderá ajudar a apagar ou redimir...

Foi lá, com Éline, que ganhei forças para dar continuidade a minha vida tão sem graça de uns anos para cá...

E como valeu a pena!!!

Só este blog, em uma semana, já me rendeu tantos amigos que está valendo muito mantê-lo no ar, mesmo com uma ataque aqui ou outro ali.

Por falar nisso, atacantes de plantão, eu já conversei no UOL e o IP de vossas senhorias é rastreável. E à partir dele o numero do vosso telefone. Ai já viu, processo na certa.

Se você for menor de idade, pouco se me dá, pois papai e mamãe vão responder por seus atos, e talvez você tome uma surra de cinta, coisa bem merecida.



Escrito por Ronin às 19:33:57
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A nau sem porto

Vivi trinta e oito anos, quase isso, para descobrir que sou como uma nau sem porto. Triste ofício, dirão alguns.



Não direi se concordo ou não. Direi que mais triste é viver à procura de um porto se tudo o que se precisa, enquanto nau, é do mar. Não quero com isso dizer que não toco terra firme; sim, vez por outra aportei nas villas de algumas damas, onde até me iludi e julguei ter encontrado a estação de meu destino. Juras de convivência eterna, como se isso fosse amor eterno; quimeras!



Há pessoas que são assim: procuram um lugar, um alguém, fincam lá sua bandeira e atravessam a vida com seu barco atracado, a quilha sendo tomada por mariscos, a madeira rangendo, como que a reclamar a falta de léguas, e que esperam o tempo passar para que este resolva os problemas da vida, desaguando na morte. E terminam suas vidas amarguradas, pensando num possível por¿do-sol perdido em Capri (algumas de minhas mulheres foram como Capri; outras me lembraram muito a Finlândia), na praia daquela ilha distante, nunca vista, porque se optou por um porto seguro (é imperativo lembrar que o mais seguro dos portos não suportará uma Tsunami).



E em nome de um amor que não conhecem, perdem a própria vida no anseio da posse, do poder e do controle sobre outra alma, tão livre quanto a sua, tão temerosa de tudo como qualquer outra, tão ansiosa de liberdade, felicidade e alegria como qualquer outra... Estes, que vivem com suas naus atracadas a portos não poderão jamais compreender àqueles outros e outras que preferem o mar, a tranqüilidade temporária de uma baía, uma enseada, alguns momentos de alegria junto à pessoa amada e o re-encetar da caminhada, mar adentro, ciente de que ama e é amado.



Esta consciência, de ser amado, é a melhor, talvez a única bússola de quem navega sem um porto especifico como destino. Deixamo-nos levar pelo sabor do vento, pela puxada das marés, atravessamos noites densas de saudades, muitas vezes não dormimos direito, não temos paz em nossos sonhos, os anseios de carinho nos fustigam a alma, nos enlouquecem o espírito, mas nos sabemos amados, e isso nos faz com que prossigamos, mesmo sem um porto possível.



Amanha, pensamos, é outro dia. E neste outro dia há sempre uma leve ponta de esperança. Talvez minha nau se encontre com aquela outra, talvez não. Que importa?



A Nau sem Porto, parte 2 de três


Mas se nos encontramos, aí, Senhor, como é bom, tudo é alegria; um abraço imenso, do tamanho do mundo, um beijo só nosso, em qualquer lugar, alheios a tudo e nada mais importará:



Uma pequena pousada, um modesto quarto de hotel no baixo meretrício de uma grande cidade, um quarto em uma hospedaria, alguns dias de loucura e silêncio, isolados do mundo, ignorando a tudo e ignorados por todos, nós nos amamos intensamente e recuperamos, sempre, a forças necessárias para seguir viagem.



Quando nos deixamos, não há um adeus. Quando muito, um até logo (I see you when I see you); algumas lágrimas mal contidas; a vida nos chama, nos cobra atitudes, exige que prossigamos até que possamos nos ver novamente.



Muitas vezes temos aquela impressão de que a vida nos trairá e que nunca mais nos veremos; aí, sentimos aquele medo terrível, aquela angustia inconcebível. Mas o chamado da vida é forte demais e, mesmo com medo que esta mesma vida nos atraiçoe, fazendo com que desapareçamos para sempre, um do outro, arriscamos nosso barco pequenino, mas aconchegante, sobre a interminável, imprevisível sucessão de ondas altas e baixas que formam as nossas vidas.



Não somos tolos; nem crianças. Sabemos que cada um de nós vai encontrar outras pessoas, atracaremos em outros portos, para derramar as lágrimas de outras pessoas (lamentaremos muito cada uma destas lágrimas) e que sempre seguiremos adiante, até que o acaso ou a saudade nos obrigue a nos encontrarmos, se a vida permitir; valemo-nos sempre de sabermos que ela o tem permitido até aqui.



De repente, na calada da noite, soa o telefone, como uma grata surpresa e a voz do outro lado diz:



Oi! Estou a caminho. Quer me ver?



E o coração da um salto. E você disfarça a ansiedade e diz. ¿Sim! Como não quereria?¿



Outras vezes, é um simples e-mail, o numero de um PTA e um pedido, uma suplica, uma ordem:



"Embarque amanha, na direção desta ou daquela cidade, te espero ansiosamente..."


E largamos tudo, dane-se a maldita e caprichosa vida com seus desígnios, já estamos a caminho.



E novamente nos encontramos, nos amamos, nos exaurimos e nos deixamos, com outro até breve.



Cada um carregará em si o mesmo medo:



"Será que não a (o) verei novamente?"



E vacilamos no abraço, que se prolonga interminavelmente, como se fosse o ultimo, o inapelável ultimo abraço. Não será, sabemos disso; talvez não... Sabemos ou esperamos que nos veremos muitas vezes, porque este é o nosso destino:



Não ter destino.



Sempre uma foto na carteira, um porta retratos na mesa, um modesto pôster na parede. Se alguém entra em nossa nau olha, com despeito, aquela imagem, como se fosse uma afronta; não nos perdemos em explicações:



"-Quem é?"

"-Uma pessoa querida", esta é a resposta lacônica e pouco mais se dirá sobre isso.



E que é assim, caminhando pela vida, sem destino, num mundo aparentemente tão grande, que nos encontraremos em cada esquina. E mesmo nas horas mais criticas, onde haja ate mesmo um perigo maior, daqueles meio sonsos, como um pivete com um punhal que te pede um trocado, ainda nos lembraremos do outro, e tudo faremos para que possamos prosseguir... Porque sabemos que precisamos um do outro.



Abençoado é o mundo porque tem telefone, e-mail, Pager, celulares e até mesmo tambores... São estas as coisas que fazem com que nos encontremos sempre.



Um simples “BJ”: às quatro e quarenta e dois faz com que nos sintamos amados, porque fomos lembrados; outras vezes, um imenso sinal: ¿Te amo.¿ E não há vento forte, onda alta ou nevoeiro que possa obstruir a nossa alegria



O que mais pode esperar da vida um homem ou mulher que escolheu caminhar só?



Nos amamos; sabemos disso. O resto não e nada.



Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar
Ando tão à flor da pele que teu olhar, flor na janela me faz morrer
Ando tão à flor da pele que meu desejo se confunde com a vontade de nem sei...
Ando tão à flor da pele que a minha pele tem o fogo do juízo final

Zeca Balero


Escrito por Ronin às 19:33:16
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Domingo , 25 de Janeiro de 2004

Minha visao em outro lugar que morei

No apartamento em que eu moro tem um arremedo de varanda. Na suposta varanda tem uma rede. Esta, eu não uso. Costumo dizer que rede é coisa para quem está com a vida ganha; e este não é o meu caso. Deixo a rede para as amigas que aparecem por aqui quando o tédio ou a saudade ou mesmo as dévidas sobre a minha permanência na Terra as assaltam.

Da varanda eu vejo alguns prédios e muitas casas. O bairro é pobre. Os prédios são de classe média baixa (ou eu não estaria aqui). Entre os prédios e casas eu vejo ruas, carros, pessoas e, para servir de pano de fundo a tudo isso uma serra, cujo nome eu não sei (se soubesse eu não seria Cláudio). Catorze andares abaixo de mim vejo uma quadra de futebol de salão cuja pintura esta desbotada como eu; só que tem mais utilidade.

Agora pouco estava lá, vendo um grupo de adolescentes se divertindo com bolas e skates na quadra de futsal quando me chamou a atençao um casal. Foi ai que descobri que em quadras de futsal também se pratica este esporte perigoso, mas fascinante, chamado amor. Estão no auge de sua paixão juvenil. Não ficam dez segundos sem um abraço, um beijo, um afago. Ela se derrama sobre ele. Ele a recebe como quem recebe a própria essência ...

É natural que seja assim. Tem 15, talvez 16 anos e a vida (e os hormônios) pulsam loucamente dentro deles.

A inexperiência. A descoberta do prazer. A descoberta da paixão. O prazer de sentir a pele tocar a pele do outro.

Tudo isso inunda este casal que vejo do alto da minha varanda improvisada.

E, confesso, tenho alguma inveja deles. Eu não tive adolescência.

E, mesmo assim, eles me trazem recordações. Houve, na minha conturbada vida, um tempo-sem-fim em que tudo era assim, uma explosão de sentimentos, descobertas, prazeres.

Alegria de viver!

Sim! Exatamente isso! Eu sentia alegria em viver e não percebia... Como era tolo!!!

De toda forma o velho sempre abre passagem para o novo. E o novo estava ali, bem diante de mim, no dia 12 de março de 03.

92 dias depois de você ter me dito adeus e nunca mais ter aparecido.

2208 horas sem uma palavra sua; sem uma notícia, sem um que qualquer. Sem nada.

E mesmo assim, eu continuo te amando e não posso negar isso diante de mim ou do mundo; e evoco os Céus por testemunha da minha saudade, da minha angústia, da minha solidão.

Seria fácil para mim pegar este texto e botar num e-mail e mandar para você.

Mas eu o deixo no blog e deixo isso à mercê do acaso que muitas vezes me protegeu por eu andar distraído... Acho que meu maior erro foi começar a prestar atenção na vida e no mundo. Eles não perderam a chance de me ensinarem lições mais duras e, naturalmente, ainda derramo minha cota de lágrimas...

Quando vi o casal de adolescentes os observei prolongadamente. Choveu e eles permaneceram na quadra. Que importa uma chuva a quem ama?!

Mas, honestamente, eu não via o casal. Eu sonhava; e sonhava conosco, ali, já na dita idade madura (risos) fazendo as mesmas estripulias. Sonhava com teus beijos, abraços, carinhos e afagos...

Mas, como a vida só me deixou a alternativa do sonho intangível, a realidade me chamou através de uma campainha de telefone (muitas vezes penso em jogar meu celular no aquário...) e quando voltei à varanda já se fazia noite e não havia sombra do casal.

Melhor assim.

Que se amem enquanto possível. Sei, de ante-mão, que a vida deles ainda vai sofrer muitas reviravoltas, que muitas coisas ainda vão mudar e que a vida pode fazer com eles o mesmo que fez conosco: abrir um abismo intransponível.

Então, minha querida, eles acabarão sendo como nós, que tivemos mais que muitas pessoas puderam ter e, infelizmente, perderam tudo para a vida e o destino que fazem de nós o que bem entendem e depois deixam duas alternativas: rir, ou chorar.

As vezes eu sorrio de felicidade com alguma lembrança. (lembra aquela noite que eu estava em um hotel e conversamos a noite toda por telefone até que a linha cruzou com a de um argentino? Pois é... eu me lembro do quarto do hotel e da tua voz mansa e meiga por toda uma noite). Outras vezes eu choro, desesperado, as saudades que tenho de ti.

Choro copiosamente, como uma criança e fica difícil explicar ao mundo que é ¿a depressão¿... (ainda bem que eu tenho este álibi).

E assim vivo, minha amada, contando dias, horas e minutos sem você.

Quem sabe um dia?

Quem sabe?

Quem?

Deus.



Escrito por Ronin às 19:32:04
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Bww, Jackie ou faz zum zum

Deixo sempre por conta do winamp o que eu vou ouvir durante o dia.

Tenho mais de 4000 arquivos dos mais variados estilos e às vezes sou surpreendido por uma música que eu nem lembrava que tinha.

Assim acabei ouvindo "A namorada que sonhei, com Nilton César".

Foi a música que eu mandei para a Jacqueline ou Bee (faz zum zum) alguns anos atrás quando flertávamos por ICQ e telefone.

Ela queria algo real.

Eu estava preso a algo real.

Assim era comum racharmos e ficarmos dias sem nos falar.

Mas eu estava sempre de olho para ver se Jackie aparecia. Quando aprecia eu buscava a paz. Outras vezes ela buscava a paz.

Tinha história a minha Jack; participou dos movimentos contra ditadura militar quando moça e, depois de adulta, pegou um jipe e foi, sem carta de habilitação, até a Patagônia!!!

Como tenho inveja da coragem da Jackie (toda hora grafo o nome dela de uma forma diferente porque ela era assim volátil, quase que intangível); quem me dera ter tamanha coragem e enfrentar barreiras e mais barreias policias com a finalidade única de ver a Terra do Gelo e do Fogo.




Vivia no Sul do Pais e não vou precisar o estado porque coincidências acontecem e eu quero evitá-las. O que eu penso é que o grande detrator de nosso affair foi a distância.

Não fora a distância e eu teria ido até ela que, por alguma razão inexplicável (sem legendas, eu sei o porque), desapareceu nas estradas da vida e nunca mais a vi...

Aqui, agora, soa o trem das sete, com Raul Seixas...

Não sei o que soa na vida de Bee; mas, sinceramente, desejo que soem cânticos de felicidade e que ela possa ter me perdoado a inconstância e falibilidade...

O Céu, Jackie, muda a cada instante e, no fim das contas, eu vim a conhecer meu verdadeiro amor em outras plagas, nós não teríamos sido felizes. É fato que não pude tê-lo como gostaria, mas posso amá-la (ela) como bem entendo.

Jackie, você e eu, por tudo o que vivemos só podemos dizer uma coisa:



"Gracias a la vida"



Escrito por Ronin às 19:31:19
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Nem tudo eram flores

Teve o caso da Dora, por exemplo, que era uma garota lindíssima.

Eu não vou gastar o tempo de vocês descrevendo uma moça bonita pois não adianta mesmo. O fundamental é que ela tinha longos cabelos e usava-os frisados como as hippyes.

Dora era de uma simpatia sem comparação possível, cordata, agradável, um tanto zoeira, mas muito bacana de se conviver . A Dora tinha muitos namoricos mas não levava nenhum a sério. Estava na noite para fazer sua vida (devia ter 22 anos) e curtir a própria noite; não queria compromisso. Quanto a mim, ela dizia que eu já tinha rolos de mais para precisar dela também. Ficávamos amigos e eu dizia quem sabe um dia... E ela respondia é... quem sabe....

Destes muitos namorados que Dora teve houve um que não soube compreender ou respeitar o modus vivendi de Dora e começou a persegui-la.

Uma pegação no pé sem fim, telefonemas, escândalos na porta da boite, choros, porres e, antes que a coisa saísse de controle, demos um coro nele para que ele sumisse de uma vez por todas. Nada muito sério, mas o bastante para fazê-lo pensar duas vezes antes de voltar à Rua Bento Freitas.

Passou o tempo e esqueceu-se o assunto. Dora continuou sua vida, linda, com um sorriso no rosto e todos respiraram aliviados. Sabíamos que paixonites agudas são perigosas e o sumiço do cara era um grande alívio para todos.

Mas o sumiço não durou muito.

Numa noite infeliz ele apareceu, lá no quarteirão que fazia esquina com a Marques de Itu e ficou a espera dela, que vinha sempre do Largo do Arouche.

Cercou-a.

Ela estava com uma amiga que rapidamente se desvencilhou dele e correu em busca de socorro...


Quando chegamos, ela caída ao solo, gemendo. Disse que ele tinha dado um soco no abdome dela e que doía muito.

Levamos a à Santa Casa.

Ela deu entrada por volta de 20:45.

Faleceu com hemorragia interna por volta das 22:50.

Nunca conseguimos encontrar o desgraçado que a matou.

Segue no mundo, impune, com um grande acerto diante de Deus.

Se tivesse caído em nossas mãos, rapidamente o teríamos despachado para Deus. Sorte dele.

Dora morreu na flor da idade, com toda uma vida pela frente, porque alguém não sabia amar o bastante para renunciar.

Se tivessse acontecido só uma vez, com a Dora, eu ainda me conformaria. Mas isso acontecia de muitas formas, muitas vezes e quase nada poderia ser feito para evitar.

A vida, na noite, podia ser romântica, mas era um bocado perigosa...

Escrito por Ronin às 19:30:25
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Pipas

Hoje à tarde sai de casa, tinha alguns compromissos, e precisei sair. Deus sabe o quanto gosto de ficar em casa e o quanto me custa sair.

Mas compromissos são compromissos.

Estamos no meio de julho, férias escolares, crianças nas ruas, vento sul, pipas...

Estava me encaminhando para o terminal de onibus quando olhei para um céu imenso e azul pontilhado de pipas! Num daqueles transportes fantásticos me lembrei dos dias de criança, em que tudo me agradava e tinha particular prazer em empinar pipas. Fiquei ali, olhando, quase sem respirar... As manobras, a estratégia de ataque ou fuga, os primeiros ensaios bélicos... Meninos... Futuros homens...

Eu me lembro bem que era uma guerra insensata (hoje eu vejo que era insensato) por um espaço no céu, quando havia céu para todos. Cada manobra, cada movimento, cada derrota, tudo tinha um gosto especial, um gosto de vida, o sol quente batendo no rosto, o vento frio arrepiando a pele, mas a luta pelo céu se pertuava por todo o mes de julho em todos os anos de minha infância. Aprendi, com o tempo, uma tática bastante interessante: Eu procurava ficar à margen dos combates, atento, observando cada movimento no céu. De repente, uma daquelas belonaves de papel era abatida e eu manobrava a minha, com destreza, rapidamente e amparava a nave abatida. Passava a ser minha propriedade. Eu me tornei um pirata dos céus.


Não era fácil, preciso valorizar isso; muitas vezes haviam outros, tambem atentos às minhas manobras, e muitas foram as vezes que fui abatido em plena caçada.

Mas éramos crianças, e tudo tinha o sabor de infância. Mesmo os chutes e tapas acabavam em gargalhadas...

Eu me lembrei de tudo isso enquanto olhava os pipas no céu e os meninos naquele gramado.

Foi ai que aconteceu algo. Em meio àqueles meninos eu vi um que me parecia familiar... Custava me a crer nisso, mas eu via a mim mesmo com 8 anos, correndo entre aqueles meninos... Olhei intensamente e ele me pressentiu, parou e me olhou à distância.

Foi um confronto. Um abismo de quase tres décadas nos separava, Ele, todas as promessas; eu, uma história sem fim...

Olhei para ele com um misto de saudade e tristeza, ele me sorriu com um misto de perdao e compaixao. Depois disto, tornou a ocupar - se de seus brinquedos e, como num passe de mágica, sumiu... Era uma ilusão...

Saí dali tropego,olhos marejados, mas de cabeça erguida. Quem já me viu chorar sabe que me esforço para chorar de cabeça erguida. E de cabeça erguida vi, diante de mim, um horizonte imenso, um sol dourado e a promessa de um futuro que pode ser melhor, se todos trabalharmos para isso.

Acho que estou ficando velho...



Escrito por Ronin às 19:29:49
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O dia D de Gabi

Outro dia contei para uma amiga a maneira como Gabi me conquistou.

Hoje farei isso com vocês.

Era um tempo em que a noite rendia muita grana e, no meu caso, muitas mulheres.

Acontece que eu havia notado há ali uma garota especialmente bonita, olhos escuros, cabelo a la Channel, 59 quilos generosamente distribuídos por 1.73 de estatura que se chamava Gabi. Este é o nome que ela terá para vocês e ponto final.

Eu já a havia notado, mas estava enrolado com 4 garotas e uma quinta não caberia nisso tudo. Para dizer a verdade eu estava párea lá de enrolado, pois a cada dia tinha de contar uma historia e lembrar para quem contei a história. O cerco estava se fechando e eu não poderia criar outro laço sem trazer uma ruína ainda maior a minha vida de conquistador barato. Então ficava no flerte, na troca de olhares, nos sorrisos e na distancia mantida com saudável equilíbrio...

Eu já havia notado algum interesse dela, mas o que veio atrás disso foi impressionante.

Eu trabalhava no La Concorde (tinha duas saídas o La Concorde, uma, extra oficial, era a que me dava liberdade para me movimentar em noits de fuga...) e já eram cerca de quatrop e meia da manhã quando resolvi tomar um café no bar do seu Chico quando um garçon, o Jacaré (ele chamava todo mundo de jacaré e virou jacaré) me disse:

¿Não vai lá fora não, as coisas estão ruins pra você... tem 4 lá fora querendo entrar para te pegar aqui dentro...¿

Não arrisquei. Fui a um ponto do salão e esperei a porta ser aberta. Ai, pelos espelhos, eu vi minhas 4 namoradas reunidas, uma delas com um enorme cinzeiro na mão, vociferando contra mim...

Telefonemas urgentes, providencias impreteríveis e um DJ amigo se encarregou de encerrar a noite.

Saí pela porta dos fundos e, curiosamente, já havia um táxi me esperando.

Entrei e disse: Me tire daqui!

O carro saiu rápido, quase cantando pneus, andou duas quadras e parou. A porta direita traseira do carro abriu-se e Gabi entrou com um sorriso no rosto.

Perguntei a ela o que estava fazendo ali e ela me disse:

Estou te salvando...

Pensei: Como ela poderia saber que eu precisaria ser salvo? O rsto eu entendi em um segundo. Ela tramara tudo.

Assim começou um romance tórrido que durou três anos e alguns meses.

Se você me perguntar, Gabi, se fui feliz com você, não tenha duvidas, eu fui muito. E fico muito feliz por ter sido _vítima_ de sua cilada.

Beijos

Claudio



Escrito por Ronin às 19:29:15
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Uma pixação

Faz muitos anos que eu li; aliás, tenho notado que a maioria das coisas que eu escrevo se referem a coisas vistas ou acontecidas há ¿muitos anos...¿ Eu sequer cheguei aos quarenta e já tenho esta nostalgia crônica... Mas, voltando ao assunto, era uma pixação, em algum lugar, no Ibirapuera, menina dos olhos de todo bom paulistano como eu.



Estava escrito assim:







AMAR É TER NA MENTE



AMAR ÉTER NA MENTE



AMAR ENTERNAMENTE



AMAR ETERNA MENTIRA.







Faltou a pontuação. Deixo por conta de quem pixou ou de quem vai ler.



Mas há um fundo de verdade neste escrito. Amar é ¿ter na mente¿.



É ter na mente a pessoa amada e querer sempre estar perto dela, mesmo em noite de tempestade de granizo, em baixo de uma marquise; é ter na mente que a pessoa amada logo vai chegar e tudo vai ser luz e alegria, felicidade e paixão; assim, chegamos ao éter na mente; este estado de loucura que deixa as pernas bambas só de pensar na pessoa amada que está cinco minutos atrasada numa cidade que tem congestionamentos de 200 quilômetros é resultado do torpor do desejo egoísta de querer estar sempre perto da pessoa amada, a qualquer preço, pelo maior tempo possível... Quando a pessoa chega, cansada e abatida, somos uma festa e festejamos o encontro com uma jura de ¿amar eternamente¿.



E aí, sim, chegamos, fatalmente, à eterna mentira.



Ora, direis, és um desacreditado do amor. E responderei a vós que nada sabeis de mim, que muitos mares singrei e em nenhum deles encontrei este porto seguro com que sonhais... Por isso escolhi ser nau sem porto.



Sabei, bando de tolos, que o amor é uma quimera que se desfaz em uma desilusão.



Que o mesmo vento que leva as folhas de outono também leva o frescor de um beijo e, com ele, toda a paixão que chamais ¿amor¿...



Sabei, crianças, que o amor com que sonhais é como um rochedo à beira mar. Pode levar tempo, mas se tornará em pó e sumirá sob as águas.



Poeira e sombras; sombras e ilusão, ilusão e angústias, angústias e dor, dor e sofrimento, sofrimento e loucura, loucura e... O circulo nunca se completa, até que...



Até que surja ¿novo amor¿ e a alma ainda despreparada coloque na mente que ama, que ama, que ama e ama de verdade, que desta vez é pra valer...



Entre viver assim e ser um nômade neste deserto chamado Terra, caminhando de um oásis para outro, fico com o nômade, que é feliz com a caminhada, a luz do sol para iluminar o dia e a das estrelas para orientar na noite...



De todos os portos em que atraquei trouxe comigo rancores ou saudades, da mesma forma que deixei saudades ou rancores; e de todos eles recebi a mesma lição:



O que vale a pena, mesmo, é navegar neste mar de ilusões.



Escrito por Ronin às 19:28:43
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Reminiscências

O que pode se dizer de um dia que começa às sete e meia da manhã e insiste em durar até as 3:15 da madrugada?

Pode - se dizer que não é dia de boa família. Um dia de boa família começa às cinco da manha e acaba as dez da noite.

Parece-me que os dias de boa família têm me abandonado; creio que não me farão falta, visto que não sou mesmo de boa família.

Ah!!! Bons tempos estes em que haviam "boas famílias".

A boa família levantava cedo, com o cantar do galo e dormia muito cedo, logo depois das galinhas.

Lembro - me que, quando criança (alerto a todos que fui criança), estive em um destes sítios de onde não se deve arredar o pé jamais.

Faz muito tempo, e as reminiscências destes dias se apresentam difusas, meio que acinzentadas (um dia hei de explicar a todos este meu mecanismo de memória que não lembra o que comi ontem mas guarda filmes coloridos do que se passou anos atrás e que vai perdendo as cores, conforme o tempo os afasta, como numa aquarela...)

Lembro - me de um cata - vento que girava sem parar, pois ventava sem parar, que servia para bombear a água de um poço.

Era muito alto este cata - vento e foi preciso uma equipe para me resgatar lá do alto. Sempre atrás da já referida cidade (aquela, de algodão doce, nas nuvens)...

Houve muita imprecação, muito riso, muitos cascudos, pois tal aventura poderia não ter acabado muito bem.

Lembro - me vagamente de um queijo imenso, que devorei com a simpatia de todos, pois era um menino e meninos devem comer queijos à revelia.

Havia também alguns cachorros. Todos imensos, maiores que eu, ótimos para cavalgar; alguém tentou me introduzir um potro como meio de locomoção. O potro não gostou de mim e eu, dele, muito menos. Os cachorros, não sei porque, talvez por reconhecerem em mim um "filhote" tinham desvelada paciência em me suportar os 12 quilos, talvez mais.

Mas eram hábeis estes danados. Ao fim da tarde, uma senhora que não me vem o nome à memória, chamava - os e dava uma ordem.


Era iniciada uma verdadeira caçada. Eles agiam em grupo, para espanto de todos e minha completa indiferença de menino, separavam um frango cuidadosamente, cercavam - no, apanhavam o infeliz e, pouco depois, ele estava na panela...

Mas houve, em tudo isso, algo muito interessante.

Este que vos fala, não tendo nada a fazer senão "meninear pela ai" decidiu - se a perseguir pintinhos, todos minúsculos e piantes, rápidos, inalcançáveis...

Lembro me bem disso, agora, e posso me ver, como se eu mesmo estivesse atrás de mim, filmando aquela cena em que um menino, eu mesmo, ziguezagueava de um lado para o outro atrás de pintinhos. Havia um chiqueiro por ali, pois me lmebro de porcos, e havia cavalos também, pois me fora apresentado um potro; acima e tudo isso, havia uma galinha, Mãe de Todos os Pintinhos que, indignada com minha perseguição a Seus Filhos, partiu em meu encalço, asas abertas, buscando equilíbrio, e cacarejando como louca.

"có có có có có có có".

Inútil dizer que no mesmo ritmo que perseguia fugi, esbaforido, buscando abrigo em minha mãe.

Houve um confronto. Eram duas mães, muito diferentes, é claro, ambas interessadas na proteção de seus rebentos.

Creio que houve um acordo mudo entre ambas:

Mantenha seu filho longe dos meus e eu não bico o seu.

Foi um acordo justo e a única parte que não foi cumprida foi a minha.

Três e meia da manhã. Daqui a pouco alguns galos começarão a cantar, impondo seus desígnios a multidão que vive em volta deles.

As boas famílias estarão acordando em seguida, ordenhando vacas, fazendo manteiga, assando pão...

É tempo, preciso dormir, ou vou escandalizar as boas famílias....



Escrito por Ronin às 19:28:00
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Varais cheios

.A mesma janela gradeada que me mostra a lua mostra também meus vizinhos, estes anônimos. E eu fico com uma pergunta: Senhor! Que tanta roupa lava aquela mulher que eu nunca vejo aqueles varais vazios?

Deve ser uma plêiade a população daquela casa, que é enorme e tem um quintal desmesurado. Pena que o quintal seja todo encimentado, sem vida. E mal encimentado. Aquele cimento rústico que rala as crianças quando elas caem (é oficio de criança correr e cair).

Ou será que é mais que uma família? Afinal eu não tenho uma visão privilegiada da casa e pode muito bem ser um arremedo de cortiço, com três famílias... Mas, e os varais, quem domina e controla os varais?

Há uma varanda grande, dando para os fundos, com uma mesa enorme, seis cadeiras, e devem jantar ali fora em noite tépidas de primavera, quando há primavera.

A mulher que vejo agora, visivelmente trajada com a discrição de uma evangélica tem um jeito sisudo de governanta feroz para, olha e volta para dentro da casa.

Não, o que ela procura, certamente uma criança, não está no quintal.

Agora vejo que ela empurra uma cadeira de rodas; nela, uma pessoa indefinível, cabelos completamente brancos, “esquentando sol”; a governanta feroz recolhe roupas. Recolhe esta leva, pois vi que já colocou a máquina de lavar para trabalhar.

Seria uma lavadeira?

Lavaria para fora?

Não sei.

Agora posso distinguir a figura na cadeira de rodas. É uma senhora que o tempo corroeu e incapacitou. Traja uma blusa preta e uma saia vermelha. Isso me faz lembrar uma pomba-gira e pombas-gira não são bem vindas em casas evangélicas. Nem mesmo as velhas. Talvez a blusa seja azul-marinho. Isso sim, com certeza, se adeqüa mais a sisudez desta casa intrigante com seus varais lotados de roupas, como uma máquina de lavar que não descansa e uma pomba-gira velha sentada a uma cadeira de rodas.

Como terá sido sua vida, quase secular?

Que lembranças carrega? Como terão sido seus dias de juventude e folguedos, lá pelos idos das décadas de 20, do século que morreu e a esqueceu aqui, viva, sobre rodas, na dependência de um tigre de sentinela? Ela está lá. Moveu a cadeira mais para o sul. E foi para ganhar espaço no maldito varal!

Uma mulher à mercê dos caprichos de um varal...

Deus! O que é isso?

E os varais vão se enchendo, gerando sombra mesquinha onde havia luz para minha pomba-gira velha (cismei com isso).

Como se divertia mesmo em 1920?

Será que se divertia?

Hoje ela não me parece divertir-se.

É uma triste figura; triste e dependente, esperando que o tempo passe... que o tempo passe e que não existam mais varais a tomar-lhe a luz do sol...

É uma triste figura a procura de luz, enquanto lhe fazem sombra...

E a governanta sisuda enchendo os varais...


Escrito por Ronin às 19:27:30
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Sobre o amor

Nada mais justo que escolher um domingo, dia de desocupação e "dolce far niente" para falar de amor.

Com isso eu não quero dizer que o amor é uma coisa de vagabundos, é claro.

Mas pode ser colocado como um sentimento vagabundo. Ah sim, isso pode.

Mas a doçura do sentimento dá mesmo esta vontade de nada fazer e quedar-se a amar e, amando, nada mais fazer senão amor.

Ouvi em algum lugar que "o amor é estranho, descontrolado"; em outro, "que esta é a história de um amor como nunca se viu outro igual..."; mas adiante, ouvi a declaração: "pensa que aqui estarei te esperando ***hasta*** que tu decidas regressar...”; em mais outro ouvi que "a gente por amor põe a mão em cumbuca..."; em outro, ouvi que “... falta você em mim...”

Também li um poema, em castelhano, que não saberei replicar, que diz, mais ou menos assim



Ao perder-te eu a ti.

Tu e eu temos perdido.



Eu, porque tu eras o que eu mais amava neste mundo

E tu, porque era eu quem mais te amava neste mundo



Mas ao perder-te eu a ti, quem mais perde é tu.

Porque eu poderei amar a outras, tanto quanto te amei.

E a ti nunca amarão como um dia te amei.



Puro despeito. Sempre encontraremos quem nos ame de maneira desvelada. Mas estes parágrafos compilados assim a esmo dão uma certa medida do que é o amor. O amor é uma bagunça de sentimentos, um caldeirão fervente de hormônios que nos leva a tudo, até mesmo ao ódio...

E, um sentimento que gera tantos parágrafos, poemas, canções, crimes passionais, suicídios, atos de loucura, insanidade, perversidade (quem não quis, algum dia, se vingar por amor?) é um sentimento que pode ser até mesmo perigoso.

Tenho medo que me amem. Tenho medo de ser amado pela pessoa errada, por aquela que não sabe amar.

Porque se é preciso saber viver, é imprescindível saber amar.


Amar é se dar sem pedir nada em troca. É ser feliz porque o outro existe e pode até não aparecer mais, mas existe, vive e está, de alguma forma, em algum lugar, feliz.

Amar é não impor condições.

O amor é incondicional.

Como disse Djavan, "por ser amor, invade e fim".

E é nesta doce invasão que termina com tudo, Com a razão, o nexo, a consciência de si mesmo que residem a delicia e o perigo.

O amor, per si, não é perigoso. Mas quem ama pode fazê-lo perigoso.

Até porque, em síntese, não sabemos amar e, menos ainda o que é amor.

Escrevi uma lauda tentando definir o amor e tudo o que fiz foi mostrar as nossas incongruências com relação ao amor.

Onde está, então, o erro? No amor?

Não. Está em nós, que não sabemos amar.

Eu, que amei muitas e fui amado por algumas, sei que nunca soube realmente amar. Não soube mostrar vivendo o meu amor e isso foi o fator determinante do caos emocional que esparzi pelo mundo que, finalmente veio colher a mim como última vítima...

De tanto amar, derramei lágrimas de muitas pessoas. E por muito amar, derramei as minhas até que não sobrasse uma só, até que minha alma secasse por completo sua fonte de lágrimas. Já não sei há quanto tempo não choro

Por amor tentei me matar. Por amor fiz chantagem emocional, bebi, menti, usei drogas, traí, fingi, ignorei preceitos e condutas.

Sei amar?

Acho que não.

Sabemos amar. Creio que uns poucos.

E nada como uma tarde de domingo para refletirmos sobre isso, malgrado eu só esteja escrevendo numa terça feira... Coisas do amor



Escrito por Ronin às 19:27:01
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Nevoeiros

O fato de eu morar perto do Horto Florestal me traz a vantagem de ter, em noites frias, um pouco de nevoeiro. Hoje eu tenho um nevoeiro; não é lá muito denso e não chega a meter medo ou atrapalhar o tráfego aéreo ou terrestre. Mas é, em essência, um nevoeiro.

E nevoeiros me remetem à infância perdida na noite dos tempos... É que quando eu era uma criança, São Paulo era pródiga em nevoeiros. Lembro-me bem que todas as manhãs, ao sair para a escola, enrolado em cachecóis, recoberto por blusas, japonas e gorrinhos imperava, à minha volta, um cinzento e delicioso nevoeiro que não me permitia ver mais que dez metros... E eu adorava o risco de não saber o que poderia haver além do meu campo visual limitado por aquele nevoeiro. Não tinha medo; ao contrário, sentia prazer no risco (eu já era quem sou e não sabia; e para o bem da verdade, constato isso agora mesmo!), no perigo, na aventura...

O fato é que cresci e enfrentei muito nevoeiro em mangas de camisa, nos tempos que morei nas ruas de São Paulo, depois de ter fugido de casa por não agüentar a violência do meu velho pai; e nem assim perdi este amor aos nevoeiros. Arranhou-se um pouco a imagem de meu pai, é verdade, a tal ponto que não posso dizer que o amo... Mas o amor aos nevoeiros persistiu. E nisso, eu acho, reside boa parte da minha essência: Não temer o desconhecido e arriscar alto para obter alguma coisa. Sou, na vida, um jogador que enfrenta o nevoeiro de uma mesa de pôquer onde cada um blefa mais que o outro e, muitas vezes, ninguém tem mais que um par... Coisas...

Mas é preciso viver, é preciso navegar e nevoeiros não podem servir de obstáculo a quem quer prosseguir navegando e vivendo.

O desconhecido te espreita? Enfrenta-o de frente e descobre por ti mesmo o que é.

O medo se apossa de ti? Tira a máscara, mostra-te ao mundo e força-o a te aceitar como és.

Amigos te abandonam? Busca outros que possam te compreender melhor ou, ao menos, perdoar-te os enganos.

Desejas a vida? Plena? Arrisca-te em busca dela, pois a mesma te espera na primeira esquina.

O nevoeiro se faz mais denso? Reduz o ritmo, mantém a cautela, mas não te detenhas em nome da pouca visibilidade?

Queres saber o futuro? Vive. E vivendo encontrarás o tempo de agora que é o futuro convertido em presente.

Nada que eu digo te vale? Busca, então, fórmula melhor de viver.

Só não te empaques. Ao te empacar estarás perdido, mesmo que seja dia claro, sem névoa alguma. Não te permitas ser teu verdadeiro algoz, paralisando-te pela dúvida...

O nevoeiro, por mais denso que seja, é sempre água em forma de vapor mais ou menos condensado e ao enfrentá-lo o pior que pode acontecer é que te molhes um pouco...

Na vida, não é diferente.

Escrito por Ronin às 19:26:20
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Néons apagados

Como precisava estar às seis da manhã no Hospital das Clínicas dormi na casa de um amigo. Afinal, ele mora muito mais perto e isso é útil. Acordei, ou fui acordado, às cinco da manhã. Como de costume me vesti rapidamente e me coloquei a caminho.

Meu amigo mora na Rua Major Sertório, travessa da Bento Freitas, palco de minhas aventuras enquanto DJ e sonhador. Hoje só sonhador. DJ, acho que jamais... E para meu contristamento vi os luminosos em néon estavam todos apagados. E eram apenas cinco da manhã! Ah, nos meus tempos, a esta hora, a noite estava se reiniciando para aqueles que nela trabalharam a noite toda! Era a hora do flerte, da briga por ciúmes bobos (ou sérios), DO Blood Mary, com muito Blood e pouco Mary, ou um mary assim, minúsculo. Fiquei triste. A nostalgia se apossou de mim e pude lembrar de mim mesmo, porre amarrado, por causa de uma certa morena que se atrasou um pouco num dia em que eu não estava para atrasos... Disso eu me ri. Do resultado disso não gosto nem de pensar. Perdi a morena, a vergonha e a decência por um bom pedaço de tempo. Coisas. Mas eu sei que é caindo que se aprende a andar e não olho para isso com mágoa e, sim, com saudades...

E olho com saudades para toda a vida que pulsou ali em casas como o Lê Masque, La Ronde, La Concorde, Chez Paul, Chez Lapine, Louvre, Choupana, Lancaster, Studio 2000, Galo Vermelho, My love e tantas outras como o Big Ben, o Love is All, La barca etc. Uma miríade de casas noturnas abrigando um sem numero de constelações de mulheres que atraiam um incognoscível numero de homens e, com eles, o erário nosso de cada dia...

Não pensem que era mole ser garçon na Noite. Era preciso estar esperto, ver se ninguém pretendia dar o bote e fugir sem pagar (ai destes), controlar o quanto certos clientes gastavam para evitar maiores problemas na hora do fechamento da conta e ainda controlar o quanto cada uma das meninas bebia para dar a cada uma delas a comissão justa que recebiam pelo sacrifício de beber um pouco e inundar o carpete com o resto da bebida, muitas vezes batizada...

É bem certo que havia aquelas que faziam questão de honrar cada gota que chegava às suas mãos e enchiam o pote. E lá ia eu, comme d’habittude, levar a infeliz à Santa Casa para uma tradicional dose de glicose... Muitos dos meus namoros nasciam destas seções de glicose. Mas isso é bobagem..

Sei que a verdade é que tudo isso passou e os luminosos de néon estão se apagando mais cedo e que outros já nem se acendem mais. Destas histórias, destas luzes, só restarão as lembranças, boas e ruins, e mais nada. A vida que ali pulsou e vibrou, candente, já não vibra nem pulsa, não tem mais energia e os luminosos de néon se acendem cada vez menos, em quantidade cada vez menor.

Mas eu me pergunto onde estarão as pessoas que fizeram parte de minha vida, mesmo que como simples coadjuvantes?

E a voz da minha consciência me diz que estão vivendo suas vidas, alhures, com as vistas no presente e uma certa nostalgia que também vai se apagando, como os luminosos de néon...

Sei que Dayse está no Rio Grande do Sul, com o Pedrinho, que se perdeu na vida e enveredou pelo crime. Mas amor de mulher da noite é firme e forte. Vai até a última conseqüência. E quando não resta mais nada, se reinventa e busca mais uma chance. Eu sei como isso é...

Sei que a Cristina (Guzu) morreu trancada, solitária, em um quarto qualquer, lá no interior da Bahia, vítima da AIDS, carregada de culpa e vergonha imerecida. Sei que O Índio lutou muito e também foi derrotado pela AIDS num tempo em que pouco ou nada se podia fazer por quem caia nas malhas da epidemia...

Sei que uma irmã da Rosely abandonou a noite e foi encarar o serviço público e uma destas piadas do destino fez com que nos encontrássemos em um serviço de saúde qualquer...

Sei que de muitas pessoas eu não sei nada. O Rubinho, por exemplo, viveu e deve ter morrido em função de cuidar de sua mãe, que ele amava de todo o coração.

E sei coisas da vida sexual do gringuinho que seria melhor que eu não soubesse. Mas a mulher dele gritou bem alto na rua, às duas da manhã, num dia de desentendimento e discórdia. E sei que muita gente sumiu dali bem de vida e nunca mais olhou para traz, que bom, e que nem imagina que aquele lugar está, hoje, sem vida, sem nada.

O que eu não sei é explicar o que aquela moça grávida de cinco ou seis meses estava fazendo naquela esquina escura, às cinco e meia da manhã, ainda tentando a sorte, num lugar que já morreu e que poucas esperanças ainda dá...

Fui para o HC com a imagem dela na cabeça. Não obtive no HC o que eu buscava; pouco importa, certamente dormirei esta noite pensando na vida miserável que ela, ou o mundo, impôs a si mesma.



Escrito por Ronin às 19:22:05
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A mulhjer laboriosa, parte 1


Ainda pela janela eu vejo a mesma casa. Passaram-se quatro minutos da meia noite e as luzes externas estão acesas. Nos varais, apenas uma calça e uma blusa, além de todo o mobiliário.

Dentro da casa a família. A minha velha pomba-gira certamente dorme, ou conta carneiros. Eu, no lugar dela, contaria minutos, assim: um a menos, um a menos, um a menos... É que a prisão em que ela vive seria insuportável para mim.

Tenho observado a casa com interesse cientifico e já observei que a população é ampla. Pelo menos quatro adolescentes e duas crianças. Não notei, ainda, a presença de um homem que pudesse ser o chefe da casa.

Se houvesse um, eu já teria notado. Assim, concluo que a chefa da casa é aquela laboriosa mulher evangélica que não para de lavar roupas.

Penso que ela também deve cozinhar, passar, dar sermões, chamar seus tutelados à Igreja...

Bom agora, meia noite e dez, a varanda se apagou, só resta uma luz intensa que vem de dentro da casa, passando pela porta daquilo que deve ser a cozinha.

Finalmente, penso eu, esta casa vai parar por algumas horas.

A mulher laboriosa vai ter seu repouso, os adolescentes vão orar e dormir para acordar amanha, bem cedo, e tocarem suas vidas, em seus trabalhos...


Queria poder contar a vocês que vi um morcego passando perto da casa. Mas não posso, posto que não o vi; mas vi um carro descendo pela avenida em que fica a casa; passou tão rápido que não tenho a mínima noção sobre que carro era.

Mas era alguém com pressa, indo para casa também, eu acredito, pois precisa descansar para cumprir suas obrigações amanha, que devem ser muitas.

Uma outra história que passa diante de mim e não me permite nada, por ser tão veloz em sua passagem. Mas a avenida está repleta de casas e algumas estão completamente escuras. Eu diria que são pessoas normais, que dormem cedo e acordam cedo; não são como certas pessoas, que viram a noite à frente de um computador falando da vida dos outros... Mas há outras casas... E no intento de olhá-las acabo vendo a mulher laboriosa, de pijamas, cuidando dos últimos afazeres... Estende um tapete... No escuro, checa os varais e vai à maquina de lavar, está entrando, as duas mãos nas costas (eu teria dores nas costas também, se lutasse como ela); entrou. Mas as luzes não se apagam e ela volta com uma vassoura! Talvez planeje alçar vôo... Não, está varrendo, meia noite e dezenove e ela esta varrendo a varanda, estendendo roupas!!!

Ao longe o apito do guarda noturno e o som de sua motocicleta...

A mulher não para e eu não posso parar enquanto ela não parar também...

Dó céu, o ruído impertinente de um avião pousando; na varanda, com toda esta trabalheira, uma cadeira em desalinho... Uma viatura da PM, uma van. Ninguém...

O tempo passa e eu escrevo olhando para a janela

00:22. O Jô Soares já fez sua chamada, mas eu mal pude ouvi-lo...

Só me interessa a casa, com a luz acesa e o movimento da vida noturna deste bairro na zona norte de São Paulo... E, em especial, a vida nesta casa.

Vá dormir mulher! Penso em gritar da janela.

Mas ela reacendeu as luzes da varanda, está no tanque.

Vá dormir mulher!!!

Ela arruma com os pés o tapete que colocou à pouco e olha para tudo como um fiscal da vigilância sanitária. Encontra algo sujo, apossa-se de um rodo e de um pano.

Vá dormir mulher!

O Último ônibus passa, rumo ao centro de Santana, o Jornal da Globo acabou, ela fechou a porta, mas a varanda está acesa...

A luz da cozinha esta apagada.

Fico olhando, respiração presa, esperando....

Finalmente a luz da varanda apagou-se e a mulher foi dormir.

00:28

Amanha, posso apostar um guinéu, ela vai estar cedo em sua luta...

00:37 Passei este tempo todo vigiando a casa à espera de vê-la ressurgir, desiteressado de todo o resto. Não ressurgiu, para meu alívio.

Mas passou outro avião, mais barulhento, talvez com cem pessoas lá dentro, vidas vindas de alguns lugares, com muitos destinos a serem alcançados...

E a mulher laboriosa, finalmente dorme...



Escrito por Ronin às 19:21:33
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O motorista do ônibus


Dentre as figuras pitorescas deste bairro em que eu moro há uma excepcional. E não é a matriarca de quem tanto falo. Muito menos o papagaio que me acorda todas as manhãs gritando socorro (eu preciso investigar isso).

É um motorista de ônibus.

Quem vive em São Paulo sabe como é a vida de um motorista de ônibus. Trânsito, risco de vida, pessoas abusadas, algumas cruéis, direção pesada, câmbio ruim, motor ainda pior, carga humana, a responsabilidade sobre muitas famílias a cada viagem (alguns ônibus, em São Paulo, carregam mais de duzentas pessoas), e coisa, e tal... Isso estressa qualquer um. E não é incomum que vejamos passageiro e motorista discutindo; como também não é incomum vermos o motorista passar direto pelo ponto e deixar o passageiro, idoso ou não, a ver navios, ou melhor, a ver ônibus. A ver ônibus esperado diligentemente indo embora sem o levar. É uma profissão terrível e, sinceramente, não gostaria, eu mesmo, de ser um.

Mas este de quem falo é especialmente diferente: Chama a atenção, ou chamou a minha, pela solicitude. Em cima do capô do motor barulhento ele tem uma pilha de jornais. O “Metrô News”, que é gratuito, e é distribuído em várias estações do metrô. Nós, os passageiros do Vila Aurora > Santana, quando felicitados pela presença deste motorista, somos brindados com a leitura do jornal, que é um tablóide quase sem conteúdo, muito antes de chegarmos ao metrô, o que vale é o gesto.

Assim, ele faz uma gentileza a cada um dos passageiros que sobe em seu “carro”; e, de quebra, ajuda a pessoa que tem que ficar distribuindo milhares de edições na porta da estação. Quinhentos a menos é uma grande ajuda!

Se fosse só por isso, já valeria uns três parágrafos inseridos assim, de relance, em qualquer crônica. Mas ele é muito mais que isso.

Quando uma pessoa dá sinal para subir e está fora do ponto, ele para e a apanha, pois sabe que só há dois carros na linha e que cada um passa a cada trinta minutos. Se alguém pede para descer. Desce na porta de casa, ou no lugar mais conveniente, mesmo que este não seja o ponto. No meu caso, há um detalhe importante: Por causa da minha condição sorológica eu tenho relativo direito a transporte gratuito, desde que o médico que esteja me atendendo dê um laudo, mesmo que tergiversando os fatos, onde conste pelo menos uma doença oportunista, como a toxoplosmose, por exemplo (para um portador de HIV andar de ônibus ou metrô de graça em São Paulo ele precisa estar mortalmente doente, por assim dizer). Neste ano infeliz o médico que vinha acompanhando meu caso se negou a este laudo em nome da ética médica; a mesma ética dos transplantes (morte cerebral para quem não tem vida fiscal)... Ora, vivo em dificuldades financeiras. Apesar do Estado dar a maioria dos remédios, sempre tenho que comprar alguns, especialmente o ROHYPINOL, e lá se vão, só aí, noventa reais por mês. Eu não tenho, sempre, recursos para pagar a passagem. Assim, o que me resta é o expediente de usar a carteira vencida e incorrer em crimeprevisto no código penal com o nome de artigo 171: estelionato. Se eu for apanhado usando a carteira porque não posso pagar ônibus serei preso pela polícia que dispensa apresentações e julgado por um juiz qualquer, um destes que ameaça fazer greve porque não admite ganhar menos de dezessete mil reais por mês... Tal juiz me condenará a quatro anos de prisão “em nome da Lei.”

Mas com este motorista eu não corro este risco. Ele não me pede para ver nada. Viu apenas uma vez, sacou que a carteira era velha, piscou para mim e disse-me que não a mostrasse mais. Sempre para na porta do meu prédio. Eu agradeço, desejo um bom serviço (melhor impossível) e escapo de correr o risco. Pelo menos neste percurso. Nos outros...

Mas o que importa é a maneira como ele se conduz. Outro dia vi uma senhora muito idosa tentando subir ao ônibus sem sucesso. E lá foi ele: Desceu de seu posto, saiu do ônibus, auxiliou a senhora e voltou ao seu trabalho. E eu não terminaria de escrever se fosse contar tudo o que já vi este homem simples, a quem a vida deu um ofício humilde, com um salário pífio, fazer por seus semelhantes.

E sempre com um sorriso no rosto. Ontem, este era o texto esquecido, ele estava indo para o ponto final quando me viu. Parou e perguntou: “Vai pra Santana?” Acenei que sim. “Então sobe que não tem outro carro. Pelo menos não fica aí em pé, esperando.” É de uma bondade sem limites.

Foi então que eu descobri, num papo mais longo, que ele está nesta empresa há 19 anos e que há 12 anos faz o percurso Santana > Vila Aurora, Vila Aurora > Santana. E, naturalmente, conhece todos no bairro. Viu crianças que passavam por baixo da roleta crescerem e se fazerem adolescentes; viu casais se conhecerem dentro de seu carro e casarem; depois viu, com tristeza, que alguns não duraram... Uma vida inteira dentro de um ônibus percorrendo um trecho de 15 quilômetros, ida e volta.

E eu pensei que o universo de um homem é sempre do tamanho de sua alma. Um outro qualquer passaria por ali em branco, sem deixar marcas, sem sequer ser reconhecido, fazendo apenas aquilo para que é pago: conduzir um ônibus.

Mas este homem, este homem não! Este homem adicionou candura, bondade, diligencia, compreensão, companheirismo, amizade e, no fim das contas, é imprescindível na vida das pessoas.

Digo isso, atesto e dou fé.

Nesta semana, a empresa em que ele trabalha foi vendida. Sempre há o risco de mudanças.

Nós, os precavidos moradores da Vila Aurora já tomamos providências.

Há um abaixo assinado circulando pelo bairro, exigindo que ele seja mantido na linha.

Quando eu assinei, ontem, já passavam de duas mil as assinaturas.

Deve chegar facilmente às cinco.

Ainda não sei de sua historia. De sua vida. Mas ainda vou pegá-lo de jeito para saber do casamento, que espero seja feliz, dos filhos, que espero tenham a mesma índole, pois não faltou exemplo, e dos netos. Depois, vou desejar a ele uma vida muito longa e que ele possa, ainda, ao fim de tudo, ver sua estirpe perpetuada num bisneto que deverá levar o seu nome, para que ele não seja esquecido jamais...

Era este, como disse há pouco, o texto que ia me esquecendo de escrever.

Ainda bem que lembrei. Um homem como este, me faz ter esperanças na humanidade.

Escrito por Ronin às 19:20:59
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Flor

Flor
E do jardim de minhas memórias você desabrochou de repente, sem qualquer aviso. A sempre hippye Flor, que cultuava a lua e amava a natureza ressurgia, viçosa, no jardim de minhas memórias.
Foi a primeira mulher a quem possui na Noite. E longo foi o caminho trilhado até esta Flor. Formosa, tinha os cabelos cacheados e curtos, “a la homme”; os olhos, da cor de jade; o sorriso, um ninho de pérolas; os seios, pequenos e precisos; delineados por divino escultor; a tez, macia; a mesma tez, morena; os quadris, perfeitos; as pernas, delgadas; a voz, maviosa como a de um colibri... E a cada ponto e vírgula acrescente-se um suspiro meu... E para as reticências um salto do coração.

Foi paixão, notem que digo paixão, à primeira vista. Olhamo-nos, e quedamos apaixonados... Mas eu não sabia lidar com uma jóia tão rara. Tinha apenas 18 anos, ela 22, e era um jogo em que eu estava irremediavelmente perdido; não sabia o que dizer, o que fazer, como atrair aquela ninfa para meus domínios ainda não demarcados.

Ela se insinuava e eu não sabia tomar pulso. Ela se oferecia e eu não conseguia receber.

E assim ficaria se a experiência dela não a fizesse ver que eu era ainda um menino, e que ela precisava tornar em homem este menino.

Foi então que tudo mudou. Ela sumiu, não me procurou mais.

Cada madrugada sem vê-la era um infortúnio.

Cinco da manhã e lá estava eu, na rua, perguntando: “Você viu a Flor?” “Vi sim, mas já foi embora, me dizia uma voz qualquer que eliminava minhas esperanças..


Até que num domingo ela ressurgiu, belíssima, trajada com uma calça branca (ainda posso vê-la) e uma blusa toda estampada, leve, solta, sorridente e, à queima roupa, me perguntou:

“Está de folga hoje?”

“Estou”

“Então me leve pra casa. Você não quer saber como é a Flor?”

Eu tremi e disse sim; mais obediente que um poodle, completamente fascinado...

E nesta noite que quase não teve fim, eu conheci a Flor. Eu cheirei, bebi e beijei a flor. Eu possui e fui possuído pela flor; eu arrebatei a flor; eu fui arrebatado pela flor; e me desmanchei em prazer na flor, que me acarinhou por uma noite e me disse adeus no dia seguinte, afirmando que eu não teria futuro com ela; pois eu seria um homem de muitas mulheres, tal qual ela, que era uma mulher de muitos homens...

Quis argumentar alguma coisa.

Qual o que!

Não havia muito a dizer, ela estava certa.

Flor foi tua a primeira flor que eu colhi.

Muitas outras colhi depois; posto que me fizeste homem e jardineiro.

Mas de vez em quando me pergunto, qual o poeta: “Onde anda você?”

“Que rumos a tua vida tomou? Fostes feliz? És feliz? Ainda vives neste mundo?”

Se leres isso, me escreve, como quem não quer nada, para que eu relembre aquele perfume que exalava de ti...

Escrito por Ronin às 19:20:29
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Um ditado árabe, ensinado por um alemão

Um ditado árabe, ensinado por um alemão


Agora à tarde, enquanto cochillava, me lembrei de um velho amigo que já partiu deste mundo:

ZIgfried Bauer. Ou Simplesmente ZIG, como chamavam.

Zig era muito mais velho que eu, talvez uns 35 anos a mais e tinha, sempre, muito o que ensinar. E eu vivia na cola dele.

Bicheiro, andava na madrugada, pelas ruas de sampa, cantando, com voz de tenor:

“Da me um cornetto, muito crocante, ‘’e piu cremoso...”

Sua voz era audível a dezenas de metros. Assim sabíamos que la vinha ele, bloco em punho, para arrecadar a féria diária.

O Zig tinha um ponto fraco: Como todo bom alemão, não resistia a uma mulata; era o ponto mais fraco dele, fora o fato de ser um pato no xadrez, coisa que o deixava inconformado.

Mas levávamos a vida “comme d’habittude” sem maiores solavancos que os necessários.

Certa feita Zig abandonou sua esposa, com a qual tinha cinco filhos, pelo amor de uma mulata. Este amor não durou muito e custou muito para que Zig fosse perdoado por sua família. Somente quando ele adoeceu, um diabetes grave, foi possível a ele retornar ao lar. Na doença, tudo se perdoa.

E ele foi vivendo como podia, com seu bom humor, perturbando o Pepe no bar Xangô, ali na esquina da General Jardim com a Bento Freitas. Ao seu Chico ele não perturbava. Mas este era quase imperturbável.

Foi Zig que levantou a voz para me defender num dia em que eu mesmo caí em desgraça e descrédito. Me defendeu, conforme me contam, como quem defende a um filho, e isso de muito me valeu, pois me salvou a honra, naqueles dias em que a palavra de um homem valia mais que qualquer documento escrito.

Até que um dia ele mesmo caiu em desgraça e eu nada pude fazer para ajudá-lo. Ele cometeu um erro operacional e a banca de bicho que ele mantinha foi quebrada. Não pode pagar o prêmio. Foi perseguido de forma cruel e desumana, de nada valeram os trinta anos de trabalho honesto e reto que ele dedicou em sua vida.

Contava a merda que ele fizera.

Foi assim que ele me ensinou uma coisa que nunca mais esquecerei.



“- Cláudio, nunca se esqueça disso, um homem pode ter toda uma vida de trabalho digno e reto; e isso de nada valerá se ele der um passo em falso. Todos esquecerão quem você é e o que você fez...”

Nunca esqueci isso, e nunca esqueci outras coisas que ele me disse.

Uma delas, assaz importante, é um ditado árabe:



Os cães ladram; mas a caravana passa.



Eis ai uma grande verdade.



Zig morreu aos 69 anos, vítima das complições do diabetes. Deixou muitas saudades entre os amigos que verdadeiramente amavam-no.

E mesmo hoje, quase dez anos após a sua morte, eu ainda sinto os olhos marejar ao me lembrar dele cantando Granada, para alegrar Pepe de vez em quando...

Sic Transit Mundus

Escrito por Ronin às 19:19:57
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Um texto antigo


Dualidades -

Acordei bem mais cedo que o normal. Detalhe: Acordei sentado no sofá. Esta coisa de psicotrópicos e sonambulismo é um problema. Por enquanto ainda não saí de casa, é verdade. Mas também é verdade que nenhuma chave fica na fechadura.

Tive que fazer uma manutenção preventiva no meu micro e não pude escrever antes. Amanheceu aqui no Horto Florestal sob intensa névoa. Só agora o Sol vai medrando e começa a vencer o nevoeiro.

Daqui a pouco terei de sair, ir a um tribunal e descobrir se o juiz deu parecer favorável num mandado de segurança contra o Estado, obrigando-o a me fornecer determinado medicamento que eu já não agüento mais pagar.

É possível que o juiz diga sim. É possível que o juiz diga não.

Se ele disser sim, farei grande apologia à magistratura respeitável que vê no ser humano e na vida bens supremos que estão acima de considerações mesquinhas como “padronização de tratamentos”.

Se ele disser não, voltarei até aqui e direi o diabo sobre todos os juízes e os chamarei de discípulos do lalau...

Isso mostra claramente como somos. A mesma coisa pode ter dois valores completamente diferentes num dado momento se um interesse nosso é ferido ou não.

Pensando bem, dualidade é uma das mais marcantes características humanas...

Escrito por Ronin às 19:19:20
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Débora

Confesso que sou um privilegiado. Através de minha janela gradeada posso ver uma imensa Lua cheia e seu halo de luz branca, olhando para mim....

Há muitos anos me habituei a vigiar a Lua e esta, sem nada melhor a fazer, fica lá em cima, me vigiando. Uma Lua traidora, que já me fez promessas que não cumpriria... Uma Lua benevolente, que iluminou momentos de prazer e loucura, tingindo tudo de prata e azul...

Uma Lua caprichosa, que se trajou de rubro na noite de gala em que eu partiria para a suposta felicidade que nunca alcancei...

Foi numa noite de Lua cheia que conheci Débora, 14 anos atrás, numa festa de casamento. E foi a Lua cheia que iluminou nosso primeiro beijo. Uma Lua cheia depois Débora partia de minha vida para nunca mais voltar.

Era impossível. O que ela tivera antes, uma relação de quatro anos, não poderia ser suplantada de súbito por um namorico com um DJ cercado de cortesãs.

Então ela preferiu não correr todos os riscos e ficar com aquilo que julgava certo e me fez chorar. Quando ouço Jonh Anderson e Vangelis e sua música Deborah, tantos anos depois, me lembro da fossa que curti por Debbie. Sim, foram semanas difíceis. E quando o coração da gente é jovem e inexperiente nestas coisas de amor, qualquer dor dói muito mais que o necessário... E eu sou fortemente impressionável pelas coisas. Ainda me lembro em que banco da estação Santana do metrô ocorreu o rompimento.

E quando passo por lá, sempre me vêm aquela dúvida: Terá, Débora, sido feliz em sua escolha? Espero que sim. Pois do contrário ela pode ter evoluído pela vida de maneira amarga e solitária, e eu não desejo isso a nenhuma daquelas que me deixou. Nem às que eu deixei...

É, a Lua me faz assim, nostálgico, e muita coisa eu teria para lembrar e contar. Mas o peso dos anos, a impressão de opressão causada pelas derrotas impostas pela vida (a vida impõe isso a todos) me fazem ficar assim, vagando de palavra em palavra, sem que muito possa ser dito.

Vida de cronista (pretensão a minha) é assim mesmo. Como disse o Braga, “o escritor escreve um livro, um poema e deixa lá uma obra acabada, para toda a eternidade. Já o cronista, é como um nômade que, a cada dia, precisa caminhar pelo deserto à cata de algum assunto, armar sua tenda, escrever, mesmo que mal, e partir, em busca de algo mais a dizer.

Esta coisa de precisar dizer alguma coisa é uma coisa que pega e não larga, gruda e se prende à nossa pele, ao nosso sangue.

Por falta de assunto, com o mote da Lua, relembrei Débora e todas as possibilidades que ela me abriu por um mês e depois fechou, para que nunca mais se abrissem.

À vista disso, colando o Braga, coloco-me melancólico...



Escrito por Ronin às 19:18:56
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Crescendo


Hoje foi um dia muito longo. Acordei de manhã e Ana* nome fictício para minha esposa*, já havia saído. Tive uma sensação de casa vazia e me senti triste e sozinho. Ana, como eu, também porta HIV. Conhecemo-nos alguns anos atrás na net, na sala HIV do bate papo do UOL. Eu sempre penso em como poderá sr a vida se acontecer algo com ela e, sinceramente, sinto um medo sem fim quando isso acontece.

É que eu, depois de tantas andanças e paranças encontrei, em Ana, a paz que procurava. E não sei se seria possível encontrar isso outra vez. Há alguém, a quem amo muito, mas que a vida separou de mim por abismos incomensuráveis... Esta, que teria sido a mulher da minha vida, desapareceu na esteira do tempo.

Então é com Ana que eu vivo e é a Ana que eu amo, a quem dou meu carinho e, por conseguinte, é nela que eu encontro minha paz, meu repouso, meu regaço...

E você que me lê pode imaginar o que é viver com a Espada de Damôcles sobre a sua cabeça e a cabeça da mulher amada?

Creio que não.

Assim, quando acordei com a casa vazia eu senti como seria se ela já tivesse partido e, desesperado, saí de casa, bem mais cedo que o necessário, apenas para não viver aquilo.

Entrei na Casa da AIDS, na Rua Frei Caneca às 11 da manhã. Falei com minha psiquiatra sobre Ana, ela me explicou algumas coisas e eu fiquei relativamente tranqüilo.

Depois fui falar com Sigrid, minha infectologista e começamos a investigar os altos e baixos da minha pressão arterial (estou hipertenso). Deitei-me num leito do hospital dia, esperei trinta minutos e minha pressão foi medida. 14 por 10. relativamente alto para alguém em repouso há trinta minutos.. Mas bem mais baixo que os 22 por 15 que surgiram outro dia. Sinal que o inalapril está fazendo efeito, mesmo que devagar... Há outras coisas a serem investigadas, mas cada uma a seu tempo. É hora de cuidar da pressão.

Como “sobrava algum tempo”, cochilei naquele leito até a hora da consulta com a analista, Éline. Uma mulher de inteligência brilhante que ainda se lembra do que falávamos meses atrás e que nunca perde o fio da meada deste complexo ser chamado Cláudio Santos de Souza.

E conversamos sobre a minha tendência antiga a ter muitas mulheres (em tese eu não sou homem de uma só mulher, muito embora, apesar da ampla liberdade que Na me dá, não tenha usado isso nestes últimos tempos).

E conversamos mais de uma hora sobre isso, sobre a minha necessidade de construir uma “rede de suporte”, para não ficar só, seduzindo as mulheres e garantindo que eu não caia, novamente, no abismo da solidão.

E foi difícil falar sobre isso, até porque este processo embute o processo que me levou a contrair HIV e, portanto, é a pedra de toque na minha psique.

E Éline me demonstrou que, apesar de tudo, eu venho destruindo esta rede, que já não busco mais este recurso como paliativo à solidão.

Me fez lembrar que eu não tenho noticias de minha mãe há três anos. Que meu pai não me telefona há três meses. E que, mesmo assim, com estas perdas insubstituíveis, eu estou conseguindo manipular a vida, como um todo, sem me desequilibrar tanto.

E eu pensei que, em verdade, ela tem razão.

E, apesar de tudo, contra todos os prognósticos, eu estou crescendo.

E como é bom poder estar crescendo

Escrito por Ronin às 19:18:15
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A minha boneca de trapo

A minha boneca de trapo


Também tive a minha boneca de trapo. Chamava se... Bom, ela era conhecida como Gabi. Gabi era morena, jambo, uma pérola. Tinha um metro e setenta e três de altura e nenhum grama a mais em lugar nenhum. cabelos cortados a la chanel, olhos castanhos, escuros, de uma rotação lenta, bem lenta, com um vagar só dela. deixava-se, às vezes, a olhar o mundo com aqueles olhos marrons imensos (tenho dolorosa fixação por olhos escuros) e ficava lá. como que a meditar...

Passeávamos muito. íamos à praia quase que todos os finais de semana. Ficávamos em santos, no José Menino, perto do píer. Sentávamos ali e ficávamos olhando umas gaivotas que lutavam pela comida disponível e os navios, imensos, que iam e vinham... Passávamos horas ali, abraçados.

Gabi me ensinou, sem dizer uma palavra, que o mais danoso sentimento que temos é o da posse. Ao julgarmos que possuímos alguém ficamos cegos de orgulho e não compreendemos mais nada. Eu sou, por minha natureza colérica e furiosa, uma pessoa bastante ciumenta, muitas vezes irracional. Imaginem isso ao lado de uma garota de programas... Mas eu a amava, e ela possuía suas ambições e necessidades, que eu não poderia suprir. Coisas.

Devia me amar demais a gabi, já que suportava com relativa paciência minhas crises, meus ciúmes e algumas mesas viradas aqui e ali. Tínhamos um acordo, que eu demorei muito a cumprir direito. Eu não deveria, jamais, entrar no Michel antes das quatro da manhã. Só que eu não agüentava isso e acabava entrando. Nem sempre era muito feliz em minha chegada... Descobri depois que ela tinha armado um imenso esquema de vigilância que visava apenas mantê-la informada sobre a minha localização na rua. Se, por algum motivo, eu me aproximasse a menos de trinta metros do Michel, onde ela trabalhava, este alarme disparava e ela procurava disfarçar, me receber na porta, me cobrir de beijos e tocar a noite pela frente. Quatro da manhã lá estava eu.

Amava a gabi. E ela me amava também. Mas estávamos os dois enlouquecidos pelo brilho das luzes e nada nos afastava da noite. Mas nos amávamos como loucos e aos loucos tudo se perdoa, ate mesmo o amor conturbado.

Não é fácil para mim descrever a gabi fazendo um strip tease, mesmo agora, mais de dez anos depois. Só posso dizer que ela não olhava para ninguém, que ela se destacava de si mesma e se esquecia de quem era. Durava de cinco a nove minutos, mas era de me matar.

Acabava-se a noite e íamos embora; amávamo-nos, almoçávamos, jantávamos e ao escurecer estávamos lá, firmes, para mais uma noite de desvario; mas, acima de tudo, amávamo-nos.

Entrava dia, saía noite e amávamo-nos...

Foi assim por quase três anos. Por três anos pude ser fiel a uma mulher que me era fiel tanto quanto o possível.



A fidelidade dela se expressava em outras atitudes, como a de erguer a voz e me defender onde quer que falassem meia palavra torta sobre mim; a fidelidade dela se expressava na manutenção firme do compromisso: quatro da manhã, venha me buscar (ela nunca faltou à sua palavra).

Foi ela que, quando caí da moto, cuidou de mim, durante três meses, até que eu pudesse voltar a andar e a trabalhar. Tínhamos, então, 25 e 24 anos e acreditávamos que um dia sairíamos dali, juntos.

Fomos leais um ao outro em tudo o que poderíamos ser, e isso era muita coisa, tendo em vista o que vivíamos. Um dia ela me disse: nestes dois anos, nunca consegui beijar outro homem; e estas palavras ainda calam fundo em meu coração.

Não conto a vocês por que acabou. um dia, acabou, tomamos rumos bastante diferentes na estrada da vida... doeu muito, e pela primeira vez, enchi o pote. Foi um porre homérico. mas, ainda hoje, me lembro dela aqui, com seus olhos imensos, escuros, como que a possuírem uma tempestade em gestação...

Lembro-me de sua voz, de seu toque e de seus beijos, que foram só meus, durante mais de dois anos. lembro-me do cheiro de seus cabelos, de sua pele, de você...

Amava-te, gabi. e, tenho certeza, me amastes também.

Muitas saudades.



Escrito por Ronin às 19:17:48
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Dos meus tempos de DJ na noite

Domingo , 18 de Janeiro de 2004

Dos meus tempos de DJ na noite


O Toureiro

quero falar a respeito de um amigo distante no tempo e no espaço. ontem estive em sampa. saí do HC por volta de meia-noite e, antes de ir para o meu hoteleco, dei uma passada em uma rua muito freqüentada por mim durante uma década. era minha casa a rua bento freitas. lá estava tudo; meus amigos, inimigos, namoradas, afetos e desafetos. minha vida, enfim... e passei por lá com olhos sôfregos e nostálgicos, em busca de algum rosto conhecido. havia alguns, mas nada assim importante, coadjuvantes... gente com quem mal conversei. curiosamente, o grosso da tropa sumiu. acho que tomaram juízo.

mas não pude deixar de me lembrar de um velho amigo, o toureiro. era mesmo um toureiro. porteiro do le masque, vivia de tourear bêbados e malucos que queriam entrar à força na casa noturna. missão ingrata a do toureiro... com muito bom humor, aliando isso aos seus cento e noventa centímetros de altura e aos cento e seis quilos de peso, procurava manter a paz na porta. e admito que conseguia.

um gentleman. quando chovia, sacava de um imenso guarda-chuva, que mais parecia uma tenda árabe, e protegia da chuva cada uma das meninas que chegava, a pé ou de táxi, para mais uma noite de trabalho; quantas vezes não o vi, alta madrugada, encaminhando-se, num táxi, para a santa casa de misericórdia, para uma das habituais seções de glicose que se faziam necessárias de vez em vez... essas meninas...

quando conheci o toureiro, em 1982, ele me parecia um homem bastante feliz. mas me contaram que ele já havia sido mais feliz. tivera, ele, uma mulher muito amada, a quem chamava "boneca de trapo". quem conhece a letra da música sabe... boneca de trapo/ farrapo da vida/ que vive perdida/ no mundo a pecar/ farrapo de gente/ que é inconsciente/ peca só por prazer/ vive para pecar... e, lá na frente... que sai pela noite, e amanhece na rua, e há muito não sabe o que é luz solar... dá para avaliar o quanto foi conturbado o amor do toureiro. contam os amigos que o conheciam então que ela morreu, num acidente de carro, e ele ficou triste por muitos anos. nunca pôde se recuperar.

mas me parecia feliz. tudo é ponto de vista. o que sei é que nunca o vi com uma garota. estava sempre só. e, na noite, isso é um evento raro. namorávamos um dia. no outro já dormíamos juntos. se você dormisse três noites consecutivas com alguém, estava casado. se dormisse com outra pessoa enquanto casado, só não valia ser apanhado, o que era quase impossível e o casamento, às vezes, acabava; às vezes aumentava de tamanho. risos. a vida às vezes é bastante simples, basta querer. por isso eu estranhava a solidão dele. mas quando me explicaram a historia, entendi que ele não esquecera a sua esfarrapada boneca. meus respeitos.

e ele levava a sua vidinha. tinha já uns setenta invernos sobre si e trabalhava, toda noite, com muita dedicação. não poderia correr o risco de perder o emprego; como trabalhador da noite, nunca tivera direitos trabalhistas. é assim que funciona. mas ele fazia o que fazia com muito amor, há mais de cinqüenta anos...

chegava às sete e meia, varria a calçada, dia sim dia não, lavava-a. colocava seu terno cinza, muito bonito e iniciava sua labuta até as quatro, cinco da manhã. às vezes, seis horas.

depois, porque ninguém é de ferro, ia até o bar do seu chico, que não fechava nunca, e tomava seu conhaque, que era de lei e ia para sua casa, ali na rua santo antônio, dormir.

posso dizer que eu, à minha maneira, amava o toureiro. gostava muito daquele homem velho e sábio, que para tudo tinha uma resposta pronta e que não se intimidava com nada. acostumei-me a vê-lo ali, na porta do le masque, postura digna, gentileza e afabilidade à toda a prova. foi por isso que, certa noite, ao não vê-lo ali, fiquei muito preocupado. não chegara o toureiro. o que teria acontecido?

eu não sabia, mas, na manhã anterior, ele voltou para a sua casa, na verdade um modesto quarto de pensão, deitou-se e foi acometido de um ataque cardíaco fulminante. morreu dormindo o toureiro. que bom, espero apenas que não tenha doído. finalmente, tenho certeza, ele pôde se reencontrar com sua boneca de trapo. acho que ela estava esperando por ele, ao lado da cama, e que, depois do enfarto, ele "acordou" sobressaltado e perguntou: você voltou? e ela, belíssima, sorriu: não, meu amado, não voltei, foi você quem voltou para casa. tomou-lhe o braço e partiram, rumo a vôos mais altos...

acredito que estão juntos e felizes.

era mesmo um grande homem este toureiro. toureava pessoas. e me ensinou uma grande parte do pouco que sei. rendo-lhe minha homenagem.

TOUREIRO (nunca lhe soube o nome), OLÉ!


Escrito por Ronin às 19:17:07
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Para Helo


Helo, permita-me chamá-la assim.

Você menciona no seu post que sente raiva de alguns profissionais de saúde e que este não é um sentimento bom, mas que temos limitações inerentes ao ser humano etc. Quando você leu a história do Waldir, sabe que eu quis jogar a enfermeira do quarto andar. Eu senti ÓDIO, naquele momento. Ódio puro e irracional.

Infelizmente há Profissionais de saúde e profissionais de sAÚDE. E os que eu cito em segundo lugar são os que mais proliferam. Acho que o assistir diário da dor de outros banaliza a dor e reduz a capacidade de sentir. Mas isso, querida, tem um preço.

Há um Deus que a tudo olha e que a tudo vê, e que distribui a cada um segundo as suas obras.

Por isso, hoje, quando eu encontro um profissional assim eu simplesmente anoto o nome dele e levo à diretoria técnica do hospital ou o pego pelo pescoço, como peguei meu ultimo infectologista por causa de umas besteiras que ele me disse. Ele se encheu de razão, mas eu troquei de médico. Aprendi a me defender. Acho que todos devem fazer a mesma coisa: Quando for para ser atendido (a) por um profissional de saúde, a primeira coisa é perguntar o nome completo dele e analisar detalhadamente como este profissional age. E, se o profissional não for bom, vá ate a superintendência do hospital, ameace com a imprensa e faça queixa contra o profissional.

Quanto à força que você encontrou em mim, ela é inerente a todos os seres humanos. Imagine-se confrontada com duas alternativas:



1) Lutar por sua vida com tudo o que você tem à sua disposição em matéria de médicos, remédios, pensamentos, atitudes, cautelas, procurando não ter medo, não se assustar com os pequenos males que surgem pelo caminho enquanto procura fazer o melhor possível pelo mundo, que apesar de tudo te trata mal, e viver com a consciência tranqüila.

2) Desistir de tudo e morrer.



O que você escolheria? Naturalmente escolheria a opção numero um.

Infelizmente há os que desistem, os que desandam e se “vingam” do mundo disseminando a doença, os que se matam. Os que fracassam por falta de apoio, ajuda, orientação...

Eu escolhi a opção numero um. Mas, creia-me, há um preço a ser pago. Há 5 anos eu não tenho emprego, há cinco anos vivo da ajuda de amigos, há cinco anos faço pequenos trabalhos na web, como webmaster, ou em hardware (eu monto micros e vendo alguns itens de hardware no mercado livre) para manter um patamar mínimo de decência procurando não ser um peso definitivo para os poucos que ainda me amam...

A força, Helo, vem de Deus, que não a nega a quem O procura, e Ele pede muito pouco em troca...

Ele pede, apenas, que cada um faça a sua parte; no que não pudermos ser bem-sucedidos Ele fará o mais importante.

Beijos.

Cau



Escrito por Ronin às 19:16:34
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Noites de Natal

27/12/2003 00:49
Noites de Natal.

Para mim é impossível chegar à noite de natal e não olhar para trás. Há muito o que lembrar, nas mais variadas épocas. Não gosto nem de pensar nos cinco anos em que morei nas ruas e que, naquelas noites, e mesmo nas semanas que as precediam, meu coração se enchia de dor porque, pior que não ter para onde voltar é não ter para quem voltar...
Depois, veio Fátima, com sua bondade e missão de anjo travestido de garota de programas e, num passe de mágica, mudou minha vida. De ajudante de cozinha a DJ de boates tomou-se um ano. Nunca mais vi Fátima, nada sei sobre seu destino, mas em todos os natais me lembro dela com sua bondade, seu rosto queimado, a me ofertar amparo e segurança para que eu retomasse meus passos com dignidade.
Foi a partir deste ponto que passei a compreender melhor a natureza da vida de uma mulher que, não tendo outra escolha dentro de um sistema perverso como este em que vivemos, decide-se por vender seus favores a quem queira e possa pagar. Ó mulheres que a sociedade coroa com a respeitabilidade que fizeram jus por merecer, lembrai delas, as outras, e lembrai que são elas, muitas vezes, quem suportam a brutalidade de vossos filhos e vossos maridos...
Durante os 12 ou 14 anos em que fui DJ trabalhei em muitas noites de Natal. Não tinha família, não tinha laços, os que tinha estavam ali, na Noite...
E era nos dis 23 e 24, mais acentuadamente, que eu via o drama íntimo de cada uma delas.
Saudades dos pais, dos filhos, dos maridos... A dor de se ser o que se é...
Lágrimas, bebida, maquilagens borradas, a busca inconsciente de carinho, quase sempre ns piores fontes, tudo isso servia para aumentar, ao infinito, a dor destas mulheres.
Eu assistia a tudo. E não podia ficar impassível.
Às vezes soltava um gracejo ao microfone, fazia alguém sorrir ou, pelo menos, olhar para mim num misto de alivio e ternura... Outras vezes, era obrigado a por uma fita mais longa e acudir com uma à Santa Casa, para uma dosagem de glicose, porre forte, misturada de bebidas, beiravam ao coma alcoólico...
Cheguei a ser conhecido como o maior consumidor de glicose da Santa Casa... Mas este título, assim como outros, de nada me valeu.
Amei muito a uma delas, e não vou repetir seu nome, para que ela fique onde está, vivendo sua vida, julgando-se esquecida por mim, assim como me julgo esquecido por ela...
Assim, repletas de dores e lágrimas, são as noites de natal daquelas que, por indiferença nossa, ou absoluta omissão, tem como única escolha a dita “vida fácil”...
Ergamos uma prece por elas.

Feliz natal



Escrito por Ronin às 19:15:55
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Para os mais inflamados

A palavra de Deus é sagrada


Laura Schlessinger é uma personalidade do
rádio americano que distribui conselhos para pessoas que ligam para seu
show.

Recentemente ela disse que a homossexualidade é uma abominação de acordo com Levíticos 18:22 e não pode ser perdoado em qualquer circunstância. O texto abaixo é uma carta aberta para Dra. Laura,
escrita por um cidadão americano e também disponibilizada na Internet.


"Cara Dra. Laura

Obrigado por ter feito tanto para educar as pessoas no que diz respeito à Lei de Deus. Eu tenho aprendido muito com seu show, e tento compartilhar o conhecimento com tantas pessoas quantas posso.

Quando alguem tenta defender o homossexualismo, por exemplo, eu
simplesmente o lembro que Levíticos 18:22 claramente afirma que isso é uma abominação.

Fim do debate.

Mas eu preciso de sua ajuda, entretanto, no que diz respeito a algumas leis específicas e como seguí-las:

a) Quando eu queimo um touro no altar como sacrifício, eu sei que
isso cria um odor agradável para o Senhor (Levíticos 1:9). O problema são os meus vizinhos. Eles reclamam que o odor não é agradável para eles. Devo matá-los por heresia ?

b) Eu gostaria de vender minha filha como escrava, como é permitido
em Êxodo 21:7. Na época atual, qual você acha que seria um preço justo
por ela?

c) Eu sei que não é permitido ter contato com uma mulher enquanto
ela está em seu período de impureza menstrual (Levíticos 15:19-24). O problema é: como eu digo isso a ela ? Eu tenho tentado, mas a
maioria das mulheres toma isso como ofensa.

d) Levíticos 25:44 afirma que eu posso possuir escravos, tanto homens
quanto mulheres, se eles forem comprados de nações vizinhas. Um amigo meu diz que isso se aplica a mexicanos, mas não a canadenses. Você pode esclarecer isso? Por que eu não posso possuir canadenses ?

e) Eu tenho um vizinho que insiste em trabalhar aos sábados. Êxodo
35:2 claramente afirma que ele deve ser morto. Eu sou moralmente obrigado a matá-lo eu mesmo?

f) Um amigo meu acha que mesmo que comer moluscos seja uma
abominação (Levíticos 11:10), é uma abominação menor que a homossexualidade. Eu não concordo. Você pode esclacer esse ponto ?

g) Levítcos 21:20 afirma que eu não posso me aproximar do altar de
Deus se eu tiver algum defeito na visão. Eu admito que uso óculos para ler. A minha visão tem mesmo que ser 100%, ou pode-se dar um
jeitinho ?

h) A maioria dos meus amigos homens apara a barba, inclusive o cabelo das têmporas, mesmo que isso seja expressamente proibido em Levíticos
19:27. Como eles devem morrer ?

i) Eu sei que tocar a pele de um porco morto me faz impuro (Levíticos
11:6-8), mas eu posso jogar futebol americano se usar luvas? (as bolas
de futebol americano são feitas com pele de porco)

j) Meu tio tem uma fazenda. Ele viola Levíticos 19:19 plantando dois
tipos diferentes de vegetais no mesmo campo. Sua esposa também viola
Levíticos 19:19, porque usa roupas feitas de dois tipos diferentes de tecido (algodão e poliester). Ele também tende a xingar e blasfemar
muito. É realmente necessário que eu chame toda a cidade para
apedrejá-los (Levíticos 24:10-16) ? Nós não poderíamos simplesmente
queimá-los em uma cerimônia privada, como deve ser feito com as pessoas
que mantêm relações sexuais com seus sogros (Levíticos 20:14)?

Eu sei que você estudou essas coisas a fundo, então estou confiante
que possa ajudar.

Obrigado novamente por nos lembrar que a palavra de Deus é eterna e
imutável.


Seu discípulo e fã ardoroso.


Nome mantido em sigilo

Escrito por Ronin às 19:15:30
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Por ocasião do ano novo




Passei o ano novo em Santos. Não chamo de reveillon porque não faz o menor sentido.

Estava na amurada do corredor do prédio, no décimo terceiro andar olhando a praia com suas ondas e uma outra maré, humana, trajada de branco como as ondas, como que numa procissão.

Eu, pessoalmente, não vejo a razão para se comemorar um número. Seja ele 2004 ou 7547.

Havia, na praia, um sem numero de velas acesas, ofertadas a Iemanjá, um palco com um som horrível e músicos de qualidade ainda pior enquanto eu pensava no que Deus poderia achar disso.

Bom, é verdade que Deus deseja a alegria de Seus filhos. Mas, se pensarmos bem, Ele quer a alegria de todos os Seus filhos. E não é isso que eu vejo. E Ele, podendo abarcar de um só relance, uma realidade muito mais ampla, não deve estar satisfeito.

Eu, com HIV, Dislipidemia, Diabetes, hipertenso e desempregado posso me julgar um privilegiado diante dos 65.000.000 de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, comendo calango, se aparecer algum, ou feijão com farinha se tudo correr bem e o “Fome Zero (à esquerda)” chegar a tempo.

Enquanto isso, milhões de reais são literalmente queimados à guisa de espetáculo pirotécnico para uma multidão de deslumbrados que não vê nada, se não seus próprios narizes e as luzes fugidias a espocar nos céus de algumas praias. Se contabilizarmos os números teremos pouco mais de dez milhões de pessoas em toda as praias e grandes centros assistindo a isso, enquanto 65.000.000 passam fome.

Penso, no meu modesto entendimento, que festejaríamos mais e melhor se este volume de dinheiro queimado fosse transformado am ajuda humanitária para os menos favorecidos (65.000.000) que vagam por nossas terras sem uma côdea de pão... Por outro lado, vi, na TV, que alguns pratos chegam ao preço absurdo de setecentos reais, importância superior ao que muitas famílias têm para sobreviver por um mês...

Onde, por favor, a lógica disso?

Se me disserem que é a lógica capitalista e que eu sou um utopista mandarei ao diabo quem quer que seja.

Eu creio que um mundo melhor deve começar em cada um de nós através de mínimas abstenções em benefício de outros.

Ora, me dirão que estes que podem pagar setecentos reais num prato já ajudaram os pobres. Migalhas, eu respondo. Sempre as sobras, aquilo que não fará falta alguma. O desfile, a ostentação da opulência num mundo de miseráveis.

Eu cheguei a pensar que havia chegado a hora em que o Eterno Deus “Mu” dança...

Mas foi uma pavorosa ilusão e um despertar amargo. O poder realmente corrompe. As luzes das câmeras e o flash das máquinas fotográficas tendem a cegar e, pior, a levar a perder a memória, como naquele filme, MIB. Estamos cada vez mais entregues ao mercado de capital e o trabalho digno não vale nada.

Assim, Maria Joaquina e Sebastião Raimundo, numa posição diametral, cearam arroz e frango no natal, e deram graças a Deus por terem o que comer. O Custo da refeição, talvez uns 4 reais. Cozida na lenha, numa casa de pau a pique e barro, com poças d’água no chão barrento. Isso tudo com mais seis filhos barrigudos e um lampião aceso como único elemento de “show pirotécnico”.

Mundo mesquinho, sociedade mesquinha, povo oprimido, sem escolas, sem hospitais, sem porra nenhuma enquanto um bando de filhos das putas desfilam suas vaidades, quanse sempre com as piores putas que eu já conheci, aquelas que se travestem de damas da sociedade (de puta eu entendo) e desfilam seus colares, pulseiras e casacos em plena noite de verão.

Mas eu não perco a fé em definitivo.

Se o “Messias” que elegemos se corrompeu, há de haver um Deus e Ele ainda porá um drástico fim a tudo isso.

Neste dia, milhões serão justiçados.

Por agora, fica este meu arremedo de protesto.

Feliz (...) 2004.


Escrito por Ronin às 19:14:54
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Resposta para Elisabete

Resposta para Elisabete


Acabei de acordar

[Elisabete] [ainda não tenho][nem sei o que é isso]
Olá Cláudio. Li seus textos, aprecio seu jeito de colocar as palavras... Se te conhecesse, poderia afirmar que tem um vocação para escritor.. Gostaria de ter essa habilidade, já que tenho o dom de pensar em coisas impressionantes....porém não tenho dom de transformar os meus pensamentos em textos cativantes capaz de prender a atenção de alguém por mais de 5 minutos... Bom Como diz o ditado, nem sei se existe esse ditado, mas... pássaros voam desbravando o ar e a gravidade, contudo não podem mergulhar... Aliás antes que eu esqueça o motivo dessa mensagem, é apenas para incentivá-lo a continuar a narrar sua vida ou seus pensamentos e impressões...rs. e também para perguntar se vc é realmente um soro positivo. Caso a resposta seja sim, gostaria que "descrevesse" sua história. bom, é isso ai... até mais... Quem inventou esse tal de blog, será mais uma imitação de alguém que não é brasileiro, ou será que eu sou mais uma, das milhões de pessoas sem conhecimento...?

18/01/2004 01:42





Sim, sou soropositivo. E a historia em si não vai caber num post. Mas, resumidamente, eu sai de casa com 12 anos. Morei nas ruas de Sampa até os 17, quando uma garota de programas, Fátima, me arranjou, mais por piedade que por qualquer outra razão, um emprego de lavador de pratos na antiga boate Louvre, que ficava na Tua Major Sertório, 190. Hoje, temos ta um estacionamento (tudo é volátil). A cozinha fechava cedo e eu fiz amizade com o sonoplasta d casa que me ensinou a profissão. Depois de um ano eu era assistente dele e não demorou muito para que eu tivesse minha própria cabine de som... Ser DJ é ser um para raio de mulheres. E se você levar em conta os anos de solidão e carência afetiva que vivi nas ruas, é natural que eu tenha disparado a transar com todo mundo. Sexo, para mim, se tornou um vicio.

E como qualquer viciado eu não tomava nenhum cuidado. A bem da verdade eu tenho cá comigo algumas tendências suicidas e sempre que pensava na IDS no meio da transa pensava, se pegar, pegou. Peguei mesmo. E foi o fim da carreira de DJ. Você pode encontrar a minha história toda no livro Histórias de coragem, da Editora Madras, não custa mais que vinte reais, são 15 páginas minhas, 14 autores, é um livro para se ler e pensar...

O que sei é que fui literalmente expulso da noite e que meus amigos e amigas se mostraram: Apenas colegas de farra.

Todos me abandonaram e foi um longo recomeço.

Hoje mantenho dois sites.

www.soropositivo.org com mais de 3000 paginas de informação sobre HIV e AIDS

www.amorpositivo.com que é um site de relacionamento para soropositivos.

Inicialmente, minha idéia era cobrar 30 reais por trimestre. Mas percebi que a imensa maioria não pode pagar e deixei gratuito mesmo, avisando que eu não tenho emprego, e que é difícil para mim manter aquilo funcionando. Que se pudessem, efetuassem, vez por outra, uma doação. Este regime começou a três dias, não da para avaliar se darão alguma coisa.

Eu espero que sim, pois o fato de eu ter um computador e acesso a Internet não significa que eu esteja bem de vida. O computador eu ganhei de presente.

A conexão é paga por outra pessoa.

E não é sempre que o Governo dá todos os remédios que eu preciso. Não falha nos antiretrovirais, mas falha muito em outros, que preciso comprar e as vezes chego a gastar, com a ajuda de outros, mais de R$ 200,00 por mês em remédios como Rohypnoul e cedur, dentre outros.

Espero que isso satisfaça a sua curiosidade.

Vou me limitando por aqui.

Dúvidas? Sou o paciente 3256664j da Casa da AIDS na Rua Frei Caneca, em Sampa, tel 11 31205290

Beijos

Cau


Escrito por Ronin às 19:14:34
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